Jlin, Gábor Lázár, Polyvox: notas sobre música eletrônica e ritmo

o ritmo é o pilar de sustentação e ponto de fundação da música eletrônica. a batida repetitiva e sua importância no processo de indução ao transe foram destacados ainda nos anos 1980 por fraser clark, teórico que conectou a psicodelia hippie dos anos 1960 com a cultura rave. ele argumentava que o andamento de 120 batidas por minuto da house music era o mesmo “da batida do coração do bebê no útero… imagine 20 mil jovens ocidentais dançando possessos, a 120 bpm, a noite toda, até o sol raiar. você tem a sensação de que está todo mundo no mesmo útero”.

o ritmo também foi o elemento que caracterizou a música das free parties quando esta passou a ser britânico, que em 1994 conferiu à polícia “poderes para remover pessoas participando ou se preparando para participar de uma festa rave” na qual se execute “música total ou predominante caracterizada pela emissão de uma sucessão de batidas repetitivas”.

diante deste legado, produtores de diferentes países e contextos estão revolvendo o ritmo em exercícios particulares de renovação e experimentação, explorando beats assimétricos, tempos retorcidos, narrativas fragmentadas.

o trabalho mais eminente nesse sentido me parece ser black origami, segundo álbum norte-americana jlin. a dj e produtora é ligada ao footwoork, a vertente ultra-acelerada (que chega até os 160 bpm) e de graves volumosos originada em chicago, principalmente pelas mãos do dj rashad.

jlin, no entanto, é da cidade de gary, no estado de indiana. apesar de acompanhar toda a cena, ela não estava exatamente no epicentro de chicago, há 50 km de sua casa. talvez a distância tenha sido um fator que lhe permitiu criar o que poderíamos chamar de sua própria versão do footwork. mas black origami é muito mais. é um tour de force percussivo, uma batucada arrasadora e hipnotizante – basta ouvir nyakinyua rise e carbon 7 (161) para comprovar.

o carioca superfície trouxe a percussão para dengue drums, uma espiral rítmica vertiginosa que integra o ep hélices, lançado pelo selo uruguaio salviatek. inspirado pela “biotecnologia da nossa era, insetos robóticos e percussão expressiva que nos cerca ao longo de uma perseguição no sul da amazônia”, o disco é um híbrido de baile funk, paisagens sonoras e sons robóticos. “é como se um baile funk encontrasse o ghost in the shell. um bando de crianças brincando de pipa com drones. a fibra óptica que corre como veias através de comunidades desfavorecidas e aquela cena da rave em matrix, exceto que morpheus é substituído pelo mr. catra”, disse o produtor em entrevista ao thump ao definir a música cerol.

mais afastado do ambiente da pista de dança, o second woman lida com a percepção e manipulação do tempo em seus discos – second woman (2016) e os novos s/w e e/p, que coincidentemente ou não tem até um remix de jlin. o duo formado pelos americanos turk dietrich e joshua eustis trabalha com pulsos eletrônicos que são sobrepostos às batidas e gradativamente acelerados e desacelerados, causando um efeito de dilatação espaçotemporal, um interesse que por sua vez vêm sendo trabalhado há alguns anos pelo duo evol, particularmente em sua série de discos rave rave synthesis approximations of györgy ligeti’s continuum e respectivo ensaio teórico.

“ambos sentíamos que, na última década, nos tornamos um escravo da estrutura da música, do tempo, do grid – especialmente em gêneros como techno e house, onde tudo é tão rígido. isso é bom, nós adoramos essas coisas e há beleza nisso, mas acho que perdemos algumas das coisas que costumávamos falar e fazer musicalmente. sair da grade e trabalhar na daw [estação de trabalho de áudio digital] sem linhas, sem uma grade e tendo o tempo maleável para mim leva a uma experiência mais interessante como ouvinte”, comentou turk dietrich em entrevista a fact.

em crisis of representation, o húngaro gábor lázár dá mais um passo em sua radical exploração temporal. desvinculado de qualquer compasso, ele induz convulsões com uma série de fluxos sonoros que se esticam e se comprimem. por sua vez, os ingleses shackleton e vengeance incorporam instrumentos de percussão das orquestras de gamelão da indonésia para compor a narrativa labiríntica de sferic ghost transmits.

primeiro gênero brasileiro de música eletrônica dançante, o funk vive um momento polêmico devido à sua reformulação rítmica. por décadas as músicas do estilo foram produzidas em 130 bpm e tocadas nos bailes numa velocidade um pouco maior. e desde a criação do tamborzão (aproximadamente em 1999) pouco se mexeu na batida. porém, jovens djs do complexo da penha e da favela da nova holanda (como rennan da penha, rodrigo fox, wm 22 e nandinho) passaram a acelerar as músicas e executá-las nas festas em 140 e até 150 bpm, o que causou uma série de críticas dos veteranos mais conservadores.

o principal nome desta pequena revolução do funk é o dj polyvox, que criou uma batida própria para o pancadão a 150 bpm: o tambor coca-cola, que foi criado a partir do som de uma garrafa pet batendo na porta de seu quarto e dá inicio à vertente chamada de “ritmo louco” ou “putaria acelerada”.

elemento central da canção, a voz é reelaborada e pensada além de sua qualidade figurativa por uma gama de músicos que vão de björk a kanye west, de juçara marçal a maja ratkje, que desenvolvem estruturas polifônicas, manipulações com dispositivos eletrônicos, sobreposições de camadas sonoras etc. a música eletrônica passa também por este momento, mas com o seu próprio elemento estrutural: o ritmo, a batida.

certamente esta movimentação não é premeditada, mas talvez uma (in)consciência coletiva. o importante é  manter o olhar amplo e tentar pensar a agressividade árida de gábor lázár e o swing abrasivo da putaria acelerada em um diálogo maior. e ainda assim, é preciso estar atento para não cair em generalizações. o trabalho de jlin, lázar, superfície, second woman, polyvox e outros não tenta e nem recai sob uma categorização única. ao contrário, tratam exatamente da proliferação da multiplicidade. ritmo e diferença. 

originalmente publicado em 27 de junho de 2017.

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