Rakta — III: Nas bordas do verbo

“palavra é uma coisa simples e complicada ao mesmo tempo”, diz paula rebellato numa divagação durante entrevista por telefone. a frase é dita sem pretensões, mas evidencia algumas questões que permeiam a música da banda paulistana rakta – o qual ela integra tocando teclado e cantando, ao lado carla boregas (baixo e vocal) e nathalia viccari (bateria).

as palavras parecem não dar conta da música do rakta. está além das fronteiras do verbo. a música do trio surge como uma pulsão intuitiva, captando forças impalpáveis e misteriosas — toda a vida que mencionam nos versos de intenção: “sou grata ao fulgor que cega/ por arrancar de mim tudo o que pode/ precisa haver toda uma vida/ em cada grito”.

o nome da banda sintetiza tudo isso: rakta, uma derivação da palavra “rajas” (em sânscrito), que é “o componente energia, que produz movimento, força e expansão”. em iii, seu segundo álbum, lançado pelo selo norte-americano iron lung records, a banda parte de arquétipos do post punk e cria uma som atmosférico, escuro, imersivo, por vezes até ritualístico (caso de conjuração do espelho).

 

de modo particular, o rakta engloba uma micropolítica do corpo e, mais enfaticamente, as questões políticas ligadas ao feminismo. em junho, no lançamento do compacto intenção (primeiro single de iii) no sesc pompeia, elas abriram o show com violência do silêncio fazendo referência ao caso de estupro feminino no rio de janeiro: “as mãos que forçam/ a violência do silêncio/ somos muitas/ nada, nada justifica uma menina ser estuprada por 30 homens”.

paula diz que essa auto-percepção enquanto banda política gera “dissonâncias” no próprio grupo. mas ela, em particular, encontra “uma micropolítica no que a gente faz, mas não essa política que a gente conhece”.

“quando a gente fala de política em som, e vindo do punk, existe uma coisa fixa que a gente já pensa. uma cartilha, vamos dizer assim. um formato de letra, um formato de posicionamento, de como você quer atingir as pessoas. tem muito uma força de combate. mas essa força de combate eu consigo enxergar ela acontecendo de várias formas, não só dentro de um formato. a minha forma de trazer pra fora não é assim”, observa.

filhas do fogo, por exemplo, surge de uma situação concreta e se desdobra numa poética que é igualmente abstrata e explicita.  “a carla veio com essa ideia [da música]. uma amiga dela passou por uma situação pesada de aborto e foi uma coisa que afetou muito. a amiga dela buscou ela pra ajuda e depois ela veio aqui em casa e conversamos. isso foi um grande peso na música, foi muito forte. fora os processos individuais que cada uma estava passando e sempre está. e ainda todo o contexto de fora, que eu não vejo muito diferente, vejo tudo interligado. está aí todo o dia, em cada pessoa que você olha, especialmente em cada mulher que você olha. eu consigo identificar essa ‘dor’ que a gente fala em muitos lugares”.

filhas do fogo dialoga muito com run to the forest, faixa escrita por paula e colocada como abertura de s/t, primeiro álbum do rakta, lançado em dezembro de 2013. numa entrevista de 2014, carla boregas citava a música como “um hino de sororidade”. paula acrescenta: “na época eu trabalhava e frequentava um círculo de mulheres, essa coisa do ‘sagrado feminino’ que hoje em dia tá meio explodindo. mas foi um feminismo que funcionou pra mim. isso super influenciou a banda quando a gente começou. essa coisa da floresta eu peguei muito daquele livro que hoje as pessoas estão procurando muito, mulheres que correm com lobos. a carla leu essa música dessa forma, que eu concordo e também vejo outras coisas. eu enxergo como um autoconhecimento mesmo, vamos entrar nas sombras e ver o que tem ali. basicamente é isso que representa a floresta. tem a ver com coisas do inconsciente, é bastante simbólico”.

ainda assim, ela diz que o interesse é criar dúvidas: “se de fato fosse uma preocupação minha em fazer o outro entender exatamente o que eu tô querendo passar, aí eu tava fodida. gerar essa dúvida, gerar esse desconforto ou conforto, gerar todos esses sentimentos… pra mim é o que é importante. o resto já não é problema meu. digo que não é problema não no sentido egoísta, mas é que a pessoa ela vai filtrar aquilo dentro da realidade dela, sabe? eu não to querendo impor uma realidade: ‘olha existe essa verdade aqui, você tem que ver’. eu tô jogando pra fora o que é verdade pra mim, às vezes naquele momento só. e aí o outro vai processar isso da maneira como for. eu acho que isso que é bonito. quando as pessoas vêm e conversam, é aí que eu penso: vale a pena, faz sentido. quando alguém vem e traz qualquer comentário que seja. e a gente já ouviu coisas muito fodas das pessoas, além de, sei lá, ‘legal o show’. uma mulher veio falar: ‘eu fiquei com vontade de ter um filho’. essas coisas que você não tem controle de como você pode influenciar o meio. é dentro desse uso da palavra ‘mística'”.

todas essas forças, pulsões e enfrentamentos estão presentes no rakta. mas ao invés de se impor pelo poder, sua música se desdobra pela potência — impressão que tive durante o show delas no festival coquetel molotov; enquanto karol conká cantavapalavras de ordem (100% feminista), o rakta era sobre o múltiplo (“a cada passo/ um caminho/ que se abre/ entre nós”). a transcendência pela catarse, o transe e o êxtase.

do processo


iii traz uma expansão sonora significativa em relação ao álbum anterior do rakta: é menos urgente, menos estritamente post punk, e mais atmosférico, mais próximo das abordagens do acavernus e das faixas solos de carla boregas. além disso, tem a mudança de formação. originalmente um quarteto, a banda se tornou um trio após a saída da guitarrista laura, que agora mora nos estados unidos.

sobre a nova formação, sem guitarra, paula comenta: “num grupo cada elemento ali tem um papel, tem a sua força. e ela às vezes converge, às vezes não. ela pode ir pra vários lugares. quando a laura saiu a gente sentiu um buraco no começo, dá uma desestruturada… se redescobrir como um trio e não tem mais guitarra, não tem mais aquela barulheira, e aí como é que a gente vai fazer? então todo esse processo de ter que readaptar ou recomeçar eu acho que foi um recomeço, mas com toda a sua carga positiva ali junto. toda essa necessidade de ter que reformatar faz com que a gente vá pra lugares que a gente não foi ainda, e isso é bom”.

essa reformatação abriu espaço para a aproximação com construções influenciadas pelo trânsito no circuito experimental de são paulo, por exemplo. “a gente sempre curtiu essa liberdade sonora, mas quando a gente era um quarteto acabava rolando “ah não isso aqui eu acho que não…”. eu e a carla sempre fomos mais de querer abrir, não vamo ficar preso num gênero ou o que quer que seja. mas no primeiro [disco] ninguém sabia muito bem o que tava acontecendo. era uma coisa que aconteceu. acho que com a gente é sempre uma coisa que ‘acontece’. não que não haja planejamento, mas o primeiro foi totalmente espontâneo. a gente não pensou ‘quero soar post punk’, isso foi uma coisa que a galera começou a colocar a gente nesse lugar, sabe? então essa coisa da influencia do circuito experimental é uma coisa que começou a se agregar a pouco – conscientemente falando, porque inconsciente a gente sempre trouxe muito isso”.

 quanto ao processo de gravação em si, paula conta que foi tudo muito corrido, já que a baterista nathalia agora mora na argentina. “ela tava aqui em são paulo e a gente decidiu que a gente tinha que gravar algo novo. então a gente ficou ensaiando muito tempo, o máximo que dava e foi tentando compor ali mesmo no estúdio. cada uma trazia uma coisa. e existia uma certa pressa porque não tinha muito tempo pra ficar pensando, trabalhando de forma muito profunda e tal. e aí nessa semana também tinha show, um monte de coisa acontecendo. e aí a gente decidiu regravar os dois sons do ep, que são as duas últimas musicas mas nesse formato que a gente tá hoje. e aí as outras quatro a gente compôs”, detalha.

“muitas coisas aconteceram no estúdio. a gente gravou com o bernardo [pacheco, da elma]. a gente fez as bases, com a carla com e a bateria. e como o teclado tem bastante partes que são muito livres, muita coisa saiu diferente do que a gente tava ensaiando no estúdio. às vezes pelo momento mesmo. não sei explicar essas coisas, vem um negocio e você, sei lá, toca outra coisa. daí o bernardo também ficou trabalhando com a gente. ele foi um ponto bem legal do processo de gravação. a gente sempre sentava e conversava. ele foi um pilar importante no processo. mas não tem muito segredo, foi um processo muito básico, mas foi muito mais leve do que das outras vezes, fluiu muito melhor. a gente tava mais aberta, não sei dizer”, completa.

originalmente publicado em 27 de outubro de 2016.

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