Conrado Falbo & Thelmo Cristovam: o que pode uma gravação?

“Os grandes artistas do século XX não são os que fizeram obra, mas aqueles que inventaram procedimentos para que a obra se fizesse sozinha, ou não se fizesse”, propõe César Aira, citando a lógica da indeterminação e do acaso de John Cage.

Seguindo adiante com a ideia do escritor argentino, podemos pensar a arte do século XXI dentro de um conjunto de radicalizações que levam estes procedimentos aos seus limites próprios. Uma série de questionamentos que escancaram contradições e trazem à tessitura diurna da palavra os paradoxos destes mesmos procedimentos — lembremos de Música do Brasil (2000), de Hermano Vianna e Beto Villares, que fecha o século XX afastando o ideal museológico/antropológico do “mapa sonoro” e das “gravações de campo” ao destacar uma perspectiva mais solta e descolonizada, propondo também uma nova cartografia baseada no “espaço da brincadeira” e no conceito de “rede”.

Conrado Falbo & Thelmo Cristovam é a gravação de uma improvisação de Conrado (ator e cantor que pesquisa técnicas vocais expandidas) e Thelmo (músico, improvisador, pesquisador em psicoacústica e membro do Hrönir) ocorrida no Suplex Xangai, apartamento no Edifício Pernambuco, no centro do Recife. Numa primeira escuta mais desatenta, pode-se pensar que o disco é, na verdade, uma espécie de bootleg. Mais um dentre tantos registros de performance que Thelmo, em seu vício por arquivo, publicou em seu Bandcamp. Contudo, uma escuta ativa, permitindo-se a imersão no disco, mostram que há bem mais ali.

O trabalho de Thelmo Cristovam na área das gravações de campo parece ter como motor a seguinte pergunta: afinal, o que pode uma gravação? A partir dessa provocação, o músico e pesquisador pernambucano atua numa zona limiar, explorando contradições, disputas e consensos que cercam o próprio conceito da gravação de campo. O primeiro ponto aqui é perceber que, ao gravar o próprio show com um gravador de mão, captando o som ambiente (em vez do som “controlado” de uma mesa de som), Thelmo tensiona a própria noção de “campo” das gravações de campo, saindo da esfera da bela natureza — operação que Paulo Dantas também fizera em Mono, no álbum Cidade Arquipélago (2015).

Não obstante os solos incríveis de Conrado Falbo (que vai da tosse ao uivo e o riso) e sua sintonia com Thelmo, o som da performance em si é ofuscado pelo tipo de captação usado. Por outro lado, os sons ao redor vão aflorando — e isso é o mais interessante do álbum. Um silêncio contemplativo, dedicado e gélido irrompe nasce em meio ao público da festa no Suplex Xangai (e aqui fica a pergunta: o que o ruído silencia?). Mas gradativamente vão aparecendo ruídos vindos de fora. Gritos de bêbados discutindo e pregações religiosas no meio da noite, indiferentes aos hiperagudos do saxofone, vão invadindo a paisagem do álbum. O microfone torna-se um instrumento substancial: o álbum não é a gravação da perfomance, mas sim a performance situada no ambiente e na paisagem sonora que a cerca.

Apesar de trazer esse entorno, o álbum não pretende assumir compromissos com uma representação do “real”, afinal, como o próprio Thelmo já salientou, a gravação é o som deslocado no tempo e no espaço. Conrado Falbo & Thelmo Cristovam é uma ficção dos sons que experimenta a própria gravação, ao mesmo tempo em nos diz, discretamente, que há sempre mais a se ouvir. A escuta como exercício imaginativo.

Facebook Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *