Os caminhos de uma música experimental brasileira

alguns dos nomes que já passaram pelo novas frequências: andy stott, sun araw, com truise (na sua primeira edição, em 2011), hype williams, actress (2012), tim hecker, sthepen o’malley, james ferraro, david toop, aki onda, ben frost, mark fell (2014), phill niblock, félicia atkinson (2015). neste ano, uma particularidade: sem um lineup estrelar de gringos, os artistas brasileiros foram o destaque do festival carioca, demonstrando o alto nível e a diversidade da produção nacional e levantando alguns questionamentos sobre os rumos do “experimental” no brasil.

no primeiro dia, no galpão gamboa, o xiu xiu, a banda mais esperada do festival, decepcionou com um show morno. em formato “intimista”, tocaram um repertório com suas canções mais emotivas e pessoais, mas não conseguiam se conectar com o público – que ironizava ao pedir silêncio fazendo “shiiiu shiiu”.

enquanto isso, thiago miazzo operava as imagens do jogo destruction derby e o lo-fi como uma metáfora simbiótica do ferro-velho do capitalismo pós-industrial. a peça blast blast beat beat, de gustavo torres, lidava com a impossibilidade de dois bateristas de grindcore acompanharem a gravação de si mesmo. também no galpão gamboa, uma cortina preta guardava a sala da instalação moto-perpétuo, de luísa puterman. de fora, ouvia-se alguns ruídos suspeitos. Mas o choque vinha ao entrar na sala, quando descobríamos um ataque total aos sentidos: uma nuvem de fumaça simulava poeira, luzes fortes e quentes que encadeavam a vista e um som ensurdecedor de (algo como) demolição que invadia os ouvidos e massacrava o corpo.

tantão com god pussy (ao fundo) e lê almeida
foto: francisco costa/ i hate flash

a apresentação do duo húngaro céh, no segundo dia do festival, foi empolgante, divertida, mas muito, aquém do show de tantão com god pussy e lê almeida (antes) e do rakta (depois). “visceral” e outras palavras afins ainda não são suficientes para dar conta da presença de tantão em cima do palco. imerso no som provido pelo god pussy (uma parede inexorável de ruídos) e lê almeida (loops de guitarra ou fitas k7 e viradas barulhentas na bateria), o ícone do underground carioca e tabu ambulante (negro, homossexual, junkie) vociferava palavras delirantes, como se fizesse premonições aleatórias em fluxo de consciência:

– ABRIMOS UM PORTAL.
– VAI E NÃO VOLTA. VAI E NÃO VOLTA. NINGUÉM JAMAIS VOLTOU.
– ACELERA, DEUS.
– LEONILSON TINHA UM OCEANO.
– BANDIDO BOM É BANDIDO RICO.

quanto ao rakta, basta dizer que, junto com o metá metá, o trio é provavelmente a melhor banda ao vivo do brasil hoje. assisti um show delas no mês passado, no coquetel molotov, em recife. a banda fez uma mini tour pelo nordeste tendo douglas, do deaf kids, como substituto da baterista nathalia viccari (que atualmente vive na argentina). fizeram um show fantástico naquela ocasião, mas no novas frequências, contando com a presença de nathalia, a banda foi além.

com precisão absurda, nathalia é peça fundamental na rigidez do alicerce sonoro e na repetição rítmica frenética – ponto nevrálgico da estrutura e do efeito de transe das músicas do rakta. assim, o trio parecia estar mais firme para improvisos tanto solo ou coletivas (o número dos surdos em conjuração do espelho). mas a coisa é: há uma magia hipnótica no rakta – o baixo constelado de filhas do fogo; o teclado nebuloso de intenção; a voz translúcida de paula rebellato. é uma energia viva e iminentemente pulsante, completamente diferente do olhar folclorista que os franceses vincent moon, priscilla telmon e rabih beaini lançaram sobre as religiões e liturgias em cosmogonia – uma performance de live cinema com manipulação de imagens religiosas feitas por moon nos últimos dez anos ao redor do mundo, do peru a chechênia, do brasil ao vietnã, do sufismo ao candomblé.

na abertura da segunda etapa do festival, no teatro do espaço oi futuro ipanema, o pianista britânico stephen grew fez uma apresentação interessante, abordando o instrumento das teclas às cordas com cascatas sonoras em velocidade alucinante. mas logo depois, os smetakianos do interregno trio – projeto dos baianos edbrass brasil, joão meirelles e do paulistano joão meirelles – fizeram uma improvisação lúdica e dinâmica explorando microtons numa mistura de beats eletrônicos com instrumentos de sopro auto construídos (mangueiras com funil na ponta). mais tarde na comuna, lucindo mostrou um set de muita experimentação, especialmente em sua primeira parte, quando navegou longe dos beats fixos do techno para flutuar em texturas sonoras diversas – um som particularmente “diferente” e inusitado para mim, que não conhecia o trabalho dele.

interregno trio
foto: francisco da costa/ i hate flash

na verdade, esse banho que os brasileiros deram nos gringos não foi apenas no novas frequências. em julho, no festival internacional de música experimental (fime), em são paulo, também foi evidente que os músicos nacionais estavam propondo explorações formais e/ou conceituais muito mais profundas.

não levanto isso para colocar uma disputa nacionalista inexistente (do tipo brasileiros x gringos) — na verdade, também rolaram apresentações de impacto dos estrangeiros. mas o ponto é provocar alguns tópicos: 

1. por que os artistas brasileiros não estão nos festivais gringos? em 2014, o novas frequências fez um showcase em londres e glasgow com negro leo e chinese cookie poets. nenhum curador de lá se interessou?

2. enquanto o novas frequências rolava no rio de janeiro com o rakta e o dissonantes, tracy mann, representante do festival south by southwest (sxsw), citava liniker como representante das “novas formas da música brasileira” na semana internacional de música de são paulo (sim).

“ele tem essa coisa de identidade de gênero que interessa muito e já conseguiu um lugar no elenco do SXSW”, diz tracy mann em entrevista à folha. é a noção de “empoderamento” caminhando como um nicho de mercado, cristalizando-se em figuras como liniker ou em discursos “politizados” como o de mc carol e carol conká em 100% feminista. a vontade de poder, ao invés da vontade de potência do rakta e paula rebellato (“somos muitas”; “a cada passo/ um caminho/ que se abre/ entre nós”)

3. uma pergunta esperançosa, ou inocente: onde está a crítica cultural diante de toda essa invenção e reinvenção musical? na lista dos 20 discos do ano da associação paulista de críticos de arte (apca) o que consta é the baggios, mahmundi e outros requentados — as incógnitas são o metá metá, iara rennó e douglas germano.  fora do formato tradicional da canção, os escritos são quase nulos, mesmo diante de uma produção incomensurável: anganga revira as cicatrizes da escravidão e coloca a voz como “uma tela vazia”breviário e o confronto com os limites de arte-e-vida; a simbologia de cantar sobre ossos em seu uso da magia, cosmovisão e astrologia para construir a sobreposição e saturação de diversos cantos femininos. o passeio pela terra pós-colapso dos sentidos de niños heroes. a viagem mística do interior do país de zuuumiwao e a ideia de uma arte sem experiência.

mas então…

enquanto a crítica não dá conta desse pensamento artístico evidente – ou o faz sobre o prisma fetichista da inovação, da modernidade, do militarismo da vanguarda -, os artistas, indiferentes, continuam organizando-se, produzindo, criando. num rápido levantamento que fiz com amanda cavalcanti, repórter do thump brasil e criadora do blog filhas do fogo, contamos mais de 30 selos de música experimental e eletrônica no brasil. mário del nunzio, curador do ibrasotope e do fime, mapeou outras dezenas de iniciativas (selos, festivais, séries de apresentações) dos últimos 15 anos como parte de sua pesquisa de doutorado. é um tempo de intensidade. o novas frequências aglutinou todas essas movimentações e, principalmente, foi levado por elas.

originalmente publicado em 13 de dezembro de 2016.

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