“Século XXI, esperávamos mais de você”: entrevista com Thiago Miazzo

capa da revista elle brasil, dezembro de 2016: “o que a moda diz sobre o futuro“.  matéria: uma entrevista com a robô sophia, projeto de inteligência artificial capaz de raciocinar e falar. nossas previsões de futuro, distópico ou utópico: jetsons. carros voadores. robôs. asimov. neuromancer. laranja mecânica. matrix. gattaca. wall-e. black mirror.

como explicar para nossos entes queridos (e já falecidos) que ultrapassamos a barreira do ano 2000 sem um carro voador, um apocalipse nuclear ou uma revolução dos ciborgues? o futuro é hoje: o glifosato, o krokodil, a lama da samarco, a indústria automobilística, shopping centers, empreiteiras, o facebook.

no festival novas frequências, thiago miazzo (com a participação especial de última hora de cadu tenório) retrilhou o jogo destruction derby, uma série de corrida de destruição de carros. é a síntese perfeita da música de miazzo. a partir de uma estética baseada na baixa resolução lo-fi e na apropriação, colagem e loops maníacos de símbolos da cultura de massa, ele opera no ferro-velho imagético do capitalismo.

a grosso modo, os seus discos dividem-se em dois grandes blocos: o vaporwave e colagens (os projetos mesbla e bluetoy, mixtapes como a usurpadora ost etc) e o noise (aka cannibale, gruta, pallidum, boxers, os discos volume 1 e volume 2). você percebe esses dois blocos como uma coisa de fato distinta ou enxerga ligações (estéticas ou conceituais) entre eles? 

a primeira etapa do processo de composição solo consiste em encontrar um nome tanto para o álbum quanto para o projeto propriamente dito. pensar em um nome que ilustre o conceito é sempre o primeiro passo dado. foi assim com o fluid druid (projeto dedicado ao surf e cultura caiçara), também foi assim com a nostalgia anticapital do mesbla ou a fixação por ondas curtas explorada no alfa lima international, inspirado na estação de rádio de mesmo nome. são exceções os pseudônimos beff juckley e bluetoy/ psychic toy, que seguem uma linha mais punk/ lo-fi, um lance mais canção mesmo. a primeira metade do sketches for holes in yr aura, por exemplo, foi gravada no celular, em uma noite de tédio e de falta de energia elétrica. o álbum seguinte – na verdade uma demo – kph foi gravado e composto em uma única tarde, secando uma garrafa de saquê e pirando no envelope filter novinho que eu tinha acabado de pegar. enfim, são processos bem distintos, alguns mais difíceis do que outros.

o alfa lima internacional então surge a partir dessa “fixação por ondas curtas”, mas e o álbum heavy metal maniac (2014), especificamente? poderia detalhar o processo de criação?

heavy metal maniac foi composto com um tape deck conectado a um pedal de fuzz e delay. Trata-se de uma fita cassette contendo um album chamado heavy metal ears da banda picture. primeiramente, a fita foi rebobinada, é isso que gera o drone que se arrasta por alguns minutos. quando a fita chega ao fim, o estalo seco do tape deck também foi sugado pelo delay. depois disso, dou dois plays na fita e um pequeno fragmento do album original soa, sendo soterrado a seguir pelo delay. trata-se de outra faixa que gravei em um só take, sendo a segunda faixa on the floor uma composição com dois canais de ondas de radio sobrepostas. o tempo passou, mas heavy metal maniac ainda é um dos meus álbuns mais completos por assim dizer.

comentando sobre o álbum s/t de j.-p. caron, você diz que o trabalho dele “parecia um tanto incompatível com a minha personalidade inquieta, com a forma como eu me reconheço em minhas próprias limitações”. contando pelo catálogo de seu site, você tem 12 projetos, além de incontáveis faixas em vários perfis do soundcloud. essa enormidade de produção é fruto dessa inquietude que você menciona e do modo como você escuta música? 

sou um cara que elabora ideias em constante movimento, normalmente andando no apartamento de um lado para o outro. quando eu era criança, uma das minhas primeiras professoras adestrou o restante da sala a completar o “thiago…” com um ‘senta!!’ em uníssono, haha. eu não sei ao certo o que eu tinha, na época eu me queixava de “uma vontade incontrolável de esticar as pernas”. nos dias de hoje, provavelmente eu seria diagnosticado com tdah e tomaria um monte de ritalina, mas naquela época, esse tipo de comportamento era lido como indisciplina.

essa inquietude permanece. nunca mudou. confesso que tenho muita dificuldade em parar para ouvir alguma coisa, aquele papo de escuta estrutural, saca? o mesmo vale para filmes e séries, é muito difícil eu conseguir sentar pra fazer qualquer coisa que demanda algum tempo, mantendo o foco. esse imediatismo reflete diretamente em parte da minha obra, com destaque para os projetos boxers, beff juckley e bluetoy. são trabalhos que nasceram completos, compostos e gravados in loco, a maior parte das gravações feitas em um único take.

o tempo é foco da segunda parte de seu texto sobre vaporwave para o blog matéria. é curioso que boa parte das suas faixas no soundcloud não passam dos dois minutos. então, o tempo é um questão importante para você? poderia detalhar mais isso?

não digo que o tempo é de fato uma questão, mas tenho por hábito deixar as tracks mais curtas. creio que se trate de uma herança do noisecore, aqueles 7″ do seven minutes of nausea com 300 tracks em pouco menos de dez minutos. acho que um dos fatores que determinam uma boa performance é a sua duração. saber a hora de encerrar a apresentação é um pré-requisito muito importante para uma boa performance de noise.

 já na primeira parte deste mesmo texto, me chama atenção este trecho:

Como explicar para nossos entes queridos (e já falecidos) que ultrapassamos a barreira do ano 2000 sem um carro voador, um apocalipse nuclear ou uma revolução dos ciborgues? E mais do que isso, como viver sem uma data para que isso aconteça?  O futuro é o hoje: a prótese robótica e a usina radioativa que vaza sem sair nos jornais. Mas para nós, ninguém voa e ninguém morre.

o vaporwave é sobre esse “fracasso” das imagens de uma tecnologia grandiosa da ficção científica? de que forma essa tecnologia te interessa seu e como ela se reflete na sua música?

vou usar de mais uma memória minha para ilustrar o meu ponto de vista sobre o “fracasso da tecnologia” – que é ao meu ver um dos nortes do vaporwave. quando eu tinha uns sete anos de idade, ganhei um mega drive no natal. quando meu pai me entregou a caixa, ele disse: “esse videogame fala!” cara, eu fiquei maluco, imaginava o videogame me perguntando como tinha sido o meu dia, uma saudação robótica cada vez que eu o ligasse. bom, foi tempo de abrir a caixa, botar o cartucho de altered beast pra rolar e sacar que ele não diria nada além de “rise from your grave!”. não digo que esse evento destruiu a minha vida, mas confesso que fiquei  bastante decepcionado, haha. esse imaginário (cômico, como grande parte das coisas que as crianças falam) reflete bem a maneira como a minha geração (tenho atualmente 31 anos) encarava o ano 2000, incitados pela publicidade dos anos 80 e 90: a lancheira que não quebrava era ‘a lancheira do século xxi’, a faca ginsu que cortava sapatos (?) era ‘a faca do século xxi’. finalmente, chegamos ao tal século xxi e a coisa mais tecnológica que eu tenho à disposição é um descascador de legumes que a minha companheira comprou para a nossa casa. século xxi, todos nós esperávamos mais de você.

sei que você também pira na teoria aceleracionista. qual a relação entre as ideias do aceleracionismo com o vaporwave?

as coisas no vaporwave (e em outros gêneros que transitam de forma confusa entre a cultura do 4track recorder e os primórdios da pc music, até a sua consolidação) não se encerram após o lançamento do album ou da track. creio que eccojams vol 1 [álbum de chuck person, alter ego de daniel lopatin aka oneohtrix point never] seja um bom exemplo disso, trata-se de um disco que nunca parou de ser revisitado, reorganizado. enfim, mais me parece uma caixa de lego do que um disco pronto, que me limita à condição de ouvinte. na real, essa prática da exaustão ja se fazia presente em outros gêneros, como o chopped & screwed e a extensa e precisa obra do dj screwed, o reinventar do pop e do r&b, mas foi somente no vaporwave que essa pauta fez de fato parte do conceito.

eu acho ideia da “caixa de lego” muito boa, mas qual a relação disso com o aceleracionismo em termos práticos?

o aceleracionismo aponta – grosseiramente falando – que o capitalismo e os meios de produção serão impulsionados a tal ponto que entrariam em colapso. seria esse contingente de remixes de diana ross um impulso que leva a musica/o remix /a industria musical ao colapso?

fala sobre a apresentação do novas frequências. destruction derby foi uma ideia sua ou uma proposta do festival? por que escolheu este jogo? 

acho que foi em 2013 que eu gravei um álbum (que eu exclui do bandcamp e acabei perdendo o original em alguma formatação) chamado destruction derby ast. na verdade, o álbum compilava diversos ruídos provenientes do trânsito e do espaço urbano, tudo processado e loopado. o chico dub ouviu e gostou bastante do conceito. finalmente, em 2016, me convidaram para participar do novas frequências apresentando essa peça. acho que esse universo de destruição protagonizado por carros de combate reflete muito como eu vejo as pessoas na minha cidade, estejam elas motorizadas ou não. as pessoas se encaram com desespero por aqui, não é incomum alguém te encarar na rua como se precisasse de ajuda. 

destruction derby

Gamboa_0049

miazzo retrilha destruction derby com participação (inesperada) de cadu tenório

 

um procedimento que você usa muito é o loop, de modo quase obsessivo. a teoria schaefferiana pensa que a repetição do tipo loop (o sulco fechado, o laço na fita) apagaria o significado (semântico, indicial) e liberaria o conteúdo (sonoro). para você, como funciona essa prática?

isso foi algo que se desenvolveu a passos mais largos ao longo das primeiras gravações do mesbla, profundamente influenciado pelo eccojams vol 1 [de chuck person] e floral shoppe [de macintosh plus]. não demorou para esse método começar a influenciar meus projetos de noise. cheguei a cortar algumas fitas e fazer fitas de loop, totalmente diy. uma dessas fitas resultou no album ‘medication’. trata-se de um processo meio xarope, dá um baita trabalho fazer. mesmo assim, pretendo lançar algum outro trampo nessa fórmula em um futuro próximo.

eu tava pensando em termos do efeito sonoro, o q vc busca com o loop é, como aponta o schaeffer, esvaziar esse significado?

se eu te falar que sim, tô mentindo porque nunca tinha sequer pensado nesse papo do schaeffer. e falar que não seria muito simplista. pra mim um sample loopado não é tão diferente de um drone, no fim.

eu penso que tem um efeito diferente. como naquela faixa do fábio assunção, quando unidades mínimas da fala dele são loopados. ou quando a intro da música do usher lá é loopada  (e fica só o “ok… ok…”). o drone parece muito mais uma suspensão do tempo, enquanto esse loop parece repetir imagens infinitamente, esvaziando o significado original e criando um novo contexto.

tem razão, comparação nada a ver essa minha.

cara, acho que eu nunca pensei no loop dessa forma, pra mim é algo bem mais intuitivo – por isso a comparação com a sensibilidade do gerar um drone. manter aquele loop rolando, com aquela “falsa” (não sei ao certo se é falsa, segundo o caron, o mesmo loop em sequencia deveria soar sempre igual) sensação de que tem algo de diferente acontecendo, alguma frequência que não estava no loop anterior. eu pelo menos sempre entro na onda do “nossa mas esse oitavo loop tá soando diferente!”

faixas como スピー / f e a r o f t h e d a r k™/ db a l t o n, trump says “death to china” 1.35 billion times, a mixtape fruto proibido (com lucindo), as músicas assinadas como bluetoy e mesbla e até os seus vídeos também têm uma vocação para o humor. essa é uma intenção? que papel esse humor exerce nos trabalhos?  

não foi exatamente a intenção, na verdade é um reflexo da minha própria personalidade e também a das pessoas que eu tenho mais afinidade e convivência. sou um cara que curte dar risada até passar mal, algo próximo do berro/morta de hoje em dia. não curto rir de pessoas, prefiro rir com as pessoas. esse tipo de humor maldoso que visa colocar o outro para baixo me enoja. riso sem maldade mesmo,  normalmente faço trocadilhos com discos que eu gosto, como os bootlegs we’re only gonna live from our own arrogance e consciência breakcore atitude no wave (ambos assinados como bluetoy). de qualquer maneira, tomo certo cuidado com a dosagem do humor, pois eu bem sei que algumas coisas que são engraçadas hoje não serão tão divertidas amanhã. trata-se de um processo natural, acho importante ouvir o outro e me permitir amadurecer. hoje, repensar um posicionamento não é tão difícil quanto era há uns quatro, cinco anos atrás.

uma audição superficial dá a impressão de que volume 1 é um disco de harsh noise wall, aquela parede intransponível de ruídos. mas quando se escuta com mais atenção, percebe-se uma série de sons e camadas se sobrepondo aos poucos e a também construção de um ritmo. é como se fosse um álbum de noise, mas com procedimentos de techno. esse era um interesse? fale mais sobre o disco.

quando comecei a gravar o volume 1, não queria que ele soasse de forma contínua, dai recortei as tracks em pedaços muito pequenos, que quando coladas remetessem ao transe do techno. no volume seguinte, me aprofundei ainda mais nisso. com certeza era um interesse e o fato de discutirmos isso nesse instante me faz perceber que alcancei meu objetivo 🙂

você nasceu em são paulo, certo? como conheceu o cadu tenório e como começaram a tocar juntos? qual foi a ideia para formar o gruta (e o conceito específico deste álbum mito)?

nasci em são paulo e sempre vivi em sp, mas não morro de amores pela minha cidade. conheci o cadu em 2005, de lá pra cá continuamos bem amigos. começamos a tocar juntos em 2009 e ainda hoje o cadu é um dos meus principais parceiros de trabalho. quanto ao gruta, cada álbum foi gravado obedecendo a um conjunto de regras (leis pesadas): o primeiro, grito foi gravado sem qualquer tipo de instrumento, apenas microfones foram utilizados. mais do que isso, um não ouvia o que o outro estava fazendo. no final, as duas gravações foram sobrepostas, dando origem ao álbum. os álbuns seguintes, mito e rito tiveram uma atmosfera ritualística como direcionamento conceitual, deixando a música livre de restrições.

você também trabalha com fitas k7 e gravações em vhs ou com filtros de vhs. o que te chama atenção para trabalhar com essas ferramentas?

não faço uso de filtros. todo o meu processo de produção visual atualmente é restritamente analógico. exceto as produções mais antigas, como a série dj andre marques manda aquele eccojams vol 1 que foi filmada com o celular e loopado na unha, clicando direto na barra, haha. sempre gostei do visual do vhs, nunca deixei de comprar fitas cassette ou vhs. gosto da maneira como as coisas soam em uma fita cassette, o foco nos médios e a sonoridade lo-fi. Tudo isso me acompanhou por toda a vida e adentrou o meu trabalho de uma maneira bem natural.

 

originalmente publicado em 15 de dezembro de 2016.

Facebook Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *