Sobre fracasso e clausura: entrevista com João Pádua (Vulgar Débil e Tumere)

man is a self-conscious nothing. vulgar débil e tumere tratam do fracasso, impotência, clausura: erro suficiente; insistência falida; anomia. “a quantidade de prisões que não diminuem, e as celas se descaracterizam, se aperfeiçoam, se ambientalizam”.

frutos “da dúvida e do vazio produtivo” e “de espantos e espasmos errantes entre dias e mais dias torturantes”, os dois projetos são criações de joão pádua, mineiro da cidade de cássia que atualmente vive em são joaquim da barra, são paulo. por email, ele detalha a poética processo de criação dos quatro seus álbuns, todos lançados este ano – três como vulgar débil e mais um como tumere.

como surgiram o vulgar débil e o tumere? e o que os diferencia? são projetos distintos ou é uma continuidade poética entre os dois?

o vulgar débil é uma alcunha que uso já há bastante tempo, e foi uma denominação que encontrei em um livro de direito penal, há uns cinco anos atrás, e que significa uma pessoa que tem costume de praticar pequenos delitos. desde então comecei a usá-lo como o “espírito” por trás de tudo o que faço, pensando cada obra como um delito, uma transgressão às normas impostas. com o vulgar débil eu sempre trabalhei em cima de temas mais introspectivos, pessoais e emocionais. o tumere surgiu de repente, em dias em que eu estava saturado de más notícias, e com a incongruência de todo o sistema em que estamos inseridos e as complicações que dela advém. portanto, o tumere eu costumo chamar de manifesto ante tantas insatisfações e desilusões, sendo que com ele já trato de temas mais externos e sociais.

o vulgar débil e o tumere possuem uma conexão com o material textual dos blogs vulgar débil e um talvez cético, respectivamente. o que veio primeiro, a escrita ou o som? e como você enxerga a relação entre os textos e os discos?

a escrita já está comigo desde quando comecei a refletir sobre as coisas de uma forma mais crítica, desde a minha adolescência. comecei a escrever como uma forma de desabafo, pois sempre fui muito introvertido, e não era muito bom em desabafar pessoalmente com as pessoas, e também porque falar nunca resolveu nada. sendo assim, os trabalhos foram tomando forma, e eu fui percebendo um “estilo” e uma certa continuidade temática entre cada texto ou aforismo, e por isso decidi começar a publicar, pensando “talvez um dia alguém leia”. tanto os textos como os projetos musicais surgem de muitos questionamentos diários, de emoções que vão sendo processadas ao longo do tempo, e que acabam sendo expressadas nessas formas. porém eu nunca faço projetos para uma obra qualquer, todas surgiram de impulso, de um repente que me leva a fazer e a procurar maneiras diferentes de expressão dos meus sentimentos, e por isso posso concluir que há sim uma relação bem íntima entre os discos e os textos escritos.


colagens do vulgar débil

colagens do vulgar débil
colagens do vulgar débil

os álbuns do vulgar débil mencionam uma indiferença epicurista, insistência falida, erro suficiente etc. um texto no blog aponta: “a falácia tendenciosa em cada pensamento de resistência: a filosofia que nunca existiu”. em que sentido o fracasso interessa ao vulgar débil? 

o fracasso é o grande motor dos projetos, seja no tumere, com o fracasso das instituições que nos são impostas, como no vulgar débil, com os fracassos e obstáculos cotidianos. o fracasso, porém, para mim, não tem um sentido puramente negativo, pois é ele que me impulsiona a seguir em frente, a produzir e a reagir, mesmo que seja para fracassar de novo. é uma conduta de aceitação, no fim das contas, porém sem se esquecer do tortuoso caminho perpassado. é uma espécie de amor fati, porém um pouco mais melancólico do que o conceito nietzschiano. em indiferença epicurista eu quis demonstrar uma conduta de indiferença ante todas as adversidades, por mais violentas que elas sejam, como uma forma de comportamento defensivo, talvez. já em insistência falida e erro suficiente, o que demonstro é a tendência de se auto humilhar, de se jogar em situações nas quais o erro, a decepção e a inconformidade são iminentes, e mesmo assim, se continua, buscando uma certa forma de purificação, de demonstrar a realidade, a queda das máscaras.

comportamentos deste tipo, para ilustrar, seriam os descritos em memórias do subsolo, do dostoiévski. já nessa passagem de “entre os que nascem e morrem anônimos” é uma demonstração de que quando se pensa e se critica demais, não há filosofia que subsista, ou ideologias que lhe deem as respostas necessárias, e por isso, há de se criar as próprias regras, valores e “filosofias”, só que este caminho é longo e nunca livre de adversidades. isso, por si só, resume o substrato de todos os trabalhos.

como você percebe o niilismo em sua música? o que ele representa? a “decomposição”, a saturação ou mesmo o vazio parecem por vezes uma forma de redenção, como em if i was afraid of dark, i wouldn’t be born ou no texto de apresentação do tumere: “como um câncer, procuro a metástase. a completa degradação pela saturação”.

o niilismo, como eu disse, é essa tentativa de se evadir de si mesmo, de não encontrar solução para as suas perguntas e acontecimentos e buscar o refúgio no nada. as criações, portanto, nada mais são do que uma tentativa de expurgar esse comportamento, manifestando-o, expressando-o até a saturação, até a completa degradação. é uma constante busca de pureza, de identidade, contra toda a falsidade com a qual temos que agir nas nossas relações sociais. o descompasso entre o eu interior e o comportamento exterior, seja com o trabalho, amizades, família e outras convivências. if i was afraid of dark, i wouldn’t be born é uma espécie de mantra, uma declaração para o mundo, demonstrando certa coragem, e uma predisposição a enfrentar a escuridão de cada vivência dentro de toda uma existência. o próprio som das faixas demonstra essa intenção de degradação pela saturação, por serem construídas com base em samples angustiantes e sons repetitivos, levando a uma espécie de catarse ou de plena contemplação caótica.

nihil admirari é um álbum de colagens com sons que parecem gravações de campo processadas/distorcidas, enquanto entre a chuva e a lama e clausura possuem elementos mais “musicais”. aparecem sintetizadores, voz, um violão até. como foi o processo de criação e gravação dos álbuns?

o processo de criação dos álbuns é bem curioso, já que eles nascem de um impulso. eles derivam de muita experimentação, buscando sons que possam passar a emoção pretendida, e que está por trás de cada faixa. às vezes tenho os sons em minha cabeça, e tenho que ir atrás de encontra-los e produzi-los na realidade. já em outras faixas uso de gravações aleatórias, que juntas vão tomando formas e conseguem representar o que eu quero. nunca houve uma tentativa de se fazer algo grandioso ou com alguma pretensão, mas sim a pura experimentação de criar atmosferas que delineiem os sentimentos que procuro expressar. em nihil admirari foi uma busca por sons mais violentos, e que pudessem representar a apatia ante tudo o que eu estava vivenciando naquele momento. entre a chuva e a lama foi feito com experimentações de campo e também com violão, como na faixa if i was afraid of dark, i wouldn’t be born, porém eu não queria que o violão soasse puro, por isso deixei ele bem distorcido, dando um tom de blues obscuro. o mesmo aconteceu na faixa iconoclasta, do tumere. algumas músicas, e principalmente em tumere, usei de samples de cenas de alguns filmes, como por exemplo o diário de um suicídio, de 1973, do stanislav stanojevic. também gosto muito da potência sonora dos metais, e os uso bastante, nas mais variadas formas, amassando, riscando, chacoalhando e batendo.

uma faixa que me chama atenção é “decomposição da matéria orgânica”. soa de fato como uma decomposição, detritos sonoros. como foi feita? parece até o som de algo fritando…

em redução da matéria orgânica eu quis demonstrar um processo mórbido, como o da morte, no qual lentamente a matéria vai se reduzindo, até o total desaparecimento. nela eu usei, basicamente, gravações de campo e de processos de redução, literalmente, como corte de carne, quebra de galhos, fervura de água, entre outros. é uma espécie de processo alquímico sonoro.

entre nihil admirari, a lama e a chuva e em clausura, você percebe ou mesmo pensou em um fio condutor que os interligasse? como os discos se relacionam entre si?

bom, com certeza o que liga todos os álbuns e os projetos são a experiência da existência, com todos seus descompassos, e a minha visão conflitante diante de todos os acontecimentos e sentimentos. como eu digo na faixa a urgência da liberdade: “sentimentos conflitantes formam os elos da corrente”. o álbum em clausura resume esse sentimento de aprisionamento interior e da vontade de se expandir, se expressar e se livrar das algemas.

originalmente publicado em 27 de novembro de 2016.

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