Mercúrio: um disco-processo de Vitor Araújo

Fui convocado pelo compositor e pianista Vitor Araújo a participar da elaboração do conceito e fazer a curadoria de sua temporada de shows no Centro da Terra, em São Paulo, toda segunda-feira de julho, do dia 9 ao 30, às 20h.

Ao lado do designer e Raul Luna, criamos o “disco-processo” Mercúrio: os shows são um ponto de convergência que dará luz a um novo organismo: um disco-livro, com textos meus, arte de Raul e música de Vitor (mais outros artistas). Eis o texto de apresentação de Mercúrio:

“mercúrio”, um disco-processo de vitor araújo

idealizado por gg albuquerque, vitor araújo e raul luna

com aduni guedes, alada, ayrton, bella, bernardo pacheco, cadu tenório, felipe pacheco, gui calzavara, kiko dinucci, lucindo, luisa puterman, m. takara, negro leo, paula rebellato, sérgio machado, thiago frança thiago miazzo, thiago nassif e thomas harres

 

a linha entre a alquimia e a medicina nem sempre foi clara. na china do século II d.c., o mercúrio tornou-se um elemento central na busca obsessiva pelo um elixir da vida eterna. o imperador qín shǐ huáng, fundador da dinastia qín, ingeria pílulas de mercúrio precisamente porque acreditava que seus poderes curativos o tornariam imortal.

o fascínio provocado pelo mercúrio vai além e cruza fronteiras. num túnel há 100 metros da pirâmide do templo da serpente emplumada, em teotihuacán, centro da américa pré-colombiana, arqueólogos encontraram um lago de mercúrio líquido, provavelmente utilizado em rituais e cerimônias. os gregos chamavam o elemento de hydrargyros (prata líquida) e o manipulavam para fazer certos tipos de pomadas. por sua vez, egípcios e romanos o utilizavam como um cosmético. entretanto, num outro extremo, o mercúrio é um metal pesado altamente tóxico e poluente, constituindo assim um elemento hermético, enigmático, ambivalente, aberto à diversas possibilidades e aplicações.

“mercúrio” nasce para desmembrar-se. vem ao palco articulado por uma teia de comunicações, curvas, dobras e arestas. um metal líquido que toma corpo ao mesmo tempo em que desdobra-se exponencialmente, semana após semana, em meio a rede de diferentes artistas e suas intervenções, brotando silenciosamente frente aos olhos do público.

“mercúrio” desliza entre os dedos, escorre pelas paredes, derrama pelo chão em um jogo que dilata os seus contornos para expor-se ao risco e o acaso a fim revirar os próprios alicerces. vivenciamos o núcleo de uma célula em expansão. um processo espiral de metamorfismos e transmutações. uma centelha a se espalhar.

regras:

1. o primeiro dia de show será gravado.

2. essa matéria-prima musical será manipulada, reciclada, remixada ao vivo por alguns dos músicos convidados no segundo dia e tocada ao lado dos instrumentos orgânicos.

3. o segundo dia de show também será gravado. novamente, as gravações acumuladas serão editadas ao vivo, ao lado dos instrumentos orgânicos, no terceiro dia.

4. este processo se repete e se condensa até o quarto e último show, estabelecendo um jogo aberto em um processo de gradual saturação do material sonoro. Ao final do percurso, as gravações serão editadas e transformadas em novas músicas, compiladas em um disco-livro. nasce um novo organismo, descendente do mesmo núcleo-mãe, herdeiro de uma só eva mitocondrial.

 

 

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