Tantão e os Fita – Drama: o nacionalismo partido

Falar em vanguarda negra ou afrofuturismo não é uma reivindicação por novos gêneros ou uma tentativa de demarcar territórios, mas sim um exercício contínuo de compreender e ressaltar um experimentalismo radical que, embora dialogue, ocorre às margens do estatuto oficial do avant-garde e seus mecanismos eurocêntricos de legitimação — seja a eletroacústica ortodoxa das universidades ou a Wire. Daí temos fenômenos fora de série como Negro Leo e Niños Heroes, um amálgama diegético das técnicas de improvisação livre com operações de montagem, colagem e edição da música concreta em forma de canção popular. O refundar o tempo de Anganga, Bongar e Anderson Miguel, que despem as tradições afrobrasileiras de sua roupagem folclórica em uma reinvenção constante no agora. Ou mesmo God Pussy e sua recusa da eletroacústica formalista em um gesto artístico onde ativismo e ruído não se dissociam.

Por extensão, poderíamos pensar nesse panorama de artistas como um proto-projeto de nação, outro Brasil, no qual os negros seriam integralmente incluídos na sociedade democrática e teriam seus direitos plenamente realizados. Afinal, a ideia dos negros como grupo nacional ou protonacional, com sua própria cultura hermeticamente definida, desempenha um papel fundamental na história do pensamento afrocêntrico, muitas vezes como resposta integral ao racismo moderno. Como observa Paul Gilroy, em O Atlântico Negro (p 92), “a ideia de nacionalidade ocupa um lugar central, ainda que mutável, na obra de Alexander Crummell, Edward Blyden, Martin Delany e Frederick Douglass. Este grupo de pós-iluministas (…) muitas vezes parece compartilhar a crença decididamente hegeliana de que a combinação entre cristianismo e estado-nação representa a superação de todas as antinomias”.

Segundo álbum de Tantão & Os Fita, Drama parece corporificar essa discussão entre raça e nação revelando o que podemos chamar de nacionalismo rachado ou nacionalismo partido
— um Estado-nação excludente que serve apenas aos anseios da elite empresarial voltada aos Estados Unidos e ao neofascismo, marcado pelo extermínio das minorias sociais. No caso brasileiro, este nacionalismo é um sentimento despertado em meio aos protestos de junho de 2013 como afirmação icônica e positivista da bandeira do Brasil (contra os símbolos de movimentos sociais à esquerda), depois maturado em forma de campanha moral anti-corrupção no impeachment de Dilma em 2016 e no ethos da Lava Jato, consolida-se como ninho de cobras neofascistas e, por fim, efetiva-se como política com a eleição de Bolsonaro. Sem muitas surpresas, mas ainda assim trágico: o nacionalismo foi a isca do totalitarismo violento, misógino e, acima de tudo, colonial e escravista. E aqui estamos. Nós e nosso drama.

Mas Drama não é um álbum retrospectivo. Nem estritamente político (do tipo militante ou engajado). O lirismo paranoico e surrealista vociferado por Tantão é sobre as fissuras e a vida que corre por entre essas brechas. Quando canta a “Música do Futuro”, ele não faz um manifesto sobre novas diretrizes estéticas ou um tratado de resistência. Pelo contrário, seus versos sublinham as rachaduras de qualquer essencialismo conveniente: “A divisão vai rolar/ A divisão dos mundos/ Mundo dividido/ Tá pegando fogo/ Mil graus Celsius”. E quando evoca um certo nacionalismo em “Nação Pic Pic”, o faz apenas para trazer à tona a população invisibilizada pela própria nação, que resiste à violência cotidiana sistemática e institucionalizada do Brasil: “Quantos negros tem aqui? Quantos índios estão aqui? Quantas trans estão aqui? Quantos gays? Quantas mulheres?”

Em termos sonoros, Drama articula a música de pista negra de diferentes cantos do mundo, tecendo uma rede de beats eletrônicos que conecta indistintamente o novo funk 150 BPM das favelas do Rio de Janeiro ao kuduro angolano, passando pelo footwork de Chicago e o grime de Londres. No entanto, nenhuma dessas influências é aplicada em sua forma literal. Pelo contrário, eles são o ponto de partida para uma experimentação particular, em que as fronteiras das misturas acabam ficando indiscerníveis (como catalogar uma música como “Síndrome”?). “Não pretendemos fundar nenhum gênero musical, talvez para destruir alguns”, pontua Abel Duarte, um d’Os Fita.

Inscrito na complexa e plural rede do experimentalismo negro contemporâneo, Drama irradia sua energia em diversas direções, sem visar uma sucessão de gêneros ou tropos. Entre seus aspectos mais contundentes, está o ímpeto transformador, potente e inerentemente subversivo que opta pelo fluxo em vez de estabelecer pilares e demarcar territórios. Com seu discurso crítico ao nacionalismo racista e xenófobo, Tantão e os Fita esquivam-se e não caem na armadilha de propor uma outra nação. A seu modo, lutam pela inclusão do Outro. Se a arte está no campo do porvir, Drama lança o possível da imaginação com acuidade crítica contra o real. Conjurar e instituir novos modos de criação, vida e felicidade no sonho de um mundo em que a opressão racial será enfim superada.

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One thought on “Tantão e os Fita – Drama: o nacionalismo partido

  • 23 de March de 2019 at 19:00
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    Drama x Drummer – é Tantão e os Fitas. Vida Longa!

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