Funk de BH: o surgimento de um ‘ambient space funk’?

mc dennin na festa sucessagem, na boate love night, bairro da mantiqueira,belo horizonte.
atenção pro cara no telhado, no canto direito

 

seria o surgimento/consolidação de uma espécie de space funk? um funk ambient?

como nota o musicólogo carlos palombini, a transição do funk dos anos 2000 para os anos 2010 (isto é, do tamborzão aos beatboxs) é marcada pelo esvaziamento da tessitura na região dos graves e concentração na região média, o que dá mais espaço para a criatividade do dj/produtor e incentiva hibridizações com gêneros musicais diversos. mas de toda forma, o grave aparece um fator determinante na arquitetura da música, especialmente pelo seu efeito físico, o que torna uma música mais propícia para o ambiente de baile e que funciona melhor em paredões de som automotivo. uma pedra fundamental sobre o qual a música vai se sustentar — como em novinha taradinha, de mc wm e louco de refri com dj will o cria, ou mesmo no passinho do faraó, de mc bin laden com mc brinquedo e mano dj.

mas em belo horizonte a coisa é diferente. dos bailes subaco da cobra (no bairro califórnia) e inestan, emerge uma sonoridade menos incisiva, com arranjos mais espaciais, etéreos, mínimos e com maior destaque para os tons agudos – que apitam mais no ouvido sob efeito do lança e ectasy, vale notar. ritmo lento e cheio de reverb.

considerando as visualizações de youtube e plays em soundcloud, o maior hit dessa cena do funk mineiro é viciei nessa garota, do mc dennin com produção coletiva dos djs joão da inestan, tg da inestan e lukinhas da inestan. foi também uma das poucas músicas de minas a ser lançada também pelo canal do detona funk. a faixa apresenta bem alguns dos elementos da inestan: uma flauta desenhando um melodia morna oscilante, um ponto miminalista e agudo e som de vidro quebrando (!). no início há um sample que remete aos proibidões, mas ao invés de referência ao comando vermelho ou pcc, ele demarca a sua origem: “bh é nóis, sô. é praça sete, mané (…) nóis nunca para, não, sô, nóis só dá um tempin”.

mc rick é outro dos mais tocados. também lançou música pelo detona funk e recentemente trabalhou clipes com o tom produções, produtora de clipes de bh. com produção do dj cheab, eu quero é o toba é como uma putaria ambient.  há um clima imersivo, um minimal synth e uma atenção maior aos timbres (que tem algo de brian eno, aliás). também é interessante notar que o ritmo parece ser mais sugerido do que de fato colocado. há uma suspensão do ritmo. após crescendo no refrão (“eu quero é o toba/ eu tô cansado de meter várias vezes na sua xota”), é esperado que o beat entre com força, o momento apoteótico.  mas ele não vem e em seu lugar são colocados flashes da velha batida de volt mix com um toque do berimbau, como um espasmo, uma aparição fantasmagórica, uma irrupção — não está lá com a função semântica tradicional de um sample.

 

ele é bandido com o mc wellerzin, é uma das faixas que melhor trabalha a construção do ambiente. além do ponto com toques agudos, tem a voz trabalhada em leves sobreposições — ao invés de dobradas, como é mais frequente; ou seja, intuitivamente aproxima-se mais do r&b do que do trap.

a mais surpreendente é sacanagem toda hora, montagem parceria de swat com o dj vinicin do concórdia utilizando voz de vários mcs (como o próprio wellerzin e, ao que parece, o mc rick). nem tem o que falar, é só dar o play e ouvir o sample e das cordas (ou um synth emulando cordas?).

 

com 23 anos, swat começou a produzir suas próprias músicas há quatro, aprendendo tudo pelo youtube. atualmente tem um pequeno estúdio (veja na galeria de fotos).

“quando eu comecei já escutava bastante música de funk e ficava me perguntando como é que eu fazia uma música. não tinha noção de nada, de nada, de nada. ficava batendo no youtube, mano, procurando várias fitas pra aprender a produzir, fazer essas paradas. aí enquanto isso eu tava pegando música de outros dj e tocava, comecei a tocar nos bailes, vendo outro mano meu tocar nesse baile aqui da minha quebrada, que é o baile do subaco, no bairro califórnia”, ele conta em conversa por whatsapp. “eu via esse meu mano tocando e ficava: ‘nó, mano, meu sonho é tocar, meu sonho é virar dj’. sempre tive essa vontade. já vai fazer uns nove anos que mexo nesse negócio. aí eu vendo ele tocar, baixei o virtual dj pra tocar aqui em casa pra mim mesmo, aprendendo a virar algumas músicas. inclusive, nunca fiz curso, nunca fiz nada. só toco mesmo o que eu sei. aí uma vez um mano me chamou. eu disse: ‘mas eu não sei nada, como é que eu vou subir lá e vou tocar? vou fazer o que? como?'”.

aos poucos, swat foi aprendendo e acabou assumindo o baile do subaco. “um dia eu fui, toquei e geral gostou, porque eu ficava o dia todo vendo música do rio de janeiro e tocava mais uns lançamento diferente. aí quando comecei a tocar, depois de um mês as música [de outros] que eu tocava virava sucesso em bh. na segunda semana que fui tocar, os manos daqui do baile já falaram: ‘você que vai tocar no baile’. aí eu: ‘não, mas o mano lá toca comigo, ele que me aplicou no baile então ele vai tocar comigo’. aí foi passando e acabou que eu fiquei por conta de tocar no baile, o mano lá não queria tocar mais. assim foi. de lá pra cá fui procurando muita coisa no youtube e passei a focar na produção. falei: ‘agora eu quero aprender a produzir minhas próprias músicas’. aí tô aprendendo algumas coisas e aí que tá rolando”, diz.

no estúdio

vinicindj vinicin do concórdia

no bailedj swat em ação

baile do subaco

em paralelo com a música eletrônica, essa sonoridade do funk mineiro estaria próximo do ambient mesmo e talvez do witch house. mas é algo diferente e que está em processo, desenvolvendo-se. as faixas desta matéria (todas de três ou dois meses atrás), por exemplo, mostram uma qualidade de produção e soluções mais bem resolvidas do que músicas um pouco mais antigas (quatro ou cinco meses). por outro lado, faixas novíssimas do dj swat trazem já também informações novas que podem conduzir tudo para um outro caminho, ainda que os elementos discutidos discutidos neste texto permaneçam.

ele explica: “desde quando começou a gente já vem seguindo esse ritmo, mais agudo, um som mais de sininho, umas latinha. é bem diferente do rio de janeiro. eu falo do funk putaria, porque tem uns funks consciente com a batida mais diferenteciada. a gente começou nesse pique, a gente mesmo criando nosso ritmo, de bh, minas gerais”,


influências e percussos 

o arranjo mínimo, o agudo, toques de lata e outros sons do funk de bh estão aparecendo reprocessados em diversos funks de são paulo. é difícil afirmar com certeza se é uma influência direta, uma assimilação inconsciente ou uma técnica apreendida por imitação. alguns dos principais nomes do funk, como o mano dj, conhecem e falam do baile da inestan como uma referência.

em senta no pau dos quebrada, de mc gw e mc lan, o grave contribui pro fundo “outer space” e o foco do ritmo está mais no ponto minimalista — agudo, a propósito — do que na base, propriamente dita. um ponto semelhante, também agudo, aparece em baile em nárnia e mundo de nárnia, do mc pesadelo e dj wallace nk. em mundo, esse efeito deslocado, perdido no espaço, acontece ainda com a inserção de um sample ao contrário

 

originalmente publicado em 16 de fevereiro de 2017.

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