Um disco-filme de cortes curtos: entrevista com Kiko Dinucci

compositor-cineasta, kiko dinucci faz vários cortes curtos de uma são paulo em uma narrativa fílmica, um bloco de 39 minutos com 15 faixas:

uma hora da manhã. gritos no supermercado extra da avenida brigadeiro. um homem ataca uma mulher com xenofobia contra nordestinos e esta responde com xingamentos homofóbicos e agressão física — “seu viado, viadinho, seu baitola!”;

a poesia de kiko é marcada pelos pés fincados no chão, ou talvez seja melhor dizer no asfalto. temos a figura insólita de samuel vagando pela cidade, a tensão psico-econômica do cotidiano urbano no pico da especulação imobiliária em faria lima pra cáhelena em meio aos prédios que tem micoses, varizes, bronquite e também morrem, transpiram, escarram.

cortes curtos, o primeiro disco solo de kikodá continuidade a esse aspecto de sua música (à vanzolini, cadáver pega fogo em velório etc), mas transborda para outras questões, outras abordagens (notavelmente em seus olhos, parceria com sinhá, e chorei, de beto villares).

e tem o som. e aí minha suspeita (?) em relação ao álbum. quando ouvi declaração, no disco anelis e os amigos imaginários (2014), logo reconheci kiko na guitarra. e sinto desde então o seu estilo  de tocar guitarra consolidando, emergindo então a pergunta: até onde temos sua característica, sua identidade sonora se desenvolvendo, até onde temos uma cristalização dessa sonoridade?

em conversas com bernardo oliveira, do selo qtv, ele insistia que o cortes curtos  era muito diferente do que kiko fizera anteriormente. e de certa forma ele está certo: não há as escalas orientais e o som percussivo do metá metá, não há aquela dinâmica de loopar uma base e texturizar/criar a polirritmia por cima dela, como no passo torto (só de leve em desmonto sua cabeça). é muito mais um disco de gênero, punk/pós-punk/hardcore com a guitarra à frente (como o próprio kiko destacou em nossa entrevista abaixo), apoiado pelo volume sonoro da bateria de sergio machado e o baixo de marcelo cabral. ainda assim, é tipicamente e, de longe, reconhecidamente kiko.

como?

no fim das contas, este parece ser o centro da coisa: cortes curtos, um álbum ‘de gênero’ cujo movimento não é de expansão ou de atuação nas fronteiras, mas sim o circular. pé no chão, indo até vanzolini, geraldo filme, adoniran barbosa, lou reed.

leia a entrevista:

como de costume nos discos do passo torto e metá, o cortes curtos foi gravado em poucos dias. mas algumas das canções do cortes curtos tem até seis anos e você fez algumas apresentações com elas — um show no rio, que levou àquele texto do ‘medo do pop‘; uma gravação no cultura livre. como foi o processo de criação e maturação dessas músicas durante todo esse tempo?

as canções surgiram desde 2011, de lá pra cá, fui experimentando as canções por aí, foi bom, deu pra dar uma selecionada e deixar o trabalho mais maduro. eu compus umas 40 músicas e só 15 entraram pro disco. as canções existiam de uma maneira bem crua, quando resolvi grava-las no fim de 2015, chamei o sergio machado (bateria) e marcelo cabral (baixo) para levantarem os arranjos comigo, marcamos 3 ensaios e levantamos 21 músicas. na semana seguinte gravamos todas as bases em 2 dias. embora as músicas já existissem a um tempão, o processo de concepção do álbum foi meteórico. depois de gravado o disco, deixei ele guardado, dando preferência pro lançamento do mm3 do metá metá, agora acho que é a hora certa pra lançar o cortes curtos, ele continua muito atual.

você comentou que cortes curtos é mais filme do que disco. quando/como concebeu o disco dessa maneira, com as canções agrupadas em um único bloco?

eu concebi elas separadas, tive a ideia de junta-las só depois do disco gravado. o momento exato foi quando assisti ao filme adeus à linguagem do godard, o som do filme é caótico. tinha acabado de fazer meu longa breve em nenhum cinema, filme cujo a proposta também é trabalhar o som de uma maneira não convencional. daí resolvi fazer isso com o disco também. muitas pessoas estão reclamando que disponibilizei o álbum em uma única faixa de 39 minutos. queria garantir a minha montagem cinematográfica. as pessoas têm dificuldade de sair da zona de conforto e entrar na zona de confronto. as canções são fragmentadas mas só fazem sentido agrupadas, como uma sequência de filme.

criar a partir cenas cotidianas e construir personagens uma característica de suas composições e neste disco aparece com mais evidência. como esse estilo foi crescendo em sua escrita e o que te atrai nesse formato?

acho que isso foi influência do cinema também. eu sempre gostei de inventar estórias. quando eu era criança, meu pai me levava do subúrbio pro centro pra ir ao cinema. eu assistia vários filmes, mas o que eu gostava era de ver os cartazes de filmes que ainda não haviam entrado em cartaz e inventar estórias para contá-las aos meus amigos do bairro. acho que minha alma de ficcionista nasce nesse momento. tem gente que hoje diz que eu quando falo de um filme, começo a inventar coisas e cenas que não estão na película. acho que isso contamina a música. no caso do samba, a coisa de contar estória é muito comum, no rap também já foi com o mano brown e hoje o maior cronista do rap é ogi.

queria que você falasse um pouco mais sobre a sua forma de tocar guitarra, a técnica mesmo. você tem vem do hardcore, passou pelo samba e mais recentemente transparecem influências da música do mali e marrocos, particularmente no metá (escalas não-ocidentais, um ritmo mais “frouxo”, como brisa, texturas etc). e você também é ogan em terreiro de umbanda, certo? como você colocou tudo isso no seu modo de tocar? tem ainda o seu uso do pedal, que é bem marcante, aquela base em loop e uma coisa por cima. como você moldou esse som? falo mais em relação à técnica mesmo, para sacar como você chegou nesse resultado sonoro.

eu não me considero um músico na verdade, sei muito pouco de teoria e técnica. o que aconteceu foi a iniciativa de se apoiar no som, não na música. o som pode ser tudo, barulho, ruído, silêncio. dessa maneira comecei a me preocupar menos com escalas e acordes para me preocupar mais com o som. o som não tem gênero, a música na maioria das vezes tem. por exemplo, eu não sei solar como os outros guitarristas solam, tocando escalas em alta velocidade, acho bonito, mas não tenho interesse em aprender a tocar assim. mas mesmo sem solar, eu posso improvisar, criar sons. o foco no som me deixa mais livre para criar. o meu estilo vem muito da percussão. os guitarristas da áfrica por exemplo também são focados na rítmica. toquei um bom tempo em uma casa de candomblé, isso me influenciou bastante também.

 

essa sonoridade na guitarra já é uma marca sua. e aí tem dois pontos que queria levantar para você. o primeiro é que vi muita gente, que curte suas coisas inclusive, dizendo que o cortes e o passo torto + ná eram derivativos em relação aos discos anteriores. concordo de certa forma com isso, alguns momentos desses discos me parecem variações pequenas desse estilo/técnica/estética já solidificada. e ao mesmo tempo, o passo e esse seu jeito de tocar são relativamente recentes, cerca de seis anos. e mesmo assim já é esperada uma “inovação”, como se do dia para noite a pessoa mudasse totalmente sua forma de tocar, de criar. uma demanda do “mercado independente”, ávido por novidades?o que acha disso?

tudo isso que pode ser chamado de estilo é processo, tem a ver com os nossos caminhos mesmo, não com mercado. pra mim, a novidade do cortes curtos que não está em nenhum outro disco de que faço parte é o fato de trazer a banda pra frente. nenhum disco meu tem a banda tão na cara, a guitarra está alta, a impressão que dá é que o disco choca a cabeça do ouvinte contra a parede o tempo todo, é violento. no brasil, especialmente na música brasileira, a guitarra é só pra fazer um climinha, a voz da cantora fica super na frente e a banda fica atrás, bem baixinho e suave. quis fazer ao contrário, não vivemos mais na época da marcha contra as guitarras dos anos 60. eu fico p da vida quando alguém me chama pra gravar uma guitarra, eu faço uma coisa densa e na mixagem a pessoa deixa a guitarra bem baixinha, mata a intenção. acho que falta discos mixados e tocados assim no brasil, banda na cara, na frente, na pressão.

são paulo aparece intrinsecamente em sua música. como é que a cidade te inspira, tanto negativa quanto positivamente?

são paulo sempre que é citada no cancioneiro brasileiro, é citada de um jeito negativo. adoniran por exemplo não falava das “belezas” de são paulo, mesmo porque elas não existem, são paulo não tem beleza natural como rio de janeiro, salvador, recife e belém. adoniran barbosa, por exemplo,  falou do progresso desenfreado, do despejo na favela, do transporte difícil para quem é da periferia, de atropelamento. paulo vanzolini falou da carteira batida na praça clovis (que hoje é a praça patriarca), de crime passional. geraldo filme falou sobre esquadrão da morte e por aí vai. o sampa de caetano e o são paulo, são paulo do premê falam da verdadeira beleza da cidade que é a confusão de estilos, de como são paulo busca beleza onde nenhuma outra cidade busca, muitas vezes essa beleza pode vir dos defeitos ou da feiura. quando fiz as canções, estava apaixonado pelo lou reed, de como ele retratou ny no álbum transformer ou nos trabalhos do velvet underground, quis fazer o mesmo com são paulo.

você diz que pensou as músicas como samba (e as letras remetem às estruturas de vanzollini, adoniran). em que medida ou em que sentido você se enxerga como um “sambista”? complexificar ou reinventar o samba é um interesse?

me enxergo mais como um compositor que sabe fazer samba também, do que um sambista. mas confesso que a minha escola é o samba, o samba me ensinou a fazer canção. hoje em dia eu percebo uma fragilidade muito forte na minha geração com a canção e noto que essa fragilidade vem de uma deficiência histórica, de uma geração que não ouviu noel rosa, assis valente, ary barroso, dorival caymmi. se você pegar o chico buarque, o caetano, o gil, joão bosco, tom zé, jards macalé, todos eles ouviram sambas na rádio. a minha geração ouviu kid abelha na rádio. no meu convívio, as pessoas com quem eu mais me identifico, como rodrigo campos, thiago frança, romulo fróes, juçara marçal, têm ligação e vivência com o samba, sabem o que é joão nogueira, roberto ribeiro, isso dá a eles uma malícia a mais. o samba é o gênero cancional mais perfeito ao meu ver. você pega uma canção como século do progresso do noel rosa ou camisa amarela do ary barroso, valem mais que qualquer academia. quem passa pelo samba tem  uma malícia a mais, teve acesso a certos segredos, a uma certa ciência. a maior prova é o jõao gilberto, que se diz sambista, toca coisas do repertório de orlando silva e mostra o quanto pode ser moderno todo esse universo. me lembro claramente do dia em que ouvi nelson cavaquinho pela primeira vez, eu pensei: isso sim é punk! as bandas punks me pareceram inocentes perto do violão e voz do nelson.

 originalmente publicado em 6 de março de 2017.

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