Pagodão e normatização: BaianaSystem, Kannário e Oz Cibermáticos

se um dos elementos mais originais e instigantes da música de matriz africana é a polirritmia, o desafio mais proeminente em cruzá-la com a produção eletrônica é uma pergunta do tipo: ‘como fazer sem normatizar, sem por rédeas no ritmo, já que esta é sua maior riqueza?’. é uma cruzada notável, por exemplo, no encontro do dj angolano/português batida com os congoleses do konono nº1 em seu disco do ano passado — e resolveram trazendo o ritmo texturizado do likembé para o primeiro plano.

vem daí o problema (ou o meu problema, como queira) com o baianasystem. vi dois shows da banda em recife: em julho do ano passado no festival coquetel molotov e em fevereiro no festival guaiamum treloso rural. muito volume, energia, vibração e rodas de pogo enormes com russo passapusso conduzindo tudo com presença de palco formidável. mas quando vamos ao som do baiana — um compilado de reggae, dub, ska, pagodão/swingueira, funk, rap, afrobeat e bass music — é inevitável a sensação de estarmos ouvindo uma suavização esmaecida das solução rítmicas brilhantes que grupos como psirico aplicaram no início dos anos 2000.

claro, é um engano ou má fé analisar o baianasystem como uma banda de pagodão propriamente. ainda que seus integrantes ocasionalmente mencionem essas influências, é uma banda que busca “ressignificar a música de rua de salvador”, que apropria-se delas (e não uso o termo no sentido negativo, acusatório que com que tem circulado recentemente). um paralelo: marginal men, omulu, pininga, os djs da teklife etc são produtores de funk? sim e não. sim, mas não apenas. só que a fusão do baiana não caminha com o gênero para outros lugares. é uma normatização particular do ritmo e em geral som, preso a um beat quadrado, basicamente uma banda de grave e guitarra baiana.

e vem com as letras “politizadas”, com o poeta sempre em tom acusatório ou soberano: “você pra mim é lucro/ máquina de louco” (lucro (descomprimindo)); “cidade alta, cidade baixa/ em qual cidade você se encaixa?”(duas cidades); “você já passou por mim/e nem olhou pra mim” (invisível). uma derivativo d’o rappa, uma suavização abraçada do pagodão que a classe média pode consumir sem culpa no lollapalooza balançando com “fora, temer”.


o álbum duas cidades, aclamado em diversas listas da blogosfera ou veículos da grande imprensa, tem como mote a desigualdade social no brasil partindo da experiência pessoal do grupo com o carnaval de salvador, onde reinam trios elétricos megalomaníanocos e onde uma corda separa a pipoca do bloco — os estabelecidos e os outsiders, branco fica e preto sai. há quatro anos a baianasystem criou o trio navio pirata, que, buscando fazer a ponte entre as “duas cidades”, sai no carnaval de salvador sem as cordas e com formato menor (o que não deixa de atrair milhares de pessoas).

aqui levo a discussão das ‘duas cidades’ para o âmbito da crítica cultural. o navio pirata foi elogiado dentro de um contexto social em que de fato está inserido, mas ainda como fosse um fenômeno isolado e independente. e aí está o apagamento de tudo aquilo que está de fora do circuito de jornalistas e blogueiros, normalmente apegados à esfera do “independente” ou “alternativo”, por sua vez atrelada à determinados códigos e práticas estéticas de matriz americana/britânica que não correspondem ao contexto socioeconômico brasileiro. o exemplo clássico foi levantado por ronaldo lemos na revista trip em 2009. naquele ano, a imprensa apresentava mallu magalhães como um “fenômeno da internet” oriundo do myspace. ignorava, porém, a banda baiana de “pagode elétrico”. o vídeo mais popular de mallu no youtube (uma entrevista no altas horas) tinha 532 mil visualizações. o vídeo mais popular do fantasmão (uma montagem de fotos feita por fã por cima da música kuduro) tinha 790 mil plays. ainda assim, mallu tinha 77 artigos sobre ela na mídia tradícional contra 5 do fantasmão.

e aí vem igor kannário. ex-vocalista do grupo a bronkka, auto-proclamado “o príncipe do guetto”, promete derrubar a cidade e já chega dizendo que “vai gritar o que todo mundo já sabe: a favela é nossa! a favela é nossa! a favela é nossa!” (2016).

e ainda proclamava, quase como grito de guerra: “é tudo nosso, nada deles; é nada deles, tudo nosso” (2015). e isso em um clipe em que abraçava o globalismo pop (das poses icônicas com a guitarra à zakk wylde e de guitar hero às roupas usadas) enquanto fincava os pés na favela (nos takes aéreos ou entre as vielas, com toda a comunidade junta). uma afirmação poética via corpo da negritude, da condição marginal terceiromundista, da imagética mainstream, tudo ao mesmo tempo.

em 2016, kannário gravou com claudia leitte a música patricinha do ghetto e foi chamado por ela para uma participação em seu trio elétrico no circuito barra-ondina. aconteceu aí um momento simbólico, ou material mesmo, sobre o negro e o pobre no brasil, sobre os excluídos e incluídos do carnaval baiano. enquanto os associados do bloco e o camarote vaiam kannário (“ninguém pula, ninguém se diverte”), a pipoca vibra extasiada e pula rodando a camisa cantando “é nóis, e depois de nóis é nóis de novo”. e vale notar a atitude de igor ao tirar a camisa (“senão não sou eu”).

vale lembrar também que em 2015, logo após sair da cadeia acusado por tráfico de drogas, o ministério público proibiu apresentações de kannário em diversos blocos e trios, mas após pressão popular ele conseguiu um trio sem cordas para puxar na segunda-feira de carnaval. tudo nosso, nada deles.

para fechar: um álbum recém-lançado, nada comentado. talvez um dos mais interessantes entre os discos brasileiros no ano até o momento: pagode informativo pro povo, do oz cibermáticos — obrigado por isso, pininga. o destaque é o ritmo mais afrouxado, mais solto do que a maior parte do pagodão (especialmente nas levadas de sempre na laje e febre alta) e as viradas inventivas, a quebradeira no baixo, percussão e bateria (quem chora mora na favela e entendeu tá batendo). e, claro, a malícia esperta e irresistível da letra de febre alta: “você tá com febre alta, novinha/ eu quero saber por quê/ (…) o enfermeiro sou eu, quem te aplica sou eu/ vou aplicar, vou aplicar naquele lugar que não posso falar”.

 originalmente publicado em 1 de abril de 2017.

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