Maga Bo Apresenta Samba de Coco Raízes de Arcoverde — o hiperritmo dos pés

(Kafundó Records)

“Sonic Futurism doesn’t locate you in tradition; instead it dislocates you from origins. It uproutes you by inducing a gulf crisis, a perceptual daze rendering today’s sonic discontinuum immediately audible”

 Kodwo Eshun

Assim como Konono Nº1 Meets Batida (parceria entre o grupo congolês e o DJ e produtor congo-português) e Candombless (de Carlinhos Brown), Maga Bo Apresenta Samba de Coco Raízes de Arcoverde é um álbum que, numa vista rápida, tende a ser analiticamente reduzido ao típico “encontro entre tradição e modernidade”. A música, no entanto, insiste em massacrar vigorosamente os binarismos local/global, folclore/pop. Afastando-se do fetiche multiculturalista moderno que cerceia práticas regionais sob a clausura do “exótico”, o disco afirma uma tradição deslizante, rizomática, que trata de minar o tradicional e reinventa-se nos seus próprios atos de invenção sonora.

Para tratar do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, é preciso enxergar o ritmo como uma ciência. No livro More Brilliant Than the Sun: Adventures in Sonic Fiction, Kodwo Eshun cria o conceito de hiperitmo: um ritmo pós-humano, impossível de ser tocado. “[O hiperitmo] impacta em níveis insuficientemente explicáveis as linguagens normais dos sentidos”, descreve o crítico. “As batidas tornam-se abstratas no ponto em que o corpo sucumbe às sensações que induzem uma ‘crise do golfo’ no discurso, quando a linguagem sucumbe e falha, felizmente”.

Criado em 1992 na cidade de Arcoverde, interior de Pernambuco, o Coco Raízes surgiu a partir de uma tecnologia sonora concreta desenvolvida pelas mãos de Lula Calixto, finado membro fundador do grupo ao lado das Irmãs Lopes. Utilizando-se de suas habilidades de marceneiro e artesão, o músico e compositor confeccionou tamancos de madeira para a banda, encontrando no som das pisadas e palmas de mão uma nova dinâmica percussiva, incrementando o arranjo geral do ganzá, surdo, pandeiro e triângulo com uma dinâmica de batidas mais pesadas e aceleradas. 

Seguindo o procedimento inaugurado por Lula Calixto, o Coco Raízes transforma o próprio corpo em som. Num tipo muito particular de biohackeamento, o corpo torna-se uma máquina de hiperitmo, corpo-som que tateia ao redor de uma nova fisicalidade, acionando uma outra linguagem sensorial ao revirar as vísceras da terra sob uma imanência com marcas pés descalços, de pegadas sobre a terra de onde surgem as potências da filosofia afroperspectivista. Como se o corpo fosse seu único capital cultural (e tratamos aqui de uma cultura afro-indígena oriunda dos engenhos do Nordeste), o Samba de Coco Raízes de Arcoverde faz dos pés modos intensivos de escrita, com suas pisadas criando conceitos desviantes no tempo e espaço.

Neste álbum para o selo Kafundó Records, Maga Bo, por sua vez, toma a sábia decisão de ir ao encontro do Coco Raízes, colocando-se como trampolim para a abrasiva e radiante polirritimia da banda. Em vez de simplesmente acoplar a sua música, cerceando esse organismo rítmico nas amarras de um compasso 4 x 4 mais fechado, o produtor e engenheiro de som realça estrategicamente as qualidades do grupo com subgraves e um leve colorido de efeitos eletrônicos — colocações um tanto discretas, mas substanciais. Sua contribuição mais decisiva, todavia, é a captação sonora vigorosa, que exprime o tom grandioso e arrebatador do álbum. Os tamancos de madeira, por exemplo, foram captados por microfones de contato (piezos) colocados num piso de madeira, imprimindo o som acachapante das batidas do álbum.

Maga Bo ajusta o brilho, mas é o próprio Coco Raízes que multiplica os feitiços e nos conduz, através do jogo e do prazer, por uma estrada das metamorfoses. Nunca terá havido nada de tradicional nesta arte. Porque o ritmo é livre e pulsante e o baile é solto. Faixas como AndrelinaSalve DeusO Grilo são doses cavalares de uma energia que parecia há tempos retesada; como se uma barragem tivesse vazado. A roda de coco move uma força centrípeta de metamorfismos. Buraco negro que dobra a história e o destino. Introduzindo a invenção de mundos sonoros na sua existência cotidiana, o Coco Raízes recria o seu próprio destino a cada pisada que diz sim ao mundo.

 

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