Os melhores discos de 2018

Na verdade não são bem os melhores e nem há pretensão de sê-lo. Essa lista é um painel de trabalhos do ano último ano atravessado por preferências pessoais (obviamente) e por uma ideia de diversidade, buscando apresentar um painel de procedimentos, poéticas, gêneros ou cartografias musicais novas. Enfim, é um resumo dos últimos 12 meses que orbita em torno de variadas práticas de experimentação sonora, muitas delas negligenciadas ou ignoradas — e por isso a existência desta lista.

Como no ano passado, são 100 obras, dispostas da seguinte maneira: 50 álbuns/singles inéditos; 30 compilações/inéditos antigos/relançamentos; 20 EPs/mixes. Antes, a lista considerava apenas álbuns. Decidi incluir os singles não só para abarcar gêneros musicais que não opera pela lógica do álbum (isto é, o funk precisava entrar aqui) mas também para contornar os formatos tradicionais de álbum. No ano que vem talvez eu devesse incluir vídeos de Instagram e YouTube, como a lista da Klein

Um aviso: a playlist do Spotify tem apenas uma parte dos sons listados. Muitos trabalhos excelentes não estão na plataforma, disponíveis apenas no Bandcamp.

Mas chega de papo, vamo lá:



Álbuns e singles

MC Rick, o funkeiro mais nervoso de Belo Horizonte

Alva Noto & Ryuichi Sakamoto ‎– Glass
(Noton, Japão, Alemanha)

Nesta performance gravada em 2016, Alva Noto e Sakamoto transformaram a Glass House, marco do design contemporâneo, numa enorme caixa de ressonância, com microfones de contato fixados nas paredes e tigelas de cristal de quartzo (daqueles usadas em meditação e ioga) espalhadas pela casa. Assim constroem paisagens sonoras desérticas, vítreas e cristalinas, ricas em texturas e ambiências delicadas, quando o som se transmuta em espaço. E vice-versa.

Alvin Lucier — Criss-Cross / Hanover
(Black Truffle, EUA)

Duas novas composições de Alvin Lucier, incluindo aí seu primeiro trabalho para guitarras, pensadas sob medida para Stephen O’Malley e Oren Ambarchi. Ambas as peças dão continuidade às abordagens do som no espaço físico que marcaram a obra de Lucier, mais notadamente a clássica I Am Sitting In a Room. O destaque é “Hanover”, para sax alto e tenor, violino, piano e vibrafone, que explora ao máximo cortes na imagem do campo estéreo.

Amnesia Scanner – Another Life
(PAN, Alemanha)

O Amnesia Scanner tem uma estranha veia de plasticidade, que se distorce, derrete, contrai, expande, degrada. Suas músicas são uma espécie de gelatina amorfa, textura 3D hiperrealista. Uma pista de dança transhumana que encontra o êxtase no caos.

Arcofluxo – Arcofluxo
(sem selo, Brasil, Rio de Janeiro/São Paulo)


Duas prolíficas desbravadoras da cena experimental, Bella e Sannanda Acácia (aka Insignificanto, aka Quasicrystal) unem forças em Arcofluxo. Em suas primeiras performances, por volta de 2017, elas investigavam propriedades de retroalimentação sonora (feedback) em associação ao simbolismo da astrologia. No álbum, Arcofluxo tomou outros caminhos: transmutação da matéria e aprofundamento do chronos.

Autechre – NTS Sessions
(Warp, Inglaterra)

Mais de oito horas de música da residência do Autechre comissionada pela NTS Radio, cobrindo e ampliando os mais de 20 anos de pesquisa do duo. Um labirinto, uma odisseia, um manancial de sons alienígenas.

Ava Rocha – Trança
(Circus/Natura Musical, Brasil, Rio de Janeiro)

Ava Rocha inventa um território: a pangeia, um continente, uma patrya particular,  descendente de uma arqueologia própria, desterritorializada das ortodoxias da MPB — canônica ou contemporânea. Com um wall of sound primoroso (arrisco dizer que é a produção mais impressionante da música brasileira dos últimos dez anos, ao lado de Samba de Gira e Levaguiã Terê) e procedimentos experimentais endógenos ao cancioneiro, Ava trança sua canção expandida na velocidade de um trem. Entre isso ou aquilo, o é.

Bamba Pana – Poaa
(Nyege Nyege Tapes, Tanzânia)

Poa é o disco mais 3018 que ouvi em 2018. Bamba Pana crialoops secos, ásperos de pitch distorcido e ritmo frenético (perto dos 200 BPM). É um mundo de hiperritmos  impossíveis que se desdobra bem em nossa frente, como a primeira vez que ouvimos gabber, jungle ou drum & bass. Uma sobrecarga sensorial violenta, uma injeção concentrada de euforia que dá um pane no cérebro — e imediatamente aciona o pensamento coreográfico.

Bella e Cadu Tenório – Vazios
(QTV / Coisas Que Matam, Brasil, Rio de Janeiro)

Ao lado de Lucas Pires (DEDO), Bella e Cadu Tenório são dois dos criadores mais inventivos no trabalho com fitas cassete. Neste álbum em duo, vão ao limite das potencialidades expressivas da mídia, experimentando com as variações da corrente elétrica, o “hum” dos cabos, falhas, o pressionar dos botões, entre outros, que lentamente vão formando microcomponentes musicais.

Belo – De Alma Aberta
(Sony Music, Brasil, Rio de Janeiro)

Muita gente tentou modernizar o pagode, mas poucos conseguiram um resultado minimamente satisfatório. O “trapsamba”, de Rodriguinho e Gab, por exemplo não deu liga. Belo cumpriu a missão neste álbum. Pagode soul, com metaleira à Tim Maia e Cassiano, arranjos de cordas, guitarras texturizadas, toda a percussão do pagode e até um toque meio James Blake em “Você e Eu” — compara com o reverb de Wilhelm Scream. E o cara tá cantando bonito demais.

Biu Roque – Hoje A Noite é Maior
(Garganta Records, Brasil, Aliança)

Primeiro — e póstumo — álbum de Biu Roque, mestre de cavalo marinho, coco, ciranda e maracatu de baque solto de Nazaré da Mata notório pelo seu gogó de aço, com um timbre singular. Produzido por Alessandra Leão, Rodrigo Caçapa e Missionário José com participações certeiras de Hugo Linns, Siba, Renata Rosa e outros mais, é uma vibração afirmativa de uma cultura que não se contenta com as delimitações da “tradição”. No tempo dilatado da festa, nas brenhas da noite sem fim, brota uma música que atravessa a tudo e a todos.

Cadu Tenório – Corrupted Data蝶とクジラ
(sem selo, Brasil, Rio de Janeiro)

Cadu diversifica sua paleta de sons e trabalha com sonoridades de ares hipnagógicos neste álbum, talvez o melhor trabalho em toda sua rica e extensa discografia. Um tratado (além do disco, um site e textos complementam a imersão no conceito e narrativa da obra) em torno da economia dos afetos no mundo da comunicação digital. A fragilidade dos laços interpessoais, a comunhão da amizade, o sabor melancólico da nostalgia, nossas memórias mais pessoais texturizadas pelo filtro digital do WhatsApp e vozes do Google Tradutor.

Dadá Boladão – “Menina da Quadrilha” (DJ LK)
(sem selo, Brasil, Recife, São Paulo)

Parceria entre o MC recifense de Dadá Boladão e o produtor paulista DJ LK, “Menina da Quadrilha” é alien dentro da cena bregafunk. Fora do percurso característico da canção (verso-refrão-verso-refrão), a música sustenta-se num experimento de dilatação e contração do andamento dos tambores; um ritmo que não dá cria uma base sólida, mas serpenteia. Se o Second Woman fosse brasileiro, soaria mais ou menos assim.

Djonga – O Menino Que Queria Ser Deus
(Ceia Ent., Brasil, Minas Gerais)

A introdução de Heresia, primeiro disco de Djonga, evocava samplers de vários clássicos do rap nacional e fazia uma espécie de “inversão mística”, mostrando o sagrado do cotidiano. Desde o título no passado, O Menino Que Queria Ser Deus é o fim de qualquer tipo de inocência ou esperança transcendental e uma narrativa de sobrevivência material. Não ouvimos Djonga, o rapper, mas sim o sujeito homem que esconde os erros com seu capuz em diferentes momentos de sua vida — vendo os menor do morro pegando arma pra não passar fome; os amigos mortos no tráfico e o fardo pesado da culpa; as contas com 400 conto pra tentar sustentar o filho e a família; os olhares lascivos no camarim. Entre as tretas e trutas, a redenção vem em momentos fugidios de alegria, daquelas que transbordam e são maiores que a própria vida. Vida que, por sinal, tem sido pequena demais para Djonga e seu time de reis e rainhas.

Epilepsia – Death Raving
(Seminal Records, Brasil, Belo Horizonte, Rio de Janeiro)

Duo formado por J.-P. Carron e Henrique Iwao, Epilepsia é fio desencapado. Acúmulo de tensões elétricas indeterminadas, que vão desenvolvendo lentamente um corpo e seus espasmos.

Eva-Maria Houben – Breath for Organ
(Second Editions, Alemanha)

A respiração de Eva-Maria Houben ressoando nos tubos do órgão Igreja de Saint Franziskus, em Krefeld. Um trabalho inspirador e vibrante que engendra uma escuta ativa para as micro-repetições, frequências e ressonâncias.

Henrique Vaz, Igor Medeiros, Marcelo Campello ‎– Metanoia
(Antena.Art, Brasil, Recife)

Um “arquipélago aural” fruto de pesquisas acerca da dromologia (o estudo do efeito da velocidade na sociedade), dos dedobramentos sociotécnicos da informação digital na sociedade, dos estatutos tecnopolíticos e da gambiarra.

Herbert Baioco – Atmosfera de Luz e Sombra
(Música Insólita, Brasil)

Qual o som da luminosidade?  Herbert Baioco ligou um sensor foto sensível LDR como um microfone em um gravador de áudio e captou diferentes tipos de luzes e sombras (luz elétrica incandescente e luz solar, luz do celular, das horas do dia) como fontes sonoras. Uma beleza sinestésica.

Institute of Landscape Architecture – Melting Landscapes  
(sem selo, Suíça)

Durante três anos, o professor Christophe Girot e seus alunos de Arquitetura da Paisagem documentaram o derretimento da geleira de Morteratsch com hidrofones e microfones de contato especialmente construídos para o projeto. Compondo uma ecologia sonora singular, o álbum capta o movimento da geleira em diferentes situações: água pingando, bolhas, vento, camadas extensas de neve.

Jon Hassell – Listening to Pictures
(Ndeya, EUA)

Em seu primeiro em nove anos, o mestre da ambient music Jon Hassel amplia sua “etnicopoética” com uma viagem sinestésica inspirada na técnica do pentimento, processo artístico no qual uma alteração é executada numa pintura enquanto sua feitura está em andamento.

Jotaerre – Choraviolla II
(sem selo, Brasil, Salvador)

Guitarrista do Psirico consolida sua interpretação original do pagodão. Não se de uma tradução do gênero para linguagem eletrônica, nem tampouco uma tentativa tacanha de modernização. Jotaerre arma um painel que conecta das violas do samba de roda do recôncavo baiano às distorções de guitarra e beats de Fruit Loops sem domesticar a potência polirrítmica da música das quebradas de Salvador.

JPEGMAFIA – Veteran
(Deathbomb Arc, EUA)

Um take radical dos sonoridades desenvolvidas pelo trap, radicalizando sua experiência de cortes e adlibs em uma experiência granular, fragmentária, descontínua. Um trabalho que bebe das estruturas do rap para nascer em suas ranhuras, sob uma penumbra contra-institucional.

Kelman Duran – 13th Month
(Apocalipsis, EUA)

Depois do banger certeiro 1804 Kids, Kelman Duran explora a música sob formas longas e abertas em combinações com rap mutante, dembows texturais, cascatas de autotune e field recordings.

Kevin O Chris – “Eu Vou Pro Baile da Gaiola”/ “Tu Tá na Gaiola”
(sem selo, Brasil, Rio de Janeiro)

Kevin O Chris fez o hino definitivo da nova geração do funk carioca. Entre as sequências de toma-toma, becos escuros, ruas sujas, cheiro de lança e maconha e saravaidas de tambores, o prazer e a alegria (“caaaaralhoooo!”). As contradições do Brasil e do Brasileiro acumuladas na pele.

Lógica Escura — Lógica Escura
(Clausura, Brasil, São Paulo)

Formado por Thiago Miazzo e Victor Lucindo, o Lógica Escura conjura blocos massivos de techno industrial entre kicks saturados e técnicas de no-input e feedback. O ato contínuo de esculpir volume e frequências monolíticas.

Lonnie Holley – Mith
(Jagjaguwar, EUA)

O afrofuturismo é romper com o fetiche do futurismo italiano de um futuro desprendido do passado para ativa um tempo-expandido e descontínuo, no qual o futuro é construído a partir da deriva histórica e da memória. Com faixas como “I Snuff Off the Slave Ship” (uma projeção mental aos navios negreiros) e “I Woke Up in a Fucked-Up America”, Mith lança o corpo-mente numa experiência sensível radicalmente decolonial. Remodelar o tempo. “Destroy the master’s clock”.

Lotic – Power
(Tri Angle, EUA)

Inicialmente concebido como um estudo sobre empoderamento, Power tornou-se um trabalho refinado não sobre poder e força mas — também — sua contraparte: delicadeza e fragilidade. Lotic alterna chicoteia os ouvidos com violentas colagens e beats barulhentos (destaque para “The Warp an The Weft”) e conjura auras de magia sem igual (“Fragility). Disco fundamental no campo da experimental club music.   

Marco Scarassatti – Hackearragacocho
(QTV, Brasil, Rio de Janeiro)

Marco Scarassatti faz uma escavação rigorosa das possibilidades da viola de cocho, instrumento de origem portuguesa abrasileirado na região Centro-Oeste. Uma curiosidade genuína e quase infantil em desmontar as peças e refundar a voz do instrumento.

Marcos Campello – li o vão o sol e Onda de Beleza Natural
(Seminal Records e sem selo, Brasil, Rio de Janeiro)

Membro da banda de Ava Rocha, do power trio punk abstrato Chinese Cookie Poets e do duo de improvisação Oco (com J.-P. Caron), Marcos Campello soltou dois álbuns solo em 2018: li o vão sol e Onda Natural de Beleza, respectivamente, uma desconstrução do choro e do carimbó/guitarrada a partir de experimentações timbrísticas e atonalismo. Um encontro improvável entre Garoto, Egberto Gismonti, Pinduca e Bill Orcutt.

Marília Mendonça – “Estranho”
(Som Livre, Brasil, Goiás)

Aliança virou enfeite no dedo, a cama só serve para dormir mesmo e no carro o outro é um simples passageiro: Marília Mendonça canta um amor em coma, uma paixão que se esvaiu — mas, ainda, uma relação que não termina e passa a existir apenas pelo hábito. Enquanto isso, no plano da política institucional brasileira, as (limitadas) conquistas dos últimos anos foram sendo desfeitas lentamente bem diante dos nossos olhos e de nossa placidez comodista. Não foi uma nova ditadura militar que reduziu o salário mínimo, desmontou leis trabalhistas, os direitos indígenas, as políticas de direitos humanos e hasteou a bandeira do ódio. Todo autoritarismo violento e anti-democrático nasceu por dentro e de dentro dos mecanismo da própria democracia. “Estranho” é uma metáfora para aquilo que acontece silenciosamente, as estruturas ruindo por detrás de sua camada oficial aparente. Assim acaba o mundo: não com uma explosão, mas um suspiro.

MC Rick – “Cobiçadas do Twitter” (DJs PH da Serra e TG da Inestan)
(sem selo, Brasil, Belo Horizonte)

“Não sou artista. Artista faz arte, eu faço arma”, disparava Mano Brown em entrevista de 1988. Três décadas depois, MC Rick, inverte o jogo: “Rick não é bandido, porra, Rick é artista”. Mas além de uma disputa por legitimidade, a malandragem dúbia na voz do MC mineiro esconde uma ironia pela própria ideia de Arte — um escárnio total contra essa arte desvencilhada da rua e dos corres. Quando lembramos que Bolsonaro foi o candidato mais popular entre as classes altas e mais escolarizadas, este deboche contra a arte institucional — e seu ideal de bom gosto e pureza — fazem desse moleque do Morro do Papagaio um dos artistas mais radicais e violentos do Brasil contemporâneo.

Mestre Anderson Miguel – Sonorosa
(EAEO, Brasil, Nazaré da Mata)

Aos 23 anos e sob direção de Siba, Mestre Anderson rompe com qualquer discurso folclórico e paternalista. Revira a memória, afasta a nostalgia e apresenta o maracatu de baque solto e a ciranda como uma expressão vibrante, dinâmica e transformadora.

Mika Vainio + Ryoji Ikeda + Alva Noto ‎– Live 2002
(Noton, Finlândia, Japão, Alemanha)

Encontro único entre três produtores seminais, equilibrando com maestria a personalidade de cada um (o glitch minimalista de Ikeda; os rompantes extremos de Vainio; a precisão disciplinada de Noto) em uma narrativa que vai de microbeats elétricos (Movement 4) a um afogamento pelo ruído no fim. Exemplo de alteridade e escuta, melhor álbum de improvisão do ano.

Mount Eerie – (after)
(P.W. Elverum & Sun Ltd, EUA)

As músicas de A Crow Looked at Me e Now Only, desabafos e confissões escritos por Phil Elverum sob o impacto da morte de sua esposa, encontram o público em um show de quase duas horas. Acompanhado apenas por um violão, a voz de Phil reverbera friamente suas memórias, arrependimentos, mágoas e esperanças entre o silêncio inquietante do público na catedral de Jacobikerk. Uma tristeza sóbria, absolutamente desoladora e comovente.

Nego do Borel – “Me Solta” (DJ Rennan da Penha)
(sem selo, Brasil, Rio de Janeiro)

Um grito por liberdade. Uma ode aos fluxos. Um manifesto pelo aqui-agora, uma revolta instantânea e instintiva contra qualquer tipo de amarra e clausura — de relacionamentos às proibições (por vezes destruição) dos bailes funk pelo Estado. A resposta da favela se efetiva não pelo discurso, mas no corpo e na leveza dos movimentos. Deixa eu dançar!

Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer – Tradição Improvisada
(Selo Sesc, Brasil/Suíça)

Um retrato da parceria de longa data entre o mestre rabequeiro Nelson da Rabeca com o improvisador Thomas Rohrer. O disco capta um processo reflexivo em que os procedimentos da música contemporânea europeia descobrindo-se na tradição nordestina e vice-versa, formando um trabalho em movência contínua. Mas acima de tudo há o deslumbre. O diálogo melancólico das rabecas em “Segundo Silêncio”, os caminhos sinuosos de “Segredo das Árvores”, o transe onírico de “Deodoro”, a voz de Dona Benedita em “Andorinhas”… Tudo soa como uma revelação. A maré abrindo caminho entre as pedras.

Nene Brown – Raízes Por Outras Óticas
(Time Forte, Brasil, Rio de Janeiro)

Segundo álbum solo do percussionista Nene Brown, que reinventou o uso do pandeiro e — principalmente — o tantan tocando com uma série de nomes de peso do samba, de  Arlindo Cruz a Seu Jorge.Um circuito polirritmico que conecta as levadas da Orquestra Afro-Brasileira, Pedro Santos e Fundo de Quintal.

Rabit – Cry Alone, Die Alone
(Halcyon Veil, EUA)

Fusão certeira de rap letárgico, chopped & screw e densas neblinas eletrônica. No meio dos climas etéreos, Rabit faz um trabalho de sampleamento sem igual. Quando Rihanna entra cantando “Needed Me” na última faixa, só resta levantar e aplaudir.   

Rodrigo Campos – 9 Sambas
(YB Music, Brasil, São Paulo)

Um dos nomes à frente dos principais esforços de renovação do samba século XXI, Rodrigo Campos promove aqui uma desarranjo do samba a partir de seu próprio imaginário, ritmos, cadências e suingues. Um contrasamba?

Romulo Fróes – O Disco Das Horas
(YB Music, Brasil, São Paulo)

Romulo Fróes reencena Lupicínio Rodrigues, Jamelão e Orquestra Tabajara numa epopeia que vai do alvorecer do homem — o morador da caverna, inventor do machado, criador do alfabeto —  ao big bang da agonia, quando somos deportados do tempo. Entre essa existência, uma história de amor mínimo, múltiplo, comum no meio do caos. Como podem manchetes de jornais se nós nos amamos? Não vamos deixar melodias. Somos os únicos capazes de urrar de prazer.

RP Boo ‎– I’ll Tell You What!
(Planet Mu, EUA)

Ao lado de Jlin, RP Boo é o responsável por distender os limites do footwork. “I’ll Tell You What” é um o ápice de sua engenharia sônica. Complexos encaixes de samples, pontes correspondentes entre os subgraves dos kicks e sons agudos, um aprofundamento nas questões timbrísticas normalmente negligenciadas pela dance music e os cortes mais sinistros e originais da atualidade.

Samba de Coco Raízes de Arcoverde – Maga Bo Apresenta Coco Raízes de Arcoverde
(Kafundó Records, Brasil, EUA)

Os hiperritmos do Samba de Coco Raízes de Arcoverde — advindos de pisadas de um tamanco de madeira em um tablado — são aditivados por retoques eletrônicos sutis e uma captação de som primorosa a cargo do produtor americano radicado no Brasil Maga Bo. Uma cosmologia polifônica estonteante que flui sempre em direção ao novo.

Senyawa – Sujud
(Sublime Frequencies, Indonésia)

Definir o que rola aqui é tarefa árdua. O duo formado por Rully Shabara (vocais guturais, canto polifônico e outras técnicas extremas de voz) e Wukir Suryadi (instrumentos de corda autoconstruídos e um monte de pedais de efeito) transforma a música tradicional da Indonésia em um drone/doom metal apocalíptico. Mas isso é apenas um baliza, um introdução. Na real, não há paralelos para o Senyawa.

Sidi Touré – Toubalbero
(Thrill Jockey, Mali)

Quarto álbum de um dos maiores cantores vivos do Mali, “Toubalbero” é o primeiro trabalho elétrico de Sidi Touré, bem como seu primeiro disco em um estúdio de grande porte, gravado interamente ao vivo. O resultado: um groove de dinâmica eletrizante e otimismo sem igual. Um lembrete de que viver, no fim das contas, é bom.

Space Afrika ‎– Somewhere Decent To Live
(Sferic, Inglaterra)

Herdeiro direto do legado de Moritz von Oswald e Basic Channel, o duo de ambient music Space Africa vai beber na fonte do dub e do jungle para criar sua exuberante atmosfera esfumaçada.

Tal National – Tantabara
(FatCat Records, Níger)

Uma teia polifônica intricada em ritmos de virar a cabeça (compassos do tipo 12/8) e guitarras enérgicas que ecoam o Tinariwen. Uma epifania intensa.

Tatu Rönkkö ‎– Spheres
(Sonic Pieces, Finlândia)


Por volta de 2010 o percussionista Tatu Rönkkö começou a fazer pequenas apresentações nas cozinhas das pessoas em Berlim, utilizando objetos cotidianos e instrumentos artesanais construídos por ele. Este é seu primeiro álbum e passeia por levadas tribais a beats do drum & bass e texturas eletroacústicas. “Then” é um cruzamento curioso entre Konono No.1 e Aphex Twin.

Tirzah – Devotion
(Domino Recording Co, Inglaterra)

Enquanto boa parte do R&B é permeado por uma espécie de derramamento contido, Tirzah conduz sua música por um caminho contrário. Seus sentimentos, mágoas e inseguranças não são redenção, mas um elemento que toma forma como um desarticulador — loops bruscos, frases incompletas, gaguejados, reticências. Como uma pedra que bloqueia o curso de um rio. Conflitos internos que não são expurgados. Em vez disso, se complexificam e implodem.

Toshimaru Nakamura – Re-Verbed: No-Input Mixing Board 9
(Room40, Japão)

Nakamura sintetiza com brilhantismo as possibilidades do no-input mixing board, técnica cujo músico é pioneiro e que consiste em tocar apenas o feedback interno da própria mesa de som. O álbum caminha rumo à abordagens mais rítmicas e harmônicas, conjurando espectros impressionistas do dub.

Travis Scott ft. Drake – “Sicko Mode”
(Epic/Cactus Jack/Grand Hustle, EUA)

Migos estabeleceu um tipo de rap que funcionava menos sob as diretrizes do flow/onda e mais sob uma experiência fragmentada de partículas, uma torrente cracks e adlibs. Travis Scott, por sua vez, introduz em sua música o conceito de dualidade onda-corpúsculo: “Sicko Mode” não é partícula ou onda, mas sim, como o elétron,  partícula e onda. E, como o elétron, movimenta-se através de saltos quânticos descontínuos.

Vitinho Polêmico – “Disso Que Elas Gostam (Rosa Dou Pra Quem Tá Morta” (JS)
(sem selo, Brasil, Recife)

Ao lado de “Cobiçadas do Twitter”, “Disso Que Elas Gostam” mostra um dos arranjos mais desafiantes da música popular atual — e não só no Brasil. Ritmos desconcertantes, encaixe e modulações perfeitamente colocados no sample de flauta e um ataques metálicos que remetem ao breakbeat do Venetian Snares. A faixa estabeleceu um novo modelo de sonoridade do bregafunk recifense, sendo utilizada posteriormente em “Barulho da Kikada” (dos MCs Niago, Seltinho Coreano e O Reino) e “Tome Empurradão” (de Shevchenko e Elloco), dois prováveis hits do Carnaval de Olinda e Recife.


Antologias, compilações, relançamentos, antigos inéditos

Ederaldo Gentil (no violão) com Os Tincõas

Alan Braufman – Valley of Search
(1975, The Control Group / Valley of Search, EUA)

Nos anos 1970, enquanto o jazz fusion dominava as paradas, uma cena subterrânea de improvisadores do jazz acústico se formava nos lofts baratos do centro de Nova York — é neste contexto que surge Ornette Coleman, por exemplo. Valley of Search capta duas sessões de improviso do grupo liderado pelo saxofonista Alan Braufman e seu som caleidoscópico.

Ali Hassan Kuban – From Nubia to Cairo
(1989, Piranha, Egito)

Inspirador pelos grooves de James Brown, Ali Hassan foi um dos responsáveis por introduzir instrumentos ocidentais como guitarras e teclados na música do Cairo, sempre em diálogo com a tradição do povo Núbio, tido como um dos mais antigos da África.

Annette Brissett – Love Power
(1986, Wackies, Jamaica)


Álbum de estreia da cantora e baterista Annette Brisset, é um clássico da música jamaicana, temperado o groove reggae-soul com o reverb característico do dub e — influência do sucesso da conterrânea Grace Jones — incursões em torno da disco music.

Apichatpong WeerasethakulMetaphors (Selected Soundworks from the Cinema of Apichatpong Weerasethakul)
(Sub Rosa, Tailândia)

Entre baladinhas coracionais à capella e intricadas composições de sons ambientes, este álbum é um mergulho no universo fílmico do diretor tailandês e sua exploração do som enquanto memória residual e do silêncio como presença física inquietante — tudo entrelaçado numa sutil disputa ecopolítica, como na sublime Sharjah and Java.

Ayalew Mesfin – Hasabe (My Worries)
(Now-Again, Etiópia)

Primeira antologia da obra de Ayalew Mesfin, um dos principais nomes do soul/funk da Etiópia. Localizado nos chifres da África, o país sempre manteve ligações históricas, comerciais e religiosas não apenas com o continente africano, mas também com o Oriente Médio, Ásia e Europa. Essa conexão multicultural faz-se audível na tradição musical etíope e no som de Mesfin, que ainda vai beber na música pop ocidental, particularmente Jimi Hendrix e James Brown, como no groove ácido da faixa-título. Vale observar que a maior parte dessas músicas foi gravada às escondidas entre 1975 e 1977, quando o país vivia sob uma ditadura militar.

Camarão – The imaginary Soundtrack to a Brazilian Western Movie (1964 – 1974)
(Analog Africa, Brasil, Pernambuco)

Camarão recebeu o título de Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco em 2003, mas sua música ainda é pouco conhecida. O beat endiabrado na intro de “Quem Vem Lá”, o groove de tuba em “Sereia do Mar”, a safadeza da guitarra em “Não Interessa Não” mostram arranjos de uma inventividade que não se confina nos ditames do forró. Mais que um sanfoneiro habilidade, Camarão é um visionário da música popular nordestina, na mesma linha do seu padrinho Luiz Gonzaga e seus parceiros Dominguinhos, Sivuca e Hermeto Pascoal.

Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro ‎– Mr. Wollogallu
(1991, Urpa i musell, Portugal)

Única colaboração entre Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro, dois ídolos do rock português influenciados por Brian Eno e Jon Hassel reunidos em um exercício imaginativo-especulativo das paisagens sonoras latinas e asiáticas. Nuvens eletrônicas de beleza delicada.

Ederaldo Gentil – Acervo Ederaldo Gentil
(Esquisito Festim Music, Brasil, Bahia)

Ao lado de Batatinha e Riachão, Ederaldo Gentil é um dos pilares do samba baiano. Foi gravado pelo Conjunto Nosso Samba (banda de apoio de Clara Nunes), Originais do Samba e Jair Rodrigues. Seus álbuns, no entanto, não fizeram tanto sucesso e foram esquecidos. O box Acervo Ederaldo Gentil resgata seus três discos de estúdio (dois álbuns pela gravadora Chantecler nos anos 70 e o LP independente Identidade, de 1983) e apresenta uma coletânea de raridades. O destaque é Pequenino (1976), em que Ederaldo acentua a influência do candomblé no ritmo e na fluidez melódica de suas canções.

Eko Kuango – Eko Kuango
(1987, Libreville Records, Congo/Bélgica)

Depois de experimentos eletrônicos com Paul K entre 1980 e 1984, o multinstrumentista e poeta congolês Denis Mpunga formou a banda Eko Kuango. Ainda no projeto de desmistificar as noções essencialistas sob a música africana, Mpunga investiu num amálgama de high life e soul jazz motowniano.

Ekuka Morris Sirikiti – EKUKA
(Nyege Nyege Tapes, Uganda)

Uma fina seleção das performances musicais do legendário griot Ekuka Morris Sirikiti nas redes de rádio de Uganda, entre 1978 e 2006. Usando apenas o piano de dedo lukeme (também chamado de mbira e likembé) e voz, Sirikiti cria uma fantasia sônica telúrica e distorcida. Let’s get lost.

Hany Mehanna – The Miracle of the Seven Dances
(1975, Radio Martiko, Egito)

Hany Mehanna é um prolífico compositor de trilhas para o cinema e séries no Egito, mas seu trabalho solo costuma ser mais experimental. Este é um álbum de dança do ventre, mas aberto à infusões com guitarras psicodélicas e um engenhoso minimalismo eletrônico — como o órgão da maravilhosa “Badaouiah”. Possivelmente um gesto pioneiro na modernização do dabke árabe, que recentemente ganhou notoriedade com Omar Souleyman.

Hermeto Pascoal – Hermeto Pascoal e Sua Visão Original do Forró (1999, Scubidu Music, Brasil, Alagoas)

Mais um valioso álbum inédito dos arquivos da usina de som Hermeto Pascoal. Com a sanfona em mãos, o bruxo costura forró, maracatu, frevo e jazz numa composição de vitalidade luxuriante como só ele consegue — a SpokFrevo Orquestra tenta, mas acaba por domesticar a chama improvisativa do forró. Hermeto, por sua vez, concentra o calor e a magia da dança e das partes baixas do corpo.

Jako Maron – The electro Maloya experiments of Jako Maron
(Nyege Nyege Tapes, Ilha Reunião)

Nos últimos 15 anos, Jako Maron vem trabalhando em reinterpretações eletrônicas (com sintetizador modular e drum machines) dos ritmos binários e terciários do maloya — música e dança dos escravos das plantações de açúcar da Ilha Reunião, no Oceano Índico. São formas longas que vão gradativamente acumulam de camadas e floreios rítmicos, construindo lentamente uma tensão gelada — ou um transe meditativo.

Julius Eastman – The Zürich Concert
(1980, New World Records, EUA)

A compilação de três CDs Unjust Malaise (2005) e Femenine (2016) não deixam dúvidas: Eastman é um dos grandes compositores do século XX, não devendo em nada para Reich, Riley, Cage, Oliveros ou Feldman — estes três últimos, seus companheiros no Sem Ensemble, no início dos anos 1970. Mas, negro, homossexual e provocador nato, chocou-se com o “bom gosto” e a moral da elite intelectual e foi constantemente boicotado. Raras foram as gravações e partituras que sobreviveram. Zürich Concert é um registro em cassete de uma improvisação densa ao piano, onde Eastman intercala momentos de espaço e delicadeza com cascatas sonoras violentas. É um dos seus seu registro mais emocional e dolorido. Um ano depois desse show, Eastman foi despejado de seu apartamento e seus pertecentes, incluindo as partituras, jogadas no lixo. Mais dois anos e ele já era um sem-teto, sozinho, afundado no álcool e nas drogas. Esta é a música de um gênio enfrentando o seu fim.

Justin Hinds – Know Jah Better
(1992, Omnivore Recordings, Jamaica)

Pioneiro do ska e do rocksteady, Justin Hinds abraçou o dancehall em Know Jah Better, seu primeiro trabalho na década de 1990. Canções radiantes, banhadas de sol, com sorriso sereno e iluminadas de vida. Estados concentrados de felicidade (ou vontade de potência, se preferir).

Kuniyuki Takahashi – Early Tape Works (1986 – 1993)
(Music From Memory, Japão)

Coletânea em dois volumes de trabalhos inéditos deste experimentador seminal para a música eletrônica japonesa. Os álbuns são um desfile de paisagens sonoras sintéticas de beleza etérea e minimal, bem diferente dos sons mais conhecidos de Takahashi no techno, house e downtempo.

Mikhail Chekalin — Экзальтированная Колыбельная
(Gost Zvuk, Rússia)

O selo Gost Zvuk é uma boa referência para conhecer música eletrônica experimental da Rússia, atual ou raridades desconhecidas. Este compilado de gravações de Mikhail Chekalin cobre o período de 1979 a 1987, mas seu modo de pensar o som é pertinente e vívido. Tem uma forma de dobrar, comprimir, dilatar e derreter as sonoridades viscerais da música pop mundial que, curiosamente, atravessa grandes discos de 2018 — Bamba Pana, Sophie, Amnesia Scanner, James Ferraro. Além disso, um cara que recebeu elogios de Stockhausen e Zappa sempre merece seu tempo.

Otto Sidharta – Indonesian Electronic Music 1979-1992
(Sub Rosa, Indonésia)

A música de Sidharta evoca uma espécie de ecologia acústica, manipulando eletronicamente — em contraste ou em complemento — sons urbanos e naturais como no vislumbre de um outro mundo possível. Mas o que me pega nessa coletânea são as faixas em que ele transforma as percussões orientais em blocos texturais de ruídos hipnóticos.

Remko Scha ‎– Machine Guitars
(1982, Kremlin, Holanda)

Professor de linguística computacional, Remko Scha explorou formas de se criar música sem contato humano direto com o instrumento. Em “Machine Guitars”, desenvolveu escovas de arame rotatórias e outros mecanismos motorizados que tocavam guitarras suspensas por fios. O álbum é uma mina de ouro esquecida do minimalismo e microtonalismo na linha de Glenn Blanca e Rhys Chatham, embora suas máquinas o coloquem numa linhagem mais próxima às esculturas sonoras de Christian Marclay.

Terry Fox ‎– Audio Works
(1983, Song Cycle Records, EUA)

Compilação com seis peças de arte sonora do Terry Fox, nome celebrado da body art nos Estados Unidos, tendo ficado conhecido por performances e instalações que trabalhavam com o limite físico e psicológico. Aqui ele investiga principalmente com as microvibrações sonoras. “Cat Purrs Ending”, por exemplo, amplifica o ronronar de 11 gatos, formando um coral felino.

Telectu – Belzebu
(1983, Holuzam, Portugal)

Único álbum do duo Telectu, tido como um dos primeiros experimentos em música eletrônica minimalista de Portugal. Uma suíte textural imersiva, de ritmos esparsos que se adensa em uma espiral vertiginosa. Visão caleidoscópica.

V.A. – Battleground Korea: Sounds and Songs of America’s Forgotten War
(Bear Family Records)

Quatro CDs, 121 faixas com discursos políticos, noticiários e canções inspiradas na guerra travada entre os Estados Unidos e a Coreia entre 1950 e 1953. Da voz do presidente Truman oficialmente declarando guerra à músicas de B.B. King, John Lee Hooker, Fats Domino e Sister Rosetta Tharpe É um documento histórico de como os artistas endereçavam a questão e de como a incipiente música pop reagiu ao conflito. Um aspecto é a divisão racial. De um lado, artistas country escreviam canções patrióticas ou zombando dos ocidentais, enquanto a maior parte dos bluesmans e artistas da chamada “race music” protestavam por ter que voltar ao campo de batalha após a II Guerra Mundial.

V.A. – Esquirlas
(HiedraH Club de Baile, Argentina)

Em sua primeira compilação, o coletivo argentino HiedraH Club de Baile convidou 12 produtores de diferentes países para criar músicas inspiradas em suas primeiras memórias sensoriais. O resultado é uma rica cartografia da música de pista experimental latinoamericana, com tratamentos texturais refinados e influências diversas, do funk à ambient music.

V.A. – Habibi Funk: An Eclectic Selection Of Music From The Arab World
(Habibi Funk Records)

Um passeio por diferentes grooves do mundo árabe, como o zouk, a coladera, o AOR do Líbano, o funk do Marrocos, a disco do Egito e até um samba bossa-novístico da Líbia. Faixas como “Ayonha” (de Hamid El Shaeri) e “Games” (Samir & Abboud) são verdadeiros cristais pop.

V.A. – I Could Go Anywhere But Again I Go With You
(Posh Isolation, Dinamarca)

Projeção de interfaces possíveis para uma resistência tecnopolítica, simultânea a uma silenciosa e entorpecente melancolia diante da apropriação das inovações tecnocientíficas pela roda do capital — de catástrofes ambientais ao fim dos direitos trabalhistas e a política econômica de endividamento sistemático. A Posh Isolation na disputa da escritura do futuro.

V.A. – Latin Underground Revolution: Swinging Boogaloo, Guaguanco, Salsa & Latin Funk From New York City 1967​-​1978
(Rocafort Records, EUA)

Os singles perdidos de boogaloo, salsa, latin funk e afins diretamente da Nova York do fim dos anos 60 até primeira metade dos 70. Só pérolas irresistíveis para o bailado.

V.A. — Listen All Around: The Golden Age Of Central And East African Music
(Dust to Digital)

Remasterização das gravações realizadas pelo etnomusicólogo
Hugh Tracey entre 1950 e 1958 na Tanzânia, Congo e Quênia, retratando a fluidez melódica do cancioneiro da rumba africana — um gene perdido no DNA do nosso samba.

V.A. – Onda De Amor: Synthesized Brazilian Hits That Never Were
(1984​-​94, Soundway, Brasil)

Maravilhas esquecidas do synthpop brasileiro. Algumas datadas, mas a maioria é de um brilhantismo pop irresistível, em especial a baladinha sensual “Feminina Mulher” e “Tabu”, a versão brasileira de “Sweetest Taboo”, da Sade.

V.A. – The Originators
(Gqom Oh!, África do Sul)

Gerado das fusões entre o kwaito e o techno, o gqom é a música mais popular a sair da África do Sul recentemente, conquistando as pistas do circuito global bass e sucesso na crítica com os sons do DJ Lag, principalmente. A compilação do Gqom Oh! traz um panorama atualizado do gênero, compreendendo desde empreendimentos em direção a uma roupagem mais mainstream (caso do Naked Boyz) aos climas sombrios e beats hipnóticos do Griffit Vigo, a grande estrela do álbum.

V.A. – Two Niles to Sing a Melody: The Violins & Synths of Sudan
Ostinato, Sudão

Um painel diversificado da chamada “era de ouro” da música do Sudão, da música orquestral liderada por violinos e acordeões até as primeiras produções eletrônicas em sintetizadores e drum machines dos 1980, incluindo ainda relances da produção musical feita no exílio durante os anos 1990, quando um golpe de estado levou fundamentalistas religiosos ao poder.

V.A. — Voices of Mississippi: Artists and Musicians Documented by William Ferris
(Dust do Digital, EUA)

O trabalho do folclorista, cineasta e professor William Ferris (1942-) reunido em um disco triplo, sendo dois com gravações de blues e gospel (1966-1978) e mais com entrevistas e histórias (1968-1994).


EPS e mixes

Klein, uma poética dos vestígios

Bambounou ‎– Parametr Perkusja EP
(Disk, França)

Inspirando-se nos fenômenos de ressonâncias e dissonâncias de superfícies metálicas, Bambonou parte de padrões rítmicos tradicionais do gamelão indonésio para construir um emaranhado polirrítmico singular. Feitiçaria sônica.

Demdike Stare & Il Gruppo Di Improvvisazione Nuova Consonanza ‎– The Feed-Back Loop  
(DDS, Inglaterra, Itália)

Criado em 1964, o Gruppo Di Improvvisazionie Nuova Consonanza foi um coletivo de compositores — incluindo Ennio Morricone, Franco Evangelisti e Egisto Macchi entre seus membros — dedicado a desenvolver novas práticas de improvisação e técnicas expandidas no campo da música de ruídos. O Demdike Stare armou uma longa colagem do Gruppo, encaminhando as escavações sonoras dos italianos para uma nova direção.

DJ Polyvox – Polycast 150 BPM na Velocidade da Luz
(150 BPM Records, Brasil, Rio de Janeiro)

O podcast posiciona Polyvox, pioneiro do movimento 150 BPM, como um dos DJs mais inquietos da nova geração do funk carioca. Aqui o inventor do Tambor Coca-Cola amplia sua paleta de sons com operando infusões de timbres eletrônicos e sintetizadores com a batida seca do tambor, tudo com viradas hábeis e cortes precisos. O sumo da putaria carioca.

Carlos do Complexo – Piranhas Que Amam D+
(sem selo, Brasil, Rio de Janeiro)

Depois do soundmapping sonoro-afetivo das quebradas cariocas em Pós Oceano, Carlos do Complexo solta um mix só de edits funks de R&B e pop. É verdade que edit/mashup nessa linha na internet é mato, mas a maioria é uma imposição dura e mecânica do hit pop do momento com o tamborzão. Para além de toda diversão envolvida, Piranhas Que Amam D+ realça uma conexão emocional genuína que conecta os ostinatos de “juramento” e a voz de Frank Ocean em “Chanel”, os cortes de moto e o vocal ritmado do TLC.

Low Jack ‎– Riddims du Lieu-dit
(Les Disques de la Bretagne, Honduras/França)

Low Jack (aka Philippe Hallais) apareceu em seus primeiros álbuns fazendo techno noise bem distorcido, mas o interesse pela música caribenha vem despontando há um bom tempo e seus últimos EPs apresentam um tipo de dancehall experimental, na linha do Equiknoxx. Riddims du Lieu-dit é mais um passo no desenvolvimento dessa sonoridade dancehall de ritmo lento e abstrato, um mundo aberto e esparso.

Duppy Gun Productions – Miro Tape
(Bokeh Versions, Inglaterra, Jamaica)

Duppy Gun é a união de algumas das principais cabeças da música experimental de Los Angeles — Sun Araw, M Geddes Gengras, D/P/I — com uma nova geração de vocalistas da Jamaica, incluindo I Jahbar, Early One e Sikka Rymes. Em Miro Tape, eles ainda colam com Jay Glass Dubs e o coletivo Seekersinternational, duas forças renovadoras do dub. O resultado são 23 músicas coladas em mixtape cacofônica, um dancehall de telecoteco frenético flertando com o grime. Durante toda mix, perpassa um senso de inconstância e flutuação das zonas limiares do dancehall e ragga. Um novo organismo intermitente.

Elysia Crampton ‎– Elysia Crampton
(Break World Records, Bolívia/EUA)

Em uma investigação sobre sua própria ancestralidade, Elysia Crampton nos dá um exercício radical da cosmogonia rítmica das culturas andinas. Um estudo, ou talvez um pequeno manifesto contra a percepção colonialista do tempo. Pensar com os pés e liberar as potências imanentes do fluxo do pacha, o espaço-tempo mitológico inca.

Griffit Vigo – DJ / Gqom 6
(GQOM OH!, África do Sul)

Griffit Vigo tido como é um dos principais responsáveis na consolidação dos elementos musicais do gqom de Durban, mas até então seu trabalho nunca havia sido editado por um selo. Na esteira de sua estreia na coletânea The Originators, saiu seu primeiro compacto, uma ótima amostra do transe infinito do novo som sulafricano.

Heaven’s Gate – Heaven’s Gate
(The Burros Discos, Colômbia)

Nuvens de tensão elétrica permanente. Entre a mácula de culpa nas frágeis paredes da consciência e a graça da salvação, o fio desencapado, a corrente elétrica difusa do cristianismo.

Klein – cc
(sem selo, Inglaterra)

Se em seus primeiros discos Klein criava uma deformação das demarcações do R&B, em “cc” restam apenas rastros. Poéticas da corrosão. Sussuros, estruturas implodidas, loops ásperos, recortes barulhentos no breu. Klein descascando a música ao ponto em que restam somente vestígios.

Lechuga Zafiro – Aequs Nyama Remixed
(Salviatek, Uruguai)

Pista latina de ritmos feéricos. “Sonic fiction” em todo potencial na construção de uma topografia musical complexa, texturas acidentadas e uma série de dimensões sobrepostas. Suave pero rugoso.

Midori Takada & Lafawndah – Le Renard Bleu
(!K7 Records, Japão, Irã)

Primeiro álbum da lenda do ambient japonês Midori Takada em quase 20 anos. Ao lado da vocalista iraniana Lafawndah, temos uma narrativa mística que orbita em torno das mitologias orientais da raposa. Uma aura espiritual encantadora e difícil de explicar, delicadamente fabricada com sinos, waterphone, marimbas e uma série de percussões sutis. Importante assistir também a performance/filme, feito em parceria com uma cineasta, um fotógrafo e um artista visual.

Moro – Irrelevant
(Janus Berlin, Argentina)

Depois de explorar as memórias do tráfico negreiro e as origens africanas do tango, Moro emerge com seu “ramba sound” na cultura de rua argentina, da música aos protestos. Na introdução do EP/mix, ele escreve: “Os mesmos instrumentos de percussão originalmente usados para o Carnaval são também usados para as coisas mais passionais na Argentina: política e futebol”.

Pepapuke – ID Tormenta 04
(Tormenta, Brasil, Recife)

Um ensaio (#storytelling) sobre boquete, fuder pra caralho até o pau dar game over e outras porras afins, costurando Bad Gyal, MC GW, Sophie, lambada, trap e Mano DJ e a personagem-estrela Érica Cilada. Um mix cinematográfico.

Pininga – Deixa os Monstros Falarem Mixapella
(Tormenta, Brasil, Recife/São Paulo)

Da mixagem, colagem, sobreposição e acumulação de vozes de MCs, Pininga cria uma narrativa agressiva de autocombustão. A liberação desordenada — por vezes violenta — do desejo.

Rian Traenor – Contraposition
(Arcola, Inglaterra)

Notavelmente influenciado pelas quadraturas assimétricas de Mark Fell e a polirritmia do footwork, Rian Traenor arquiteta uma geometria rítmica singular. Beats de fundados a partir de uma concepção matemática desviante.

Sophia Loizou – Irregular Territories
(Cosmo Rhythmatic, Inglaterra)

Loizou não está interessada na “desconstrução” da música eletrônica, mas na sua negatividade. O assombro e no torpor luxuriante da pista de dança — o desejo que não libera, mas retrai, curva, bloqueia. Uma rave fantasmagórica. Breakbeats como flashs, suspiros, vultos numa caudalosa câmara de reflexos. Um som que desliza ambiguidades.

Vanity Productions ‎– Affiliations
(Posh Isolation, Dinamarca)

Um tributo aos dispositivos contemporâneos de comunicação em um pano de fundo sonoro granulado. Somente os grãos de uma história de amor de WhatsApp.

Wallace Função – Meu Bagulho EP
(QTV, Brasil, Rio de Janeiro)

O pathos dos bailes de corredor do Rio de Janeiro concentrado em sua mais fundamental e violenta cacofonia — e daí processado por um acelerador de partículas. Entidade minimal esquizofunk.

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