O som na cidade: entrevista com Luisa Puterman

um dos trabalhos que mais me chamou atenção no último novas frequências não foi um som e sim a instalação sonora moto perpétuo da paulistana luisa puterman, que consistia em uma sala com refletores ofuscantes e muito quentes, um tipo de gelo seco que simulava poeira e o som ruidoso e acidentado de demolições e construções em altíssimo volume.

luisa trabalha com essa angústia das transformações e do tecido urbano em outros casos, como nas peças trem cuidado veículos (apresentada no festival internacional de música experimental de música eletrônica em são paulo). mas ela também transita pelas pistas de música eletrônica (como a odd, metanol e mais recentemente no festival dekmantel) desenvolvendo um som voltado para adição e subtração de camadas e texturas. em conversa por email, ela detalhou o seu processo criativo.

você trabalha com instalações, peças audiovisuais, peças para dança, piano e música eletrônica improvisada. como se desenvolveu essa atuação em diferentes áreas? e ainda: você tem um “objetivo” comum que persegue, mesmo em diferentes formatos?

acho que as duas perguntas dividem uma mesma resposta: um interesse doido por som. mesmo em projetos de naturezas diferentes estou sempre envolvida na criação sonora, de certa forma cada disciplina ou projeto me ensina coisas novas sobre som. desse modo talvez o objetivo seja continuar explorando o som e suas profundidades.

como é seu processo criativo? como você decide quais desses formatos vai trabalhar?

meu processo depende principalmente da natureza do projeto. trabalho muito com trilha sonora e sound design no dia a dia. dança contemporânea, cinema, publicidade, teatro, instalação sonora, cada disciplina requer um workflow diferente. mas em geral eu saio tocando o que está ligado ou o que está na frente. gosto muito de tocar… daí as ideias começam a se organizar e dependendo da referência dos clientes, parceiros ou do que estou em busca ou em pesquisa naquele momento vou seguindo um caminho natural de sobreposição de ideias. normalmente saio gravando tudo o que me vem na cabeça, tipo 100 tracks até o processador travar e depois vou organizando a sessão. mas às vezes também fico horas só no piano/teclado para achar uma harmonia. ou as vezes parto de um sample/sfx e vou construindo em cima dele. enfim cada vez mais me interesso por modos distintos de composição e produção e essas coisas dependem muito do projeto, das pessoas e mídias envolvidas e do prazo. é importante dizer também que muitos dos projetos mais autorais partem de ideias e pesquisas, uma prática mais conceitual mesmo, dai tento visualizar varias formas e maneiras nas quais aquele conteúdo possa se materializar, essa fase exige tempo e testes mas eventualmente se a ideia é mesmo pertinente a forma aparece.

uma minibio no site da red bull music academy diz que a experiência de entrar em uma câmara anecoica foi um “turning point” em sua evolução musical. é verdade? como isso te impactou, que questões suscitou em você?

sim é verdade…ficaria surpresa se eles inventassem isso. foi uma experiência foda! meio ficção científica. ouvir o silêncio e poder pensar no que essa ação implica expandiu minha percepção em relação ao som e contribuiu muito para as decisões profissionais que tomei depois disso.

fale um pouco sobre o moto perpétuo, tanto a instalação quanto o percusso. com que conceito você queria trabalhar? como foi o processo de criação?

moto perpétuo surgiu ao longo do segundo semestre de 2016. pensado especificamente para o contexto do festival a instalação foi meio que aparecendo conforme ideias sobre construção/destruição cruzavam meu caminho. fui atrás de sons que pertencem a esse universo e acabei chegando numa ideia de ciclo infinito, de uma angústia implícita nos processos ilusórios de renovação – além do fato de as cidades estarem inundadas por sons que como consequência desses processos nos habitam de forma inconsciente e esteticamente intrigante.

um ponto que me chamou atenção em moto perpétuo foi a experiência sensorial completa e incisiva. não apenas o som alto e a luz forte encandeando a vista, mas o calor era um elemento forte. e havia uma alteração no processo perceptivo: o som não correspondia a uma imagem definida, o que de certa forma quebra a hierarquia do que geralmente é associado a experiências sinestésicas. esse embaralhamento entre imagem e som (poderíamos acrescentar também arquitetura?) é um interesse? digo não só para o moto perpétuo, mas de modo geral.

sim! total. não só um interesse como uma característica de percepção. ultimamente enxergo no som espaços e cenários… elementos arquitetônicos e paisagísticos, sejam eles construídos pelo homem como uma ponte ou construídos pelo tempo como um rio ou uma montanha. acredito ser uma capacidade que você vai desenvolvendo e alimentando…

a temática dos centro urbanos é recorrente em seu trabalho. além de moto perpétuo, também é uma questão central em cuidado veículos e trem. o que te atrai e qual seu interesse em lidar com essas questões?

é meio natural, acho. num sei direito como começou esse interesse. acho que veio do dia a dia mesmo. dos sons que cercam nossa existência. gosto de me deslocar, acho que deslocamentos sempre me interessaram de maneira geral. mas o que me intriga mesmo no final é sempre som, a capacidade do som de expandir conexões entre conteúdos científicos, filosóficos, místicos e cotidianos.

e cuidado veículos, como surgiu? 

surgiu das andanças pela cidade…comecei a reparar nos avisos de “cuidados veículos” até que um dia fui atropelada de bike na calçada – culpa minha – dai fiquei mais atenta a esse tipo de sinalização e comecei a ouvir padrões sonoros que correspondiam as luzes numa onda sinestésica. filmei então inúmeros modelos e montei uma biblioteca grandona cheia de células que podem ser improvisadas ao vivo ou montadas em videos.

 sobre a parte ‘musical’: mantra marcha. de onde você tirou a ideia daquelas gravações de marcha e de colocá-las em contraste com a sobreposição de camadas de clima mais meditativo?

começou numa viagem que fiz para cuba em 2015. estava numa residência la trabalhando em um outro projeto de intervenção sonora no centro da cidade e a curadora do projeto tinha uma biblioteca de sfx e samples bem interessante (pois ela tinha trabalhado na rádio de lá). como lá não tem internet e eu não tinha levado meu hd externo e computador acabei usando o que eles tinham por lá mesmo. no final da residência copiei a biblioteca de sons dela para um em drive que tinha levado – coisa que gosto de fazer quando viajo ou quando me deparo com novas bibliotecas de som. dai um dia, ja de volta, estava vasculhando esses arquivos e achei uma pasta só com sons de marcha que ficava dentro de uma pasta cheia de sons militares que por sinal era uma das maiores da biblioteca…enfim relações politico-poéticas especificas daquele contexto a parte, o som das marchas por si só me intrigou. ouvi muito aquilo, as vezes meu cérebro reproduzia sem querer aquele som enquanto eu mastigava ou andava por ai. dai varias camadas simbólicas começaram a se formar em torno daquele som, algo como uma “caminhada pelos cantos do mundo” num deslocamento de espaço-tempo. e isso se desenvolveu e se consolidou na peça “mantra marcha”.

uma característica do seu som é os feedbacks com uma sonoridade mais “árida” ou “áspera”, lembrando as desintegration loops do william basinski. como você chegou nesse som e o que ele representa dentro da construção de sua música?

foi meio por acaso… o primeiro pedal que comprei na vida foi o flashback delay da tc. não pesquisei muito, lembro que meu irmão ia para os estados unidos e resolvi comprar um pedal para ele trazer. naquela época tocava baixo com um trio de jazz experimental e achei que um delay poderia ser interessante. numa pesquisa rápida achei que aquele era massa – nenhuma razão especial – e tinha um preço acessível, pois essas coisas são caras… comprei. dai quando comecei a experimentar e montar o set-up do live ele foi a peça central, até por que a única coisa mais diferente que tinha, então comprei mais dois iguais a ele e fui experimentando diferentes combinações.

você estudou em conservatório e chegou a lançar nu, um ep só de piano. essa formação influencia ainda hoje a sua forma de compor/improvisar? 

acredito que toda formação influencia a maneira como você enxerga o mundo, se não educação não seria algo tão relevante na sociedade. mas acho que o lance é sempre desconfiar do que você aprende e tentar ressignificar isso na sua existência e no seu momento da história.

apesar deste ep e vários sets/mixs, você nunca gravou um álbum. tem vontade de fazer um? se sim, já tem algum caminho em mente?

num sei direito se tenho vontade…as vezes sim as vezes não. tem dias que o formato “álbum” me parece tão antiquado e meio estranho nos dias de hoje. mas ao mesmo tempo quando você ouve um disco foda é uma das melhores sensações do mundo. então isso ainda é meio contraditório dentro de mim. mas acho que como produtora naturalmente alguma hora sai alguma coisa, tenho inúmeros rascunhos no hd…

 

originalmente publicado em 28 de fevereiro de 2017.

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