Entrevista: Yury hermuche e o indie rock brasileiro dos 90 em “Rcknrll”

 escritor, guitarrista e vocalista da firefriend, yury hermusche acaba de lançar rcknrll – outsiders viciados em música procurando confusão. é um tomo de 600 páginas sobre o rock underground do brasil. o livro traça um panorama da cena musical do final dos anos 90, começo dos 2000, a partir de perfis de nove bandas entre são paulo, rio de janeiro e brasília. entre elas, pin ups, thee butchers orchestra, divine, lê almeida, giallos e forgotten boys. “conversei com mais de 50 músicos e produtores e nós falamos sobre tudo: sexo, drogas, dinheiro, música, sucesso, underground, racismo, preconceito, imprensa, trabalho, traição, profissão, religião, brigas, amores, paixões. sobre crescer e andar por aí. falamos sobre essa sensação de ser diferente em um planeta confuso e violento. sobre como o rock pode ser aquele prisma através do qual você olha para o mundo e começa a perceber as coisas de uma forma diferente”, ele conta.

em turnê nacional para divulgar o livro, yury tocou com a firefriend no edifício pernambuco, em recife, ao lado de dmingus, zeca viana e da banda verdes & valterianos. trocamos uma ideia sobre o rckrnll, underground, imprensa e mais um tanto. jarmerson lima, produtor do programa de rádio e do festival coquetel molotov, também se juntou no meio da conversa.

no meio do texto há uma galeria com trechos de depoimentos do. basta passar o mouse sobre as fotos para ler. para comprar e saber mais o rckrll, acesse: www.rcknrll.com.br.

quando surgiu a ideia de escrever o livro? quando foi que você percebeu que tinha que escrever essas histórias?

em 2014 a gente foi fazer um show no rio de janeiro e a quase morreu na estrada porque eu perdi o controle do carro e a gente tirou um fino de um ônibus, a 100 km/h. e aí a gente ficou pensando, pensando muito: por que a gente faz essas coisas? por que a gente viaja seis horas pra tocar no Rio de janeiro sem nem saber se lá vai ter gente pra ver o show, se a gente vai mesmo conseguir fazer o show? então essa é uma questão. a gente do firefriend tem uma ideia: a gente acha que é doente de querer fazer essas coisas. mas eu fiquei na dúvida por que as outras bandas fazem isso, e aí eu fui atrás. comecei a conversar com as pessoas e as repostas estão no livro.

é mais sobre a motivação das pessoas envolvidas nas bandas e quem elas são, o que os leva a fazer isso, e menos uma “história do rock underground”. 

tem uma coisa: quando comecei a perguntar as pessoas o por que elas fazem aquilo, eu descobri que essas pessoas todas cresceram olhando pro mundo e achando algumas coisas muito estranhas. desde a escola, que não tava interessada em educar, tava só interessada em fazer anúncio dizendo que passavam x alunos no vestibular, e que tratavam aqueles que não tiravam notas boas como burros. uma criança ser tratada dessa forma é muito dificil. assim como pessoas que sofreram muito com preconceito racial gente que tinha sotaque nordestino em são paulo por exemplo era muito malhado — e é até hoje. negros humilhados, gays humilhados. gente que entrava no exército e era tratado que nem cachorro. gente que cresceu sem dinheiro e vendo como o mundo funcionava em função do dinheiro… essas pessoas cresceram olhando pro mundo e percebendo que havia algo muito estranho, que o mundo não tava interessado nos problemas delas. como até hoje, o mundo tava interessado, em enganar as pessoas. como a música comercial, a música que faz sucesso. ela nada mais é do que uma trilha sonora pra deixar todo mundo sem prestar atenção nas coisas. e essas pessoas viram isso e perceberam que o underground é um lugar de encontro. no underground elas encontram com pessoas similares. por isso que a gente tá aqui hoje e não na frente do faustão, dentro de um shopping center pra comprar plástico etc.

então as pessoas cresceram observando o mundo e achando-o totalmente esquisito. naturalmente elas foram caminhando pro underground, que é um lugar maravilhoso. é um lugar onde você pode fazer trocas com as outras pessoas das coisas que você tá produzindo, sem preocupação com dinheiro. o dinheiro não dita o que é mostrado no underground. então isso faz do underground um lugar único no mundo porque o nosso mundo é dominado pelo dinheiro e o underground não é dominado pelo dinheiro é determinado pela troca.

esse círculo de bandas que você aborda no livro tem uma característica interessante e ainda pouco falada que é um referencial musical outsider em relação aos anos 90 no brasil. enquanto o manguebit estimulou uma demanda pelas “raízes” e “brasilidade”, esse pessoal mergulhou no indie rock. é o velvet no lugar dos beatles.

o undergrond dá mais riqueza pra variedade musical. as bandas de rock independentes são bem diferentes na paisagem. essas bandas soam diferentes umas das outras. mas o mais importante não são as bandas. o importante é o efeito que ter uma banda e conviver e viajar com uma banda tem sobre a pessoa. muitos dos entrevistados só conheceram o brasil porque tinham banda de rock. do contrário, elas ficaram como todas as pessoas que elas conhecem, presas dentro das cidades ou das periferias delas. o underground ainda tem essa qualidade ele faz a gente ver o mundo de uma forma diferente. a gente viaja, conhece e troca com outras pessoas coisas que de outra forma a gente não trocaria. o desenvolvimento da individualidade e da personalidade de alguns desses músicos foi acelerado por conta das bandas e isso tem um impacto diferente sobre a sociabilidade e a vida que essas pessoas tem.

uma força que o circuito underground tem é de criar novos espaços na cidade, inventar novas rotas. como tu enxerga isso?

isso é muito importante porque são espaços que não são de consumo. a gente vive numa situação hoje que quase todos os espaços são dominados pela lógica do consumo. ou você vai no shopping center ou você vai em tal lugar pra comprar isso ou aquilo e em alguns lugares você só pode ir se tiver dinheiro. no underground é diferente: você vai pra encontrar com seus similares, que acham tudo uma bosta como você acha. conversa com essas pessoas, vê show e troca. é o encontro. conversei com 50 pessoas e várias delas falam isso: o underground é um lugar de encontro, não é um lugar de consumo. é um lugar de troca. a gente precisa olhar pra isso melhor até pra poder falar bem ou mal do underground, pra ter um conhecimento melhor do que ele realmente é. 

eu tava pensando mais na circulação urbana mesmo. de ter um lugar abandonado que é ocupado por ações artísticas e ganha vida nova. aqui em recife a gente teve isso no pátio de santa cruz e no estelita. em sp tem esses espaços que surgiram a partir de movimentação artístsica?

é,  acontece demais. geralmente são lugares esculhambados, com pouca grana, tudo caindo aos pedaços. mas faz sentido porque não é o dinheiro que tá lá, são as pessoas querendo se encontrar. isso acontece no brasil inteiro no mundo inteiro, gentrification como dizem. os artistas percebem os lugares mais rapidamente e aí eles criam mais cultura, mais ambiente de troca. é demais isso.

o livro tem nove bandas. como você as escolheu?

eu vi o shows de todas elas — uma é minha banda, mas vi todas as outras — e eu gosto da história das bandas. são bandas que não fizeram sucesso nenhum. nunca pagaram uma conta com dinheiro de venda de disco ou de show, mas são bandas que os caras não estavam fazendo aquilo pra aparecer no faustão, essas baboseiras de sempre. eles tavam fazendo aquilo porque eles gostam de fazer música e eles acordam todo dia pensando em música. o marco butchers, do buchters’ orchestra, por exemplo gravou mais de 40 discos. é um músico foda, uma figura clássica do rock brasileiro. o butcher’s orchestra é uma banda clássica do brasil. mas você vai conversar com as bandas novas e ninguém sabe quem é o butchers. e no começo dos anos 00 eles tinham o melhor show de sp! então registrar essa história é fundamental. o homem só foi pra lua porque existem livros, a gente aprende uma coisa, aprende outra e vai crescendo. no rock independente as bandas novas ficam reinventado a roda a cada verão porque não se tem um registro. o brasil é muito fraco de registro, de memória, da sua vida, dos seus artistas. então a experiência dessa banda que tá contida nos livros acho que é informativa pras bandas novas perceberam que os problemas que elas estão vivendo hoje não são problemas novos. embora tenha internet e etc, existem problemas muito similares ao que acontecia nos anos 90.

jarmerson: e ainda tem um problema que é a falta de memória recente do que teve de 20 anos pra cá. tem muita coisa documentada até o fim dos anos 80, que foi a derrocada do brock e tal. mas anos 90 em diante, quando teve nação zumbi, raimundos, planet hemp etc, ficou meio no hiato assim. as pessoas falam mas ao mesmo tempo não falam. falam daqueles que se destacaram, do pato fu, skank, nação zumbi. mas não falam do pin ups, muzzarelas, de muitas bandas daquela galera lá que ainda existe. o pelvs, cigarettes, snooze ali em aracaju. ninguém fala mais, ninguém lembrou de falar e muitas bandas tão lá desde os anos 90. e todo mundo daquela geração foi injustiçado porque não teve registro de verdade, tanto em video como alguem com um trabalho sério de “vamos falar sobre essa geração”. e aí passa os anos 2000 em diante toda essa geração de bandas que as pessoas conhecem, tem o respeito, mas ninguem fala. então se ninguém registrar isso aí vai se perder tudinho.

esse já é o seu quarto livro. você o lançou por alguma editora ou por conta própria? 
eu lancei sozinho. fiz uma dívida gigantesca, agora tô viajando pelo país pra divulgar o livro e tentar recuperar a grana. eu já lancei vários discos sozinhos então lançar um livro sozinho é moleza. fiz tudo sozinho: livro, site, entrevistas, diagramação, tudo. 

e no site você abriu pra receber depoimentos de pessoas que viram os shows da banda. pretende usar esse material futuramente?

já usei, mas pouca gente mandou. acho que a informação não circulou. e isso também me mostrou um pouco sobre a imprensa. ela nunca olhou direito pro underground porque o jornalista (e eu sou jornalista também) tem uma deficiência mental clássica que é de achar que eles tem que escrever sobre o sucesso para o consenso. entende o que eu digo? é por isso que a imprensa musical brasileira é um fracasso. na inglaterra e nos outros países eles olham pro novo, no brasil eles não olham pro novo. eles olham pro… sei lá

jarmerson: é aquele paradoxo: eles vão atrás do que tá bombando, mas o que tá bombando um dia já foi novo. só que eles não vão atrás disso aí, vão atrás do que já tá pronto. então não vai encontrar nada novo, vai ficar sempre naquilo. vai ficar no “eita, já teve um abalizamento, já teve um aval”: pronto, agora a gente fala. mas antes não merece ser falado. é um absurdo.

é porque eles são preguiçosos. nós, jornalistas, somos preguiçosos. não só preguiçosos como a gente trabalha em veículos que são ridículos, horríveis. e você vive num formato de trabalho que você tem que fazer dez matérias por dia sem efetivamente pesquisar e prestar atenção em nada. então não é com a imprensa musical que o underground tá preocupado, o underground não tá nem aí pra imprensa musical porque ela não serve pra eles. o jornalismo serve pra reescrever consenso. entrevistei todos esses músicos e eles só respeitam um jornalista. um.

o fábio massari?

é. só, mais ninguém.

mas ao mesmo tempo tem essa coisa da crítica se reiventar. de forma fragmentada, não em grande mídia, mas blog pequenos. assim como as bandas, é gente que escreve também por paixão sem ganhar nada por isso. é muito difícil falar de crítica no brasil. critica de arte é muito raro. ainda mais musical. inexiste.

mesmo fora da mídia tradicional?

existem pessoas bem intencionadas escrevendo sobre música. mas daí a chamar de crítica… assim, eles tem muitas opiniões. mas são opiniões. o problema é que o formato tá viciado numa coisa de buscar frases de efeito pejorativas ou elogiosas que tá muito desgastado. eu acompanho muito a imprensa. tento ler bastante mas faz anos que eu não leio um texto de crítica musical que realmente a pessoa tenha mergulhado numa obra e olhado pra aquilo pra tentar perceber coisas de estetica. parece que nenhum jornalista jamais leu livros básicos sobre critica de arte. é a impresão que dá. é tão inexpressivo que eu sempre acho que tô perdendo meu tempo falando com jornalista. essa que é a verdade. os blogueiros mais famosos são ridiculos.

como foi a decisão por esse formato de história oral? na hora me veio o mate-me, por favor na cabeça.

o mate-me por favor  é uma referência, mas não só ele. tem também o livro do bob dylan que é muito bom porque, quando ele decidiu escrever sobre a vida dele, ele fez crônicas em que ele pega três momentos da vida dele que ele achou interessante e convida as pessoas a entrar na história a partir daquele determinado ponto. não é assim: “eu nasci, com três anos de idade eu comecei a gostar disso daquilo etc. ele já convida a pessoa a entrar no meio da vida.”

acaba ficando chato narrar a vida toda, né?

sim. isso é muito importante no rcknrll porque as biografias em geral elas são muito chatas. é diicil ter biografia boa. então eu quis convidar as pessoas a entrarem na história de algumas das bandas a partir de momentos que eu achava bastante simbólicos da vida desses artistas. em alguns dos capítulos, começa já dentro de shows porque algumas dessas bandas do underground brasileiro fizeram shows muito memoráveis, selvagens, intensos, viscerais. registrar isso é muito importante.

teve algum show especialmente marcante pra você?

eu nunca me esqueço do impacto que teve em mim o primeiro show que eu vi do pin ups. até então eu só tinha ouvido música esquisita e barulhenta daquele jeito em discos importados. e quando eu pude ver ao vivo, brasileiros, gente aqui da nossa cidade, fazendo aquele tipo de som, abriu a minha cabeça. foi em 1992, no retrô, em são paulo. é o primeiro show que eu descrevo no livro. foi um show muito bacana, muito intenso, muita energia. e é difícil hoje pra gente ver um show desse jeito se não for no underground porque as bandas que fazem sucesso, as bandas comerciais, são muito água com açúcar. elas são de mentira quase. não tem essa visceralidade, essa energia que tinham as bandas do underground. as bandas do underground brasileiro são muito loucas. os caras fazem o que querem, fazem o que fazem sem tá nem aí se vai vender ou não, se vai tocar na rádio ou não. ao passo que tem outras bandas que ficam escrevendo música pra virar trilha sonora de comercial. é deplorável isso. e algumas bandas brasileiras não, fazem o que querem porque acham que aquele é o melhor som. é muito bom que existam bandas assim.

é legal você pegar essa coisa dos shows porque me parece que o underground é fundamentalmente show, muito mais do que disco.

sim, o show é muito mais que o disco.

e eu penso até nesses shows pequenos, como o de hoje e o que você falou do pin ups, mais do que um festival — pequeno ou grande.

os lugares pequenos são os que fazem o underground acontecer. os melhores shows são os shows pequenos. esses shows grandes às vezes a banda tem que passar o som muito rápido, fica uma bosta. geralmente as bandas não ficam muito contentes com os shows em festivais. da mesma forma como também não ficam muito contentes quando elas vão pra estúdios caros fazer gravações porque os técnicos brasileiros não conhecem a linguagem correta pra gravar determinadas bandas. a história do underground brasileiro tem muito disso das bandas ficarem frustradas, gastarem uma fortuna com estúdio mas não ficar um resultado bom porque o técnico. ou quem mixou, quem masterizou, não conhece a linguagem que tá sendo proposta ali. agora a situação tá bem melhor porque ficou muito mais barato gravar então as bandas tem muito mais controle sobre o que elas tão fazendo.

tem essa coisa do estúdio soar profissional demais, muito limpo e aparar a espontaneidade da banda. quando eu conversei com o benke ferraz, do boogarins, ele falou disso que as bandas as vezes se preocupam tanto em soar profissional antes dessa espontaneidade.

é, exatamente. é muito diferente você entrar no estúdio, com dinheiro contado, tentando gravar um disco bom olhando pro relógio, com um técnico que não entende nada da sua linguagem. e outras bandas que gravam em casa com equipamento tosco e sabendo o que querem. é totalmente diferente. no livro tem um pouco isso, algumas bandas frequentaram estúdio, outras bandas gravaram no quintal — caso do lê almeida, que grava de qualquer forma mas ele tem controle sobre o jeito que ele grava. o butchers orchestra também fez muito isso, gravou do jeito que dava.

você tinha comentado que pretende fazer um segundo volume do livro. vai rolar?

vou fazer. vai ser com uma abrangência mais nacional. a minha ideia é meio que mapear o rock independente. eu falei muito de são paulo nesse primeiro volume, um pouco do rio e brasilia. no próximo quero pegar o nordeste, goiana e o sul.

e já pode dizer as bandas?

mais ou menos. uma é o jupiter maçã. vou escolher uma banda de goiana porque quero contar a história da monstro discos [selo de goiás]. e tem uma banda aqui de pernambuco que eu quero falar: a quarto astral, que é uma banda muito boa. e tô vendo o resto.

atualização após a morte do júpiter: você já havia feito a entrevista com ele?

não fiz a entrevista com ele, mas vou escrever o capítulo de outra forma

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