Impressões sobre o FIME — a música no limite

antes da apresentação do hrönir, na abertura do segundo festival internacional de música experimental (fime), em são paulo, a produtora natacha maurer destacou que o festival “não seria possível sem essa cena de artistas experimentais do brasil”. a frase foi como uma introdução para os 15 dias seguintes de apresentações do evento, que reuniu criadores de todo canto do brasil (belo horizonte, pernambuco, são paulo, rio de janeiro, rio grande do sul), acolhendo uma rica diversidade de propostas e dando uma mostra da força de criação dessa mesma (digamos assim) “cena”.

 

no ano passado, o fime foi organizado sob o tema “ruído”. este ano, sob o tema “limites” e curadoria da compositora fernanda navarro e dos guitarristas-intérpretes-improvisadores-etc mathias koole (seminal records) e mário del nunzio (ibrasotope), as propostas habitavam o limiar (estético, conceitual) não como uma forma de negação iconoclasta, mas pela criação de outros mundos possíveis. henrique iwao atuando nas fronteiras do “não-musical” enquanto levava as formas canônicas de protesto ao extremo com o bate-panela de o brasil não chega às oitavas. o grupo medula, com isabel nogueira e luciano zanatta, pensando a voz para além de sua qualidade figurativa, para além do canto: uma voz-som, permeada de ruído, memórias e outras camadas de sentido. o test (com uma big band de peso que incluia bernardo pacheco, do elma, carlos issa, do objeto amarelo, entre outros) recriando formas desafiadoras de grindcore e metal tocando o seu álbum espécies.

na apresentação do álbum N.R. [X]NO [ ]YES, o duo t1n1tuzz, sem nenhum performer no palco, utilizou quatro tape decks, escondidos por trás de uma parede de 600 fitas cassetes como uma reflexão sobre os resquícios afetivos na era do descarte e obsolência programada. numa proposta relativamente análoga, com velozes e furiosos 1, ou (imw), cadós sanchez e ruben pagani utilizavam diversos autômatos, instrumentos e aparelhos de produção própria que iam compondo e empilhando camadas de som. relações de máquina/–/objeto.. já o duo drn, também com objetos auto-construídos e eletrônicos, apresentava uma riqueza de texturas incrível, erguidas num tom minimalista (no sentido do “menos e mais”, com uma percepção máxima sobre o detalhe mais ínfimo).

 

mas a peça mais impactante certamente foi ela engoliu um piano de vidro, de fernanda navarro. seis performers começavam lendo estatísticas sobre a violência contra a mulher no brasil, enquanto, ao fundo, eram projetados relatos de mulheres abusadas. um piano programado eletronicamente tocava séries de notas e, enquanto falavam, as próprias mulheres cortavam o som de sua voz batendo em objetos ou soando apitos. mais do que nunca, a aqui descrição torna-se, no mínimo, vazia. a intensidade da peça estava nos silêncios artistas, no olhar, nos gestos, na presença e na ausência (pouco antes do fim, elas retiravam-se e o público ficava com o anônimo). a peça doía a cada minuto. era sufocante. era como tocar numa ferida que, por nos acompanhar há tanto tempo, esquecemos de que está lá. um lembrete de que o estupro e o violência está sempre perto, uma ameaça cotidiana e permanente na vida das mulheres. 

os olhares fixos das performers penetravam de forma a nos lembrar da banalização dessa violência e que era bem possível que ali naquela sala estivesse uma vítima. nas palavras da própria navarro, no programa do festival: “nos últimos dois anos eu coletei relatos de mulheres que sofreram abusos sexuais, físicos e psicológicos. são relatos de amigas, parentes e pessoas conhecidas. Dentre toda a gama de sentimentos – variando entre dor, ódio, tristeza, vergonha, prostração – o sentimento que mais me deixou perplexa foi o de impotência contra opressão”.

 

 

entre os gringos, mais apresentações surpreendentes. a começar por peter brotzmann e seu full blast trio, um trator sônico violento e raivoso, mas não só ele. o trio three corpse piledriver jogava com as fronteiras do grindcore, free jazz e improvisação. a flautista ine vanoeveren apresentou todo o repertório para flautas de brian ferneyhough, compositor britânico cuja música é frequentemente rotulada como “impossível de ser executada”. impressionava pela forma de lidar com o “erro”, quebrando a perspectiva direcional, abrindo brechas para o acaso, o indeterminado.

o suíço-israelita dror feiler juntou-se a sua “noise orchestra”, formada por 16 músicos da cena experimental de são paulo mais outros que estavam presentes para o festival, e estreou a peça the no flow. diz ele: “ao invés de ruídos singulares existindo para o alcance abstrato do todo, o todo é composto para nos jogar nos chifres do ruído. diferentemente de muita ‘música tradicional’ em todas as suas formas na qual a dissonância sempre serve a uma ordem abstrata superior, aqui o próprio material da composição, o ruído singular, particular e visceral nos consome por inteiro. cada ruído na música adquire um significado, e não há uma clara hierarquia existente entre eles. cada ruído na música é igualmente próximo ao centro. entretanto igualdade não se torna intercambialidade, pois cada ruído na música permanece dolorosamente particular. com isso encontramos uma possível alternativa ao clamor de adorno de que ‘a história da música ao menos desde haydn é a história da fungibilidade: que nada está em-si e que tudo está apenas na relação com o todo'”.

 

outro ponto alto da programação foi o ator, músico e compositor e diego espinosa, cujo trabalho é um movimento exploratório de som e corpo, expandindo a arte performática contemporânea. espinosa apresentou quatro peças, entre elas 150pF for body capacitance (trabalho criado em parceria com hugo morales e que usa o corpo como uma interface elétrica baseada na quantidade de eletricidade que ele pode transportar) e sua adaptação da peça aphasia, de mark applebaum, para gestos sincronizados e sons pré-gravados.

além de toda essa programação principal, à tarde o fime ainda manteve, durante os 15 dias do festival, um espaço livre com sessões de improvisação (no bandcamp de thelmo cristovam, do hrönir, há o registro de três sessões), debate com os artistas que participaram do festival e outras atividades. 

tratando de limites, esta edição do festival assinalou uma aproximação maior com outras formas de experimentação artística (performance de espinosa, audivisual de patrícia martinez e luísa puterman, a “instalação” do t1n1tuzz), o que aponta caminhos ainda mais ousados para os seus anos consecutivos. mas de agora, já se pode dizer que o fime, em sua segunda edição, é, junto ao novas frequências, o maior evento de música experimental no país.

publicado originalmente em 7 de agosto de 2016.

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