Novas Frequências 2016: os 10 melhores shows

na ativa há seis anos, o novas frequências se consolidou não apenas como um dos principais festivais do brasil, mas como uma referência mundial na música experimental. acompanhei de perto a edição deste ano, de 3 a 8 de dezembro: os shows no galpão gamboa, no teatro do oi futuro ipanema, na comuna/bolha, a festa de encerramento na fosfobox. novamente, a curadoria refinada e atenta de chico dub trouxe dezenas de apresentações interessantes e ousadas, além de instalações sonoras de alta densidade conceitual. esta edição teve uma boa parceria com a plataforma shape, que trouxe gil delindro, stine janvin motland, j.g. biberkopf, entre outros.

nessa breve lista selecionei os meus destaques particulares do festival – ainda que outras ótimas apresentações, como o set de lucindo e új bala e a instalação psychotropic electric eel dreams, de rob manzurek, tenham ficado de fora. dez (+1) dos melhores momentos do novas frequências 2016:


tantão com god pussy e lê almeida

 visceral, violentamente arrebatador, acachapante, extasiante… os adjetivos não dão conta do que foi o encontro de tantão, god pussy e lê almeida, três diferentes gerações do undergrond carioca no mesmo palco. imponente sobre a montanha inexorável de ruídos montada pelo god pussy (pílulas de harsh noise) e lê almeida (com loops de guitarra e fitas k7 mais viradas barulhentas na bateria), tantão raivosamente vociferava frases delirantes e surrealistas, como se fizesse premonições aleatórias em fluxo de consciência: “BANDIDO BOM É BANDIDO VIVO”; “ACELERA, DEUS”; “VAI E NÃO VOLTA. VAI E NÃO VOLTA. NINGUÉM JAMAIS VOLTOU”. tantão, mensageiro do caos, profeta do apocalipse.


moto perpétuo, de luisa puterman

próximo ao terraço eletrônico do galpão gamboa, ouvíamos um barulho estranho vazando de uma sala. ao descortinar e entrar no espaço, um ataque súbito aos sentidos: o ruído ensurdecedor de demolição/ construção penetra os ouvidos e colide com todo o corpo; a fumaça, como uma espécie de poeira, e os refletores bem à frente ofuscavam a visão, além da iminente sensação de calor. a instalação da paulista luisa puterman é ambivalente, ao mesmo tempo sufocante/ inóspita e imersiva. o tempo se desmancha, sem fim e sem início.

a princípio, moto perpétuo parte da reestruturação que o rio de janeiro atravessou — e ainda atravessa; as ruas do entorno do próprio galpão gamboa foram todas alteradas para dar passagem ao vlt de sérgio cabral — para ser a tão sonhada cidade da copa e das olímpiadas. a ideia é repensar os aspectos ligados a transformações urbanas perenes. mas há muito mais ali. envolve sobretudo a nossa concepção de ruínas — do capitalismo, do modelo moderno de urbanização, da economia brasileira movida por empreiteras, da arte. a instalação também ganha um sentido particularmente provocativo no ambiente do próprio festival, como uma ironia velada à noção de “progresso” vinculada à arte de vanguarda (lembrar da conotação militar/ bélica da palavra vanguarda). 


rakta

o grande lance do rakta parece ser o diálogo rítmico entre bateria e baixo, cuja repetição de frases induz ao transe e ao onírico, uma despossessão do corpo. mas o ponto é que há uma magia e brilho nos shows da banda, o som como manifestação intuitiva e mística, ainda que paula rebellato (e suponho que as demais integrantes) diga que tem receio desta palavra. é uma força indescritível que move o trio no palco. junto com o metá metá, a melhor banda no brasil hoje.


stine janvin motland apresenta fake synthetic music

antes do show, eu receava que a apresentação da norueguesa stine janvin motland fosse um show de exibicionismo técnico. felizmente, não foi nada disso. em fake synthetic music, ela se propõe a imitar as sequências melódicas de sintetizadores utilizando a voz. mas há uma concepção do som que é formidável, por vezes sugerindo um ritmo de orientação techno, por vezes construindo uma espacialidade etérea ou abrasiva. os agudos tinham um tipo estranho de ressonância intra-auricular, o que levou muita gente a tapar os ouvidos — pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. .


cadu tenório e salisme: lzana

 o set do lzana — projeto de cadu tenório e salisme (aka melissa daher) — foi muito diferente do álbum lançado por eles este ano. no disco, é uma construção mais atmosférica, drone. ao vivo, a coisa frenética
0 grau. uma combinação mesmerizante de techno, gabber e industrial. tudo com muita improvisação, o que conduziu para momentos ainda mais quentes no final. uma pena não ter registro do final, quando a coisa começou a ficar nervosa de verdade.


dissonantes apresenta: natacha maurer, renata roman, paula rebellato, carla boregas e leandra lambert

na primeira edição do dissonantes, cinco artistas diferentes no mesmo palco: paula rebellato, carla boregas (ambas do rakta), natacha maurerrenata roman (criadoras do dissonantes) e leandra lambert. havia dois desafios: destacar as singularidades de cada proposta e, na improvisação coletiva, criar uma conexão entre cinco pessoas. resolveram as duas questões traçando um roteiro que orientava os momentos solo e em dupla até a conclusão com todas juntas. começou com o diálogo entre natacha (eletrônicos e torre com diferentes cordas, aparente metálicas metálicas) e renata roman (paisagens sonoras eletroacústicas), passando por carla e o storytelling de zona morta, lambert e as derivas da voz/ poesia sonora de cut up tragedy, rebellato e o uso enigmático dos samples de pássaros. no fim, a comunhão de todas.


bella

bella

bella

na performance facies, bella cobria-se com um lençol e tocava por debaixo dele. no novas frequências, ela fez algo diferente. colocou um balde d’água em cima do amplificador e um lanterna do celular para projetar na parede as sombras da água e sua vibração com o som. bella está visível, mas seu som permanece mistério envolvente.


gil delindro

mais importante que a aura dos objetos (uma pedra de gelo que entrava em contato com uma superfície amplificada; balde de água com microfones ao fundo) é o modo como delindro os manipulava. erguia climas minuciosos que culminaram com o seu canto debaixo da água. arrebatador.


j.g. biberkopf

o lituano mostrou seu recém-lançado álbum ecologies ii: ecosystems of excess. uma incerta na música de pista: faixas que cresciam, fluxos incertos, rotas não lineares, um beat de sustentação que anseava por entrar, mas era sempre suprimido.”solta o grave”, gritou desesperadamente alguém na fosfobox depois de mais um crescendo que não era seguido do beat (o arquétipo do trap).um deslocamento e sensação de estranhamento. uma das experiências mais desafiadoras do festival.


rampazzo

 

entre o ambient, techno e os subgraves, o set de rampazzo teve uma característica especial em relação aos demais da fosfobox: uma ligação íntima com o público. dj como pronlogamento da pista, pista como prolongamento do dj, um corpo só. 


interregno trio


a primeira apresentação conjunta dos baianos edbrass brasil e joão meirelles com o paulistano rômulo alexis, do sê-lo! netlabel, fluiu com naturalidade impressionante. o único ponto prederminado era o início da performance, com os três usando o ar vazado de bexigas para fazer som. o resto foi improvisação. a base comum dos três é o interesse pela pesquisa dos microtons (o próprio nome interregno é uma referência ao álbum homônimo de walter smetak), mas diferente da monotonia morna da francesa sis_mic (que também lidava com microtons), o interregno tinha um apuro senso lúdico e de diversão.

originalmente publicado em 13 de dezembro de 2016.

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