Entrevista: Vermes do Limbo encontra Bernardo Pacheco em “Berne Fatal”

da criação da banda em 1996 em uma espelunca de marília (sp) até firmar suas bases em são paulo, o vermes do limbo já acumula 21 anos de estrada. o duo formado pelo baterista guilherme pacola e o baixista vinícius patrial, o cebola, desenvolveu uma espécie de música-estilhaço: histórias desfiguradas, flashes confusos do mundo caótico, fragmentos desnorteantes cheias de quebras rítmicas.

a vermes mantém o pique em berne-fatal, seu novo disco, lançado em parceria pelos selos qtv e malware. definidos como “uma cozinha aberta”, aqui a banda conta com a participação de bernardo pacheco (produtor musical, guitarrista do elma e um dos membros da recente versão big band do test), que por meio de overdubs inseriu sua guitarra em cinco composições da dupla e tocou junto com ela em uma sessão de improviso — da qual foi originada as faixas instrumentais bernes.

o disco sai também em fita k7. o lado a contém bernes do limbo. no lado b estão dois eps anteriores: vrmsxx (11 faixas espremidas em oito minutos e concebida como uma ópera) mais hotel (uma improvisação com (o quase-membro da banda) fábio fujita na guitarra, rob sanches no sax  e nick smith nos efeitos, gravada em 2014 no hotel bar, em são paulo). o lançamento será marcado com um show nesta quinta-feira (20) na audio rebel, no rio, com abertura do crusader de deus.

ouça abaixo berne-fatal / vrmsxx + hotel e leia a entrevista com a banda:

vocês sempre comentam que a limitação técnicas enquanto instrumentistas deu liberdade ao estilo da banda. pode falar melhor sobre isso? talvez dar algum exemplo de como isso funciona na elaboração das músicas…

a limitação técnica instiga ser criativo e trabalhar uma linguagem. como músicos praticamente aprendemos a tocar e compor juntos ao longo destes 21 anos, para permanecer tanto tempo dentro dessa suposta linguagem tomamos cabo de apurar e explorar isso ao máximo. as músicas não têm regras, podem sair de uma lembrança rítmica, uma jam, um erro, de um outro som que te inspirou, ruídos das ruas.

desde o início o punk tem na duração das músicas uma característica importante. ataques certeiros, curto e grosso — como a máxima “29 minutos, 14 músicas” sobre o primeiro disco dos ramones. e isso vai ficando mais extremo no grindcore e por aí vai. mas o vermes me parece ter uma relação especial com essa questão porque não são só músicas curtas e rápidas, mas desde o primeiro álbum as músicas são como fragmentos, uns estilhaços, cheias de quebras rítmicas. é uma visão fragmentada e perturbada de mundo. vocês também tem essa percepção? como isso foi se construindo?

quando começamos a tocar frequentávamos a mesma praia surfando onda diferente. as influências se sintonizaram, começamos a fazer colagem de ideias para compor, sabendo o que não queríamos e as referencias aprecem como um sampler inconsciente. os vermes sempre foram simpatizantes do caos, da busca pelo instantâneo, da parada abrupta, do efêmero, urgente.

queria saber um pouco mais sobre o ritmo, que acho uma das coisas mais interessantes no som do vermes. é cheio de quebras e com uns compassos doidos. como vocês chegaram nesse som? tiveram alguma influência específica nesse quesito?

o lance sempre foi inventar, ser curioso, aproveitar o laboratório…

 

 vermes com bernardo pacheco

sobre o lado a do k7: o bernardo pachecou comentou que vocês deixaram um espaço nas músicas para ele colocar a guitarra. pode explicar melhor como vocês pensaram estes espaços? pergunto porque o som é muito coeso e orgânico, não parece nada que ele está tocando como um overdub.

fazia algum tempo que estávamos combinando de registrar uma sessão em estúdio. quando os horários bateram tínhamos 5 composições na agulha para um ep que se chamaria fatal. somos uma cozinha de portas abertas. o bernardo captou o espirito e encaixou de forma orgânica os overdubs de guitarra. no dia registramos essa leva de sons só com baixo e bateria e no fim o bernardo ligou a guitarra e fizemos uns 30 minutos de improviso e brincamos que o nome da banda poderia ser bernes do limbo, por isso berne. ficamos com as cinco músicas compostas e sete improvisações que virou o disco berne-fatal ,que é o lado a da fita.

como/quando vocês conheceram o bernardo e a partir de que momento ele começou a tocar com vocês? pretendem manter a colaboração?

o primeiro contacto se não me engano foi em 2010, quando participamos do mao mtv que foi gravado na fábrica de sonhos, estúdio do bernardo. já nos identificávamos com as guitarras que ele fazia no elma e na primeira o oportunidade começamos a fazer shows de improviso e sempre que possível faremos um barulho, com certeza.

no release do disco, comenta-se que o lado a tem “5 composições onde 4 de certa forma refletem um período sinistro do país fatal”. fala mais sobre isso. como seria esse período e como eles estão refletidos nas músicas?

no caso as quatro composições falam de um período sombrio do país, acompanhadas daquela vontade de gritar entalada na garganta. esses caras aborda o aspecto colônia, exploração e amor. fata-fatal além da palavra golpe fala de tapa na cara e monstros de terno. negócio, são esquemas, acordos, corrupção, se dar bem. sai do ar está relacionada com a influencia dos meios de comunicação e como isso reflete na massa.

numa entrevista de 2015 vocês diziam que “o importante é lançar um trabalho por ano”. por que esta meta?

poderia ser até mais. talvez essa sede venha pelo hiato que tivemos de alguns anos… uma forma de mostrar que estamos na ativa registrando as ideias. não é bem uma meta, sempre que terminamos uma leva de músicas, gravamos, parimos e divulgamos nos desperta uma vontade de deixar isso para trás e começar novas musicas.

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