As músicas eletrônicas da África: entrevista com o selo Nyege Nyege Tapes

still do clipe nammiliki, de makaveli, um dos artistas da compilação sounds of sisso

nyege nyege. traduzindo da língua local de uganda, é aquela vontade impulsiva e incontrolável de dançar ou se mexer. é embrazar.

nyege nyege tapes é um selo de kampala, uganda, pequeno país do leste africano cercado pelo quênia, tanzânia, congo e sudão do sul. foi criado como uma extensão do nyege nyege festival, evento anual realizado no sul do país desde 2015, às margens do rio nilo, e dedicado à vertentes musicais ainda não muito conhecidas do continente africano, como o hipco (na liberia), balani (mali) electro chaabi (egito), bass do marrocos, funaná (cabo verde) e o singeli (tanzânia). o selo disponibilizou seus primeiros álbums (seis até o momento) apenas neste ano de 2017, mas refinou um um catálogo rico, diverso e desde já fundamental para conhecer a produção musical contemporânea da áfrica.

enquanto boa parte dos selos e curadores ainda olham para o continente africano sob a régua colonialista, enxergando a sua cultura apenas sob o viés folclorista e antropológico, o nyege nyege está interessado em apenas uma coisa: “dope underground music”. é o que diz o etnomusicólogo arlen dilsizian, que comanda a plataforma ao lado de derek debru. europeus radicados em uganda, a dupla atua na cena underground do país desde 2011  e administram o pequeno estúdio comunitário da nyege, gravando discos, recebendo artistas, realizando programas de residência artística, promovendo turnês etc.

abrangendo diversos estilos, a característica marcante do nyege nyege tapes é o seu trabalho com as microcenas eletrônicas locais e com o trabalho de artistas que atuam na reinvenção das expressões musicais e tradições culturais locais. em fevereiro o selo lançou o excelente gulu city anthems, primeiro lançamento internacional de otim alpha, um dos pioneiros do estilo chamado de electro acholi — canções de casamento do povo acholi reinterpretadas em softwares eletrônicos com uma polirritmia maluca. em junho, soltaram a mesmerizante compilação sounds of sisso, que reúne as diversas mutações da música eletrônica underground da tanzânia e leste africano em geral. ritmos frenéticos e violentos, com uma estética crua que evoca um híbrido de punk e gabber.

o último disco da nyege nyege saiu no dia 30 de novembro, quebrando as listas de fim de ano precoces:  nihiloxica, uma parceria mesmerizante dos músicos ingleses peter jones e jacob maskell-key com os percussionistas do nihilotica cultural ensemble. formando um time de nove percussões e um sintetizador, o grupo costura climas soturnos a partir do legado do bugandan drumming —  ou, a grosso modo, poderíamos dizer que é uma batucada kraut from kampala.

em setembro, entrei em contato com o selo, pedindo uma entrevista. em meio às demandas do nyege nyege festival (em setembro), arlen dilsizian e derek debru foram encontrando tempo para responder às perguntas do blog. a entrevista você confere a seguir:

quando e como o selo foi criado? qual era a ideia inicial da plataforma?

o nyege nyege tapes nasceu oficialmente em janeiro de 2017 com nosso primeiro lote de lançamentos. no entanto, nós estávamos trabalhando nos discos há cerca de um ano antes. o objetivo inicial do selo era mostrar a música outsider da região, seja contemporânea ou esquecida, bem como todos os artistas e músicos com os quais trabalhamos, que não possuíam uma plataforma adequada para mostrar suas obras.

quem coordena o selo?

no seu núcleo, o selo é dirigo por arlen [dilsizian] e derek [debru], que são responsáveis pela curadoria, pesquisa e visão geral do selo, bem como o dia a dia da administração. emiliano motta, um designer de som e engenheiro do méxico faz muito das nossas masterizações. depois, existem vários designers gráficos que ajudam com as artes, como dj zhao, alex tyson e o fotógrafo stephane charpantier. o selo está diretamente associado ao nosso festival anual, nyege nyege festival, que acontece todos os meses de setembro na fonte do nilo, e onde fazemos uma exibição anual de selos dentro da programação mais ampla.

como vocês se aproximam dos artistas?

como o selo faz parte de uma estrutura mais ampla, com estúdio comunitário, festas, festival e tours, os artistas podem acabar sendo associados a nós de várias maneiras. pela crescente reputação e proximidade com artistas, agora nós recebemos música de todo o continente africano, assim como também estamos sendo expostos a coisas novas. nos movemos muito especialmente em uganda, buscando novos nomes para o nosso festival e, dessa forma, encontramos diferentes tradições musicais tribais. temos toda uma série de lançamentos futuros focando em várias tradições da música tribal de uganda. muitas vezes, gravamos grupos e músicos no campo.

há muitos selos dedicados à música africana, mas muitos ou mesmo a maioria estabelecem uma relação estranha e oportunista. geralmente é um selo do reino unido ou dos estados unidos lançando a chamada “world music”. um selo em específico diz em seu bordão que está “erradicando fronteiras musicais” — fronteira esta que, no caso da áfrica, foi erigida pelos próprios europeus. o que vocês acham desses selos e como a nyege nyege tapes atua dentro deste contexto?

eu acho que é mais sobre se o selo tem uma relação oportunista com a música que ele lança. selos podem servir diferentes funções para uma cena. o principe, por exemplo, lança luz sobre a cena da batida de lisboa e fez coisas incríveis que impulsionam essa cena tanto local como internacionalmente. algumas selos fizeram um trabalho incrível em reedições de material africano, desenterrando gemas esquecidas, um processo que leva muito tempo, dedicação e dinheiro. muitos dos selos que respeitamos são impulsionadas por pessoas apaixonadas que amam a música e os músicos que a fazem e é por isso que eles lançam a música com amor e atenção. eu diria para nós que também é a principal motivação. mas, sim, sabemos de muitos exemplos de artistas que se sentem errados pela forma como a música foi lançada e o eventual impacto (ou falta de) que teve. estes riscos podem ser aumentados quando o selo vê a música como uma descoberta, quase uma mercadoria a ser extraída e licenciada porque a prioridade é o respeito que o material pode dar ao selo, em vez de ver o lançamento como parte de um longo processo mais complexo de engajar-se com a música, fazer turnês, desenvolver um novo trabalho, trabalhar na participação de shows, etc. mas, em certo sentido, e também somos parte disso, a própria natureza de “escavar” pela música (a metáfora extrativista é muito explícita) envolve uma descoberta, seja feito na europa ou em outro lugar. o que faz a diferença é o que acontece uma vez que o processo “extrativista” está completo.

vocês têm um espaço associado ao selo em que os artistas se apresentam? como é que funciona o nyege nyege festival?

nyege nyege tapes/festival começou como uma festa noturna chamada boutiq electroniq por volta de 2014. nós fazíamos a noite especialmente em um local chamado hollywood e em vários galpões e clubs em kampala, como o capital (a boate mais antiga da cidade) e em clubs congoleses. nós demos uma parada e focamos no nosso festival anual, no selo e no espaço de residência, colaborações e estúdio. também tocamos em outros festivais na áfrica e agora também temos mais tours para fora do continente conforme o selo ganha força no exterior.

fale mais sobre a cena de música eletrônica em kampala, em particular, e no leste da áfrica, em geral. artistas cmo otim alpha, alai k aka disco vumbi, os djs do sound of sisso etc. são populares, maistream ou nomes do underground? como as pessoas recebem essa música de pista por aí?

todos eles são basicamente do underground. mas a cena aqui é fragmentada em muitas micro cennas. otim é mais provável de tocar em um tradicional casamento acholi (povo que habita o norte da uganda e o sudão do sul) em gulu, norte de uganda. sisso é parte da cena singeli em dar es salaam, na tanzânia. eles tocam mais em festa de bairros nos guetos e clubs da região de manzase e mburahati, em dar. mas definitivamente há mais promotores na região que impulsionam a música eletrônica, especialmente o afro house. o quênia tem um ótimo sistema de som dub chamado umojah. eles chegam ao nosso festival com esta incrível plataforma personalizada. é grande!

como é o processo criativo desses artistas? eles buscam misturar a cultura popular local com os eletrônicos?

sim, muitos jovens produtores estão experimentando com a eletrônica do seu jeito particular e único. usando softwares de dj de modo criativo, cópias crackeadas do fruity loops etc. e isso está acontecendo nos últimos 15 anos, pelo menos. de modo algum é uma coisa nova.

eu queria entender melhor algumas coisas sobre a sounds of sisso. o texto no bandcamp diz: “uma constelação de micro-cenas de mchiriku, sebene e segere até a última mutação de singeli, que, finalmente, depois de anos de espreita no underground, explodiu no mainstream e assumiu o posto do bongo flava como a música escolhida entre a juventude da tanzânia”.

perdoe a ignorância, mas o que são singeli e mchiriku, sebene, segere e bongo flava?

estas são todas cenas musicais diferentes e às vezes sobrepostas de dar es salaam, na tanzânia. bongo flava é a vertente local de hip hop que foi grande do final dos anos 80 até o final dos anos 2000, mas até certo ponto foi substituída pelo singeli entre os jovens.

mchiriku começou no bairro mwananyamala de dar es salaam e floresceu entre 1985 e 1990 com jovens produtores usando teclados casio baratos para re-interpretar as melodias do taarab e zaramo.

sebene, que significa música sem canto, são versões improvisadas da música taarab e soukous do congo, muitas vezes produzidas eletronicamente e em alta velocidade. isto é principalmente da área tandale de dar es salaam, um bairro da classe trabalhadora.

segere é a interpretação produzida eletronicamente da música da tribo zaramo. a tribo em torno de dar es salaam.

kigodoro, que significa colchonete em swahili, eram festas que durariam a noite toda (daí o nome colchonete, porque você acabaria dormindo em algum pedaço de espuma que você achou depois que a festa terminou tarde) e onde todos estes estilos foram combinados, dando luz à música singeli, que surgiu nas áreas mburahati e manzese de dar em torno de 2006.

a descrição do nyege nyege no bandcamp diz: “explorando, produzindo e lançando música outsider da região e além”. então a ideia é ir além da música do leste africano?

considerando que vivemos em uganda, muitos dos nossos lançamentos de fato vêm desta área, e um dos focos do selo é o que está acontecendo aqui. mas nóstemos coisas vindo de outras partes da áfrica. e nós também fazemos colaborações com artistas de fora da áfrica. nosso último lançamento, nihiloxica, é uma parceiria entre dois músicos do reino unido e um percussionista de uganda chamado nilotica. tem também o afromutations, do riddlore, que desde os anos 1980 é da cena underground de beats de los angeles. nosso quarto lançamento foi uma trilha inédita de sintetizadores da grécia, chamado mysterians. eu e derek viemos de um background musical variado, noise, drone, experimental e club music, registros etnográficos e rap, então nossas inspirações e influências são variadas e isso é refletido nas parcerias em estúdio e residências.

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