Ritmo, transe e axé: Kanye West e o Sunday Service

Sunday Service pode até ser sobre reafirmar as tradições afrodiaspóricas no seio da música gospel — algo como make gospel black again. Mas para além desta conotação mais simples identitários, Kanye West parece propor uma subversão mais radical no âmago da própria liturgia cristã-protestante. Sua ação não se ordena pelos eixos da política identitária, mas sim pelas intensidades do transe, da catarse, das paixões coletivas.

O elemento principal para apreender a operação de Kanye é o uso dos tambores como método de intensificação dos devires do transe frente à impotência da palavra.

Muniz Sodré aponta (nos livros Pensar Nagô e Samba, o Dono do Corpo) que nas culturas africanas o conceito semântico da palavra não está apartada do plano corporal e dos gestos. Neste contexto, a música, cujo ritmo é seu elemento organizador, ocupa papel decisivo na vida cotidiana e no próprio modo de conhecer o mundo. Isto se evidencia nos sistemas gegê-nagô ou iorubá, em que o som é o condutor do axé, isto é, “o poder de realização que possibilita o dinamismo da existência”.

Regida pela ascendência da escrita desde fins da Idade Média, a música na Europa focou seus esforços nos aspectos harmônicos e melódicos, deixando o ritmo em segundo ou terceiro plano. Por outro lado, nas dinâmicas regidas pelo princípio do axé, como é o caso da liturgia afro, a música é primordialmente vibratória, guiando-se pelas execuções rítmicas, pelo canto grupal e pela dança, com a percussão ocupando um papel fundamental por abrir e conectar os blocos de espaço-tempo sonoro às forças cósmicas. O ritmo funciona como uma passagem de um tempo a outro. É uma modalidade de movimento investida pelo fluxo temporal. Móvel, fluído e orgânico, o ritmo dos tambores promovem um ciclo de reprodução que acumula-se gradativamente em camadas até a catarse, momento em que o ciclo de reprodução revela-se como transformação.

Não é por acaso que a polirritmia suingada do Psirico impressionou Kanye. Ao contrário da música ocidental, a concepção rítmica afro não é cronológica ou linear e tem o poder de voltar sobre si mesmo. O seu fim é seu recomeço. É sob essa lógica que os tambores são reinseridos por Kanye no culto do Sunday Service, inclusive trazendo muitas levadas de origens latinas e caribenhas (destaque para os ecos da santeria cubana no toque enfeitiçado das congas).

O ritmo é um modo de transmissão de experiência através da corpo, pois permite que a experiência seja remontada não como uma emoção abstrata mas como um efeito físico que atua diretamente sob o corpo. Sentimos a batida no estômago, nos vasos sanguíneos. Sentimos a terra tremer. É o ritmo que nos permite descortinar, pela pura sensibilidade, um nó que ata um cósmico e um biológico que carregamos em camadas profundas, inapreensíveis pela racionalidade instrumental e pela semântica.

Portanto, o ritmo projeta um corpo. Um corpo sem amarras, um corpo que dança, canta, bebe, festeja, pois o ritmo o lança em um outro tempo, onde a angústia e o terror são tomados pela alegria transbordante do axé. Kanye, Chance The Rapper, Kid Cudi e o Sunday Service louvam a Deus mais pela catarse coletiva compartilhada (e vale lembrar do momento house music) do que pela reverência.

Neste ponto, o Sunday Service é fascinantemente pré-moderno no sentido de recusar o binarismo cartesiano (apropriado pelo cristianismo) de corpo maquínico versus espírito transcendente. Se a igreja considera a incorporação como uma forma de possessão demoníaca, para Kanye, o corpo, enfeitiçado pelos toques de atabaques, é via de aprofundamento do transe e de seu poder transformativo através do axé.

O ponto não é formular algum tipo de sincretismo, mas intensificar o momento para nos conduzir à um estado de felicidade nunca antes imaginado. Um estado que as palavras jamais vislumbram, mas que é ativado pela potência secreta dos tambores.

Conduzido por Kanye, o Sunday Service ganha um (merecido) status artsy. No entanto, esta tensão entre corpo, ritmo e cristianismo negro (protestante e evangélico) é eminente em dois artistas brasileiros: a pastora carioca Ana Lúcia e o missionário recifense Eudes Bolinha de Jesus, autor da música “Metralhadora de Jeová”.


Há uns três anos acompanho os dois e  ainda não sei bem o que dizer sobre eles. Acima de tudo, existe um conflito evidente, um vai-vem entre a liturgia cristã e um tipo de memória corporal dos cultos de matrizes afro. O choque se dá no corpo, que passa a um movimento retesado, uma energia contida. Se no Sunday Service todos os cruzamentos parecem bem resolvidos, com Ana Lúcia e Bolinha de Jesus há um clima de tensão e violência pairando no ar. São as contradições e complexidades brasileiras. Quem há de explicar?

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One thought on “Ritmo, transe e axé: Kanye West e o Sunday Service

  • 23 de April de 2019 at 21:28
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    faz anos que tô esperando esse bootleg da Pastora Ana Lucia. texto foda, GG.

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