Ritmo louco e putaria acelerada: o funk de 150 BPM das favelas do rio

há cerca de dois anos alguns de djs e canais de funk no youtube começaram a introduzir uma novidade que eles chamavam de “ritmo louco” ou “putaria acelerada”: o tradicional beat do funk em 130 b.p.m. (batidas por minuto, em outras palavras a velocidade da música) era elevado para a faixa dos 140 ou 150 bpm, criando um efeito mais caótico e frenético.

daqui de recife, distante dos bailes, eu sentia que aquilo não era apenas um novo som. era uma causa, um motivo de orgulho de uma nova geração do funk cario. o que eu (e pelo visto nem mesmo os produtores) imaginava era que a putaria acelerada fosse crescer tanto ao ponto de, dois anos depois, ser a causa da maior polêmica do funk, dividindo os produtores e mcs veteranos do tamborzão e os novinhos acelerados.

apesar da putaria acelerada estar há um bom tempo nos bailes de favela no rio de janeiro, a treta mesmo é recente e se desenrolou com séries de posts que os djs do 150 bpm (como rennan da penha, wm 22 e polyvox) fizeram com indiretas ou diretas mesmo aos caras mais antigos (principalmente o dj byano) que querem manter o funk no 130 bpm. rennan chegou a postar um vídeo com algumas amigas zoando o byano e seguiu ironizando no facebook: “vai acabar rolando protesto lá no centro por causa do 130 bpm”.

byano não respondeu às provocações, mas o dj cabide (dos produtores mais antigos, um dos responsáveis pelo desenvolvimento do tamborzão) foi defender o 130. postou uma imagem com uma festa cheia, que dizia ser o “baile de playboy com bpm 130”, e um “baile de favela com bpm 150” esvaziado. mas rennan também não deixou quieto: “me criticar é mole, meu nome rolando no grupo desabado dos djs. agora eu quero ver o que vão falar aí nessa porra. valeu dj cabide, negando a raiz. que nojo, papo reto… já fui seu fã um dia”.

depois cabide publicou um vídeo em que dizia não ser contra os djs que produziam em 150, e sim contra os que aceleravam o pitch músicas (“sucessos” ou “clássicos”).  e acusa diretamente rennan da penha e rodrigo fox de estarem “matando o funk carioca”, fechando com um desafio para o duelo.

e também choveram memes, desde “byano procurado por tocar em 130” ao “encontro #euapoio150bpm”, evento virtual organizado por rennan, polyvox, wm 22 e alguns outros. e, como não podia deixar de ser, teve também uma música chamando para guerra – com sample afronta é guerra,do mc copinho.

byano, que ficou conhecido por produzir músicas do mc orelha, critica: “o funk do rio de janeiro era conhecido no bpm 127 pelo funk melody (stevie b e etc). daí o funk foi aumentando: 127, 128, 129 e ficou um bom tempo, por anos no 129. daí começamos a produzir a 130. ficou durante anos, vários sucessos, os djs profissionais tocando em 130”, explica. “e de 2014 pra cá vem a nova geração, de 15, 16 anos, que começou a acelerar as coisas, a fazer um monte de besteira, estragando a cultura funk. quem dança a 150 bpm? não tem como. só homem que fica pulando pra cima e pra baixo, um do lado do outro, se agarrando. as mulheres mesmo não têm como rebolar, não têm como dançar. não existe mais o swing. e de tanto você acelerar o bpm, as vozes dos mcs vão ficando finas, vai ficando ridículo. isso acontece muito em choppada e em baile de favela. em clubes, rádios e televisão isso não existe porque ainda tem a cultura do 130, do funk original. estão distorcendo essa cultura, esse símbolo, pra eles tentarem fazer a tal revolução que eles tanto falam. mas essa revolução só afunda os mcs, só afunda a cultura funk, só afunda a eles mesmos”, completa.

em sua opinião, este novo funk não sairá das quebradas, enquanto ele defende que o gênero deve abraçar o mundo. “é a modinha da garotada aí. quando tá muito avançado assim, daqui a pouco começa a perder força e cai. não sai da favela. fica só naquilo, não estoura música. as músicas não expandem, fica musicalmente regional. estoura ali, morre ali, fica ali. acabou. já o 130 a gente pode misturar com axé, com samba, fazer várias percussões. eu tenho um monte de versões aí que eu fiz, eu faço as músicas não só pensando no rio mas sim pra expandir. tem funk meu que toca na rádio bbc news! eu já fui capa de revista francesa com bagulho de funk. são coisas que a gente tem que fazer pra frente”, argumenta.

as primeiras faixas desse novo estilo mostravam uma produção rudimentar. era como se o antigo tamborzão fosse incrementado com um beatbox e acelerado toscamente no virtual dj, distorcendo a música por completo. para piorar, tinham um grave que deixava o som da música inteiramente estourado. vale notar que isso não é uma prática exclusiva do funk. também no tecnobrega paraense é comum que os djs das festas de aparelhagem acelerem as batidas das músicas — olha a versão de original de tá faltando homem, da banda xeiro verde, e a versão da aparelhagem superpop, por exemplo.

o mc metade foi o primeiro a lançar uma música na onda do ritmo louco: ibá ibá ibá na nova holanda, em 155 BPM, feita pelo dj polyvox. mas ainda era o tamborzão acelerado. o produtor construiu a música em 130 e depois a acelerou. essa fórmula não funcionava bem porque o som era de baixa qualidade, mal feito.

“nunca o baile de favela foi 130 bpm cravado, sempre foi 133, 135”, diz polyvox. “num deslize no beat, foi pra 138. aí a gente começou aobservar que o clima era outro, o público se movia melhor. foi quando comecei a criar o ibá ibá do mc metade, fiz em 130 e acelerei. aí vi uma possibilidade de fazer a música melhor, aí criei esse é o baile do meu pai, em 155 bpm. mas achei muito exagero”.

com o tempo, os produtores foram tentando encontrar uma nova base musical que solucionasse o problema e atendesse às demandas específicas do novo ritmo que estavam construindo. foi aí que polyvox criou o seu tambor coca-cola, agora em 150 BPM. este, sim, um beat naturalmente produzido de forma acelerada, e não fazendo uma altereção posterior da velocidade/pitch – o que distorce a música inteira.

“fiz o tambor coca-cola batendo com uma garrafa de dois litros na porta mesmo. eu coloquei o gravador do outro lado e fui equalizando”, revela o polyvox, da nova holanda. ele conta que criou três variações da batida: o tambor coca (usado em vai com a boca, vem com a boca, do mc chefinho), o coca do mal (de um tal de bota tira, um tal de tira e bota, com o mc buret) e o coca swing (de vem, roça a pepeca, música com o mr. catra). no vídeo abaixo, ele explica passo a passo como desenvolveu a batida:

 

polyvox (ou polyvox sacanagem) é diogo enzo lima, 26 anos. ele é um dos produtores mais criativos da turma, levando o funk para novos caminhos – um fator considerável, ainda mais para o funk do rio, que andava meio morno. um tal de bota tira, um tal de tira e bota” tem uma pegada footwork no beat e mais um ponto agudo que é incrementado com um leve efeito de eco, dando uma espacialização maior em comparação ao som seco e estourado da maioria do funk a 150 bpm. em rock pras piranha, ele realiza a mistura de gêneros que byano diz que não ser possível no beat acelerado. e rolou até uma versão do tema de mario bros.

tem também o pessoal da favela penha: rennan da penha (que estourou no ano passado ao criar o inusitado beat de arrocha da penha),  wm 22 e nandinho). eles costumam trabalhar juntos e chamam seu beat de tambor porrada seca. é uma atabacada até um pouco semelhante ao tambor coca-cola, mas com pontos de beatboxes e muito mais focado na força do grave, aproximando-se assim do som do som dos proibidões e tabacadas. outro da nova holanda, o dj rodrigo fox vai pelo caminho do arrocha e chega até aos 160 bpm.

comparando com a música eletrônica, é um som próximo (equivalente?) do ritmo frenético do footwork, gabber e jungle. um hardbaile.

polyvox me passou em “exclusivo um vídeo caseiro de uma música do catra que vamos lançar”. “ele escutou e viu que minhas batida tavam diferenciadas. me convidou, fui na casa dele e levei o equipamento e mostrei a ele. ele ficou encantado. eu vi o mr. catra a letra ao vivo, na minha frente. e ele passou a visão, falou que era do caralho a coca”, conta.

além do mr. catra o vídeo caseiro de vem, roça a pepeca mostra outros dois mcs, mostrando que o ritmo louco já está no complexo do alemão, complexo da maré, nova holanda, parque união (p.u.), penha, antares. e catra não apenas aderiu à putaria acelerada como deixou um toque esperto: “criação é criação”.

enquanto os bailes de favela do rio aceleram, o funk de linha pop/mainstream curiosamente faz o trajeto oposto: diminui o bpm e caminha em hibridização com o reggaeton e o dancehall, seguindo uma tendência que explodiu no pop global após o sucesso de lean on, de major lazer.

anitta foi fazer parceria com o astro colombiano maluma e logo na sequência ludmilla lançou um remix de otra vez, dos também colombianos zion & lenox. você partiu meu coração (de nego do borel com anitta e wesley safadão) e, principalmente, loka (de simone & simaria novamente com participação de anitta) também são marcadas pelo toque lento e suingado do reggaeton. até michel teló entrou no ritmo arrastado latino em o mar parou (olha essa batidinha no cowbell e como o acordeon é bem diferente do toque sertanejo de ai, se eu te pego ou fugidinha).

 

também tentei falar com todos eles, mas anitta está muito ocupada em los angeles invadindo festa de samuel l. jackson, farreando com thaila ayla e sendo confundida com jennifer lopez e michel teló está ensaiando para um musical e viajando até orlando para passar seis horas comprando enxoval do segundo filho. a assessoria dos demais nem respondeu o pedido de entrevista.

mas quem também pira em reggaeton é o mineiro mc papo. ele inclusive antecedeu essa mistura em músicas como radinho de pilha, de 2009. “essa parada da galera no rio de janeiro fazer coisa em 150 é uma maneira de se destacar de são paulo”, analisa.

“sp criou um outro jeito de fazer funk a partir do jeito mineiro, porque os mineiros trouxeram algumas inovações. mas como são paulo é mais organizada, tem mais oportunidade, esse estilo que veio surgindo em minas gerais foi mostrado para o brasil em são paulo. e isso marcou muito. e aí o rio de janeiro começou a sentir agora o espaço que ele vem perdendo pra galera de são paulo por não inovar, por não mudar o jeito de produzir. eles [cariocas] são muito fechados. eles fazem funk pra eles. o jeito de pensar é: ‘ah, a gente faz funk pra gente porque é aqui que as coisas acontecem’. só que acabou que no final das contas eles ficaram lá isolados e o brasil todo tá seguindo o modelo paulista, que por sua vez teve muita influência de minas gerais”, completa.

para papo, o que abriu espaço para atual onda reggaeton foram as rasteirinhas, a vertente mais lenta do funk, de 96 bpm. “o fato da galera de são paulo, os djs nos bailes terem aceitado a diminuição do bpm — as rasteirinhas, essas músicas com uma pegada ragga, tipo mc japa, mc romântico, as primeiras da tati zaqui — isso foi o que abriu a porta pro reggaeton entrar no brasil. como a galera antes era muito quadrada (‘tem que ser 130!’), eles começaram a aceitar esses sons de 96. e só o fato de fazer isso causou uma explosão de criatividade”, aponta ele, que promete lançar este ano um disco só de reggaeton e algumas faixas de afrotrap.

“quanto mais os djs tiverem a vontade de tocar músicas com diferentes bpm, tipo assim, chutar o pau da barraca e liberar tudo, aí o funk vai evoluir pra tudo quanto é lado porque você vai possibilitar a criatividade dos caras. no momento tá todo mundo preso no mesmo formato, 130, 130, 130. agora já entrou o 96. e se liberar geral e você puder fazer no bpm que você quiser, aí sim vai ter uma explosão no gênero”, conclui.

originalmente publicado em 19 de abril de 2017.

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