Pininga — Deixa os Monstros Falarem Mixapella: um processo de autocombustão

(Tormenta)

Últimas febres do funk carioca, os beat Borel e Baile do Jaca apontam para uma reformulação (complexificação?) do tradicional beatbox funkeiro. As palavras “borel” ou “baile do jaca”, fragmentos da voz do MC GW, são repetidas exaustivamente ao ponto em que o seu sentido é esvaziado. Em certo ponto já não ouvimos mais a voz como um canto que diz “baile de jaca/borel” porque as palavras tornam-se a própria batida, sobrepondo-se à voz do MC e misturada aos montes de efeitos, pontos e viradas inseridos pelo DJ/produtor da faixa.

Co-fundador do coletivo de músicos da Tormenta e DJ da banda de Linn da Quebrada, Pininga  conhece o funk profundamente e tá bem ligado nos trabalhos dos DJs acerca da voz — que vão além do citado Borel/Baile do Jaca e incluem também, especialmente no lado do funk paulista, modulações diversas com efeitos, sobreposições de camadas e alterações de pitchDeixa Os Monstros Falarem Mixapella sintetiza esse momento, mas irradia rumo a outra direção, um caminho particular.

Em vez de tentar fazer o que os produtores de funk fazem no formato podcast por exemplo, Pininga encontra um som próprio ao radicalizar estas experiências do funk. Sem beat ou tamborzão e utilizando apenas alguns beatboxs, efeitos e pontos, o produtor recifense radicado em São Paulo arquiteta um movimento de desintegração do som. Se na primeira metade do mix há uma dinâmica mais envolvente e dançante, na segunda parte as camadas de vozes e efeitos vão acumulando, distorcendo e corroendo até uma desvairada cacofônica final — que remete ao momento de encerramento dos fluxos, quando o som para e as pessoas ficam cantando ao final da noitada.

Meticulosamente delineada, Deixa os Monstros Falarem é a narrativa de um processo de autocombustão sonora. Ouvimos a música ruindo, retorcendo, deformando. O ruído vem e arrebata. Dançamos sob uma estrutura que está a um passo de desabar — e é neste risco, neste choque que reside o prazer, afinal.

 

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