Meu Reino Não é Deste Mundo: o anarcogospel de uma igreja experimental

de elvis presley a justin bieber, de frank sinatra a mariah carey, de beatles a simone os discos natalinos são tradição da indústria da música. meu reino não é desse mundo vol. 1 (qtv/ malware records) foi lançado de surpresa na noite de natal, porém é mais do que um mero disco natalino. a partir da leitura e interpretação de caráter anárquico de diversas passagens do novo testamento, o álbum avança em uma discussão sobre a teologia neopentecostal, a liberdade, a fé e, em última instância, sobre o estado.

o disco é assinado por um coletivo de músicos cariocas próximos ao selo/produtora qtv e à casa de shows audio rebel. entre eles estão thiago nassif (guitarra, kalimba, flauta), lucas pires (fitas cassete), bruno schiavo (guitarra), renato godoy (bateria) e negro leo (voz, teclado, violão), que tomou a frente na concepção do disco.

“anarcogospel é a interpretação das escrituras considerada a partir das seguintes pontificações: dai a césar o que é de césar e a deus o que é de deus e meu reino não é deste mundo. substitui o pronome demonstrativo deste por desse pra situar o mundo próximo da pessoa a quem se fala e longe da pessoa que fala. acho que dá um tom mais dramático e urgente de não pertencimento que completa a ideia da palavra de deus anárquica”, diz negro leo, que é umbandista batizado na igreja católica e filho de uma umbandista que se converteu ao catolicismo.

“a idéia começou à vera em maio desse ano, quando eu retomei minhas leituras da bíblia considerando essa ênfase das iurd (igreja universal do reino de deus) no velho testamento. mas jesus dizia: ‘a lei e os profetas duraram ate joão (batista)’. isso me causava incômodo, uma religião cristã que na real era menos cristã que ‘judaica’ – digo judaica porque é a partir de uma perspectiva do velho testamento, mas não pra falar de judaísmo strictu sensu, até porque os fundamentos do judaísmo sao mais complexos que o legado do velho testamento e eu nao quero jamais incorrer em anti-semitismo”, detalha.

usando os evangelhos de mateus, joão e lucas, é deflagrada a reviravolta das leis hebraicas e a destituição do antigo testamento. em contraste ao deus sem nome e iconofóbico, jesus de nazaré diz: “vós sois deuses”. e ainda: “eu não julgo a ninguém” – duas das 16 músicas do álbum, gravado em esquema lo-fi.

a faixa não vim chamar os justos…  remonta outro momento emblemático. quando jesus e os seus discípulos estavam sentados à mesa com coletores de impostos e pecadores, os fariseus perguntaram aos discípulos: por que come o vosso mestre com os publicanos e pecadores? ouvindo-os, jesus replicou: “os sãos não precisam de médico, mas os enfermos. misericórdia quero, e não sacrifício. porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento”.

tendo em vista a vitória de marcelo crivella para prefeito do rio de janeiro (um bispo evangélico e intolerante chegou a classificar a homossexualidade como “conduta maligna” e “terrível mal”) e o crescimento das igreja universal (presente em mais de 200 países), meu reino não é desse mundo dialoga com um contexto específico. mas é também um enfrentamento maior e mais agudo do que uma simples “crítica”.

no texto de apresentação do álbum, o crítico bernardo oliveira aponta, em referência a deus é amor (clássico na voz de gal costa): “negamos o deus da ira, abraçamos o deus de jesus de nazaré e de jorge ben: ‘deus é a vida, a luz e a verdade. deus é o amor, a confiança e a felicidade.”

leo completa: “a ideia mais urgente por trás disso é fundar uma igreja experimental, por mais contraditório que pareça. afinal, seria a única maneira de disputar de maneira séria o arrebanhamento neopentecostal, criando um lugar de identificação e coesão a partir desses preceitos do anarcogospel”.

originalmente publicado em 17 de janeiro de 2017 no jornal do commercio.

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