Para o funkeiro, o funk já é criminalizado

kdu dos anjos (ao centro, com o microfone na mão) e a turma do lá na favelinha, no aglomerado do morro, em belo horizonte

no dia 9 de julho, dançarinos da favelinha (uma das seis vilas que compõem o complexo de favelas aglomerado da serra, em belo horizonte) subiram ao palco do meca festival. em meio a um público de classe alta, no luxuoso instituto inhotim, a batalha de passinhos da disputa nervosa conquistou elogios e foi um dos pontos altos da programação. enquanto brilhavam no meca, no mesmo dia a polícia militar invadiu uma festa funk de rua na vila cafezal, outra vila do aglomerado da serra. a ação terminou com tiroteio, três jovens feridos e um adolescente de 14 anos morto.

moradores da região teriam acionado a polícia militar por causa do barulho e de pessoas que estariam armadas no local. em entrevista ao mgtv, da rede globo, o sargento cristiano roberto afirma que “tinha até um indivíduo com arma longa, usando até um colete à prova de balas”. mas o que restou após a ação policial foi a apreensão de um revólver e uma pistola (nada de armas longas, nada de traficante) e o cadáver de um menino de 14 anos, que não tinha nenhum envolvimento com o tráfico, nem sequer era da da vila. tinha saído de casa num domingo para se divertir, dançar.

ainda que muitas vezes amaciado (caso da “putaria versão light”), o funk ocupou programas de tv, festas de todo o país e palcos das classes altas. contudo, nas favelas, continua em luta constante pela sobrevivência. em belo horizonte (o berço da sonoridade mais curiosa do funk, um beat minimalista que influenciou o funk paulista), os bailes são desmontados e equipamentos destruídos e confiscados com a justificativa da falta de um alvará. “baile agora é só através de alvará de funcionamento. do contrário, dessa forma ilegal, não vai mais ocorrer”, sentencia orgulhoso o sargento cristiano roberto. 

mc, gestor do centro cultural lá da favelinha e co-fundador do recém-criado observatório de violência aos bailes funk, kdu dos anjos aponta que o alvará virou uma ferramenta legal para impedir a realização dos bailes.  “aqui na serra eles não liberam alvará porque em 2010 teve exatamente um caso com a polícia. a polícia matou, executou um jovem e o tio dele. eles não eram envolvidos [com o crime]. pelo contrário, olha que treta: esse jovem era filho de um policial que morava aqui no morro”, conta.

entre outros, kdu organiza uma festa de são joão (mas com funk), na rua, com cerca de duas mil pessoas e sem alvará. há dois anos ele foi atrás da documentação para que a festa ocorresse nos conformes legais. “a gente tentou pedir alvará, e você passa em vários lugares: na energia da cidade, de quem cuida da limpeza da cidade, quem cuida da água… e todo mundo liberando. mas quando chega na polícia, eles não liberam. bombeiro libera, mas a polícia não deixa fazer evento nenhum aqui no morro”. ele completa: “a gente uma vez trouxe o rapper RAPadura, que é do ceará e mora em brasília. o policial me falou com essas palavras: “nossa, adoro o trabalho do RAPdura. só que nem fodendo que eu vou deixar vocês fazerem esse evento na serra”. por conta desses incidentes de 2010″.

o funk de belo horizonte ficou popular com festas em quadras e clubes, mas há cerca de cinco anos ganhou força também em formato aberto, nas ruas. especialmente para o aglomerado da serra, que é mais central e populoso.  “há uns três anos temos esse formato de fluxo, parecido com o de são paulo. cola um carro de som e cola multidão. os bailes bons costumam ter seis mil pessoas. nesses três anos a polícia tem intervido. eles chegam tacando bomba, dando tiro de borracha com a justificativa da lei do silêncio. já teve caso de pessoas que ficaram cegas com a bala de borracha, de pessoas que quebraram a perna sendo pisoteadas. eu presenciei muitas vezes na porta da minha casa a polícia sendo covarde com a juventude”, diz kdu, denunciando o fechamento de vários bailes.

o dj swat, do baile do subaco das cobras, no bairro califórnia, também confirma a perseguição aos bailes de favela: “estão fechando praticamente todos os bailes. eles chegam jogando bomba, dando tiro de borracha em geral. mas como diz a nossa frase, nóis nunca para, só dá um tempinho”.

em menor escala, a operação na vila cafezal é uma trágica reprise das invasões de 2010 do complexo da penha e complexo do alemão, no rio de janeiro, pelas forças armadas e polícias civil, federal e militar. apesar das informações omitidas, as invasões de 2010 incluíram uma série de abusos cometidos pelo estado, entre violações de domicílio, saques, extorsões, assassinatos, tortura, ocultamento de cadáveres e infrações à constituição, à lei, aos direitos fundamentais, humanos, individuais. nem o chefe do tráfico da vila cruzeiro (fabiano atanazio da silva, o fb) e nem do alemão (luciano martiniano da silva, o luciano pezão) foram presos, mas os mcs frank, max, tikão, dido e smith tiveram ordem de prisão declarada e os vídeos de suas prisões foram exibidos como trunfo nos telejornais.

a sugestão legislativa de proibir o funk como “crime de saúde pública à criança aos adolescentes e à família” parece absurda até para os comentaristas de facebook. mas a verdade é que, para os funkeiros, o funk já é criminalizado. no rio de janeiro, é de praxe o caveirão destruir as equipes de som nas favelas. após as instalações das unidades de polícia pacificadora, a política de segurança pública foi proibir os bailes em regiões “pacificadas”. foi somente em dezembro de 2014, com muita negociação e após a troca de comando na polícia militar do estado, que o baile do dj byano e sua equipe chatubão digital (o “maracanã do funk”) voltou à ativa. o retorno, contudo, sofreu duros golpes: a festa aconteceria das 21h às 2h; as músicas não poderiam conter referências ao crime, ao sexo explícito nem críticas à polícia; por fim, a quadra da chatuba, tradicionalmente vermelha e branca, foi coberta com o azul e branco da pm do rio de janeiro e o baile seria na sede da upp.

em belo horizonte, o alvará virou uma forma de institucionalizar uma prática de higienismo e elitismo social/cultural. a institucionalização do racismo. o preconceito não é com o funk, e sim com o funkeiro. quem faz, quem pratica.

uma imagem sintomática: no meca, uma repórter pergunta a kdu dos anjos se a sua vida muda ao participar do meca. mas é kdu, os dançarinos do passinho e o funk que mudam o meca e são eles que ocupam os seus espaços, seja em inhotim ou no morro, no teatro ou no fluxo de carros de som. o funk é uma cultura de sobrevivência.


notas:

1. a matéria do mgtv, publicada também no site do g1, também tem uma passagem suspeita. uma suposta testemunha diz que o adolescente foi executado por um traficante. em suas palavras: “quando eu vi, ele já estava lá no chão e o autor tava em cima dele disparando”. moradores da comunidade, por sua vez, afirmam que a polícia estava atirando perto da vítima. kdu dos anjos questiona a reportagem: “tá com aquele fundo preto, a voz distorcida e ele fala ‘o autor efetuou o disparo’. mano, isso não é linguagem de favelado. se fosse um favelado era: ‘os bandido desceu a bala no cara lá'”.

 2. kdu comenta em vídeo sobre o contraste do brilha da apresentação no meca e a violência na volta ao morro. ele explica: “acho que o grande ponto do paradoxo todo que passou na minha cabeça e deu vontade de explanar pra cidade é porque quando a cidade vê a gente lá no meca, já imagina assim: tá rico, conseguiu colar com os rico tá bem de vida. não, mano. a gente não tinha camarim. e ao mesmo tempo geral tá falando que depois da karol conká e do jorge benjor, quem mais mandou no meca foi nós. e realmente, a oficina de passinho tinha quase mil pessoas dançando, tá ligado? na hora da disputa nervosa o pau caiu à folha também. aí a gente é discriminado pra chegar no palco e quando eu chego no morro tem helicóptero voando baixinho, adolescente morto e gente pisoteada. isso aí que foi o caos na minha cabeça.

3. sobre as invasões do complexo do alemão e vila cruzeiro/complexo do alemão, vale consultar o artigo a era lula/tamborzão, de guillhermo caceres, lucas ferrari e carlos palombini.

4. sobre a histórica criminalização do lazer do negro e pobre, do samba ao funk, consultar o artigo o patrão e a padroeira: festas populares, criminalização e sobrevivências na penha, rio de janeiro, de adriana facina e carlos palombini

originalmente publicado em 13 de julho de 2017.

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