Entrevista: Siba, maracatu, baile solto e tradição viva

em 2014, a secretaria de defesa social de pernambuco, através da polícia militar, interditou um sambada da nação de maracatu da cambinda brasileira, um dos grupos mais antigos da zona da mata norte do estado. instalava-se uma nova lei de segurança pública que determinava que as sambadas de maracatu deveriam terminar às 2h da manhã. um toque de recolher que desmantelava uma tradição de mais de um século, já que a festa segue até o dia clarear numauma disputa entre as nações, que buscam chegar no limite em um duelo de improvisação poética. é até mesmo um sinal de fraqueza e vergonhoso para o mestre mencionar em seus versos o fato de que o dia está amanhecendo.

a ação do governo levantou uma série de nós sobre a política cultural e de segurança pública em pernambuco, sendo o racismo e higienização social os seus principais motores. os músicos siba, maciel salú e mestre barachinha e a advogade liane cirne lins (também professora da universidade federal de pernambuco e militante do grupo direitos urbanos) ergueram-se em resistência à repressão e censura aos maracatuzeiros, entrando com uma representação civil no ministério públicoe, ao final, conseguiram revogar a lei.

eu comecei a pesquisar toda a história do “toque de recolher” imposto aos maracatuzeiros no início de 2015, um ano depois do ocorrido, junto com guilherme ziani, colega do curso de jornalismo da ufpe. pouco depois de termos começado o trabalho, siba coincidentemente se apresentou no projeto excentricidades, um espaço pequeno e intimista, na verdade um loft no antigo edifício pernambuco, importante ponto cultural no centro do recife. falamos com siba sobre o nosso interesse em fazer uma pesquisa acadêmica sobre o caso (a relação entre cultura popular e a estrutura do estado; o tratamento da mídia sobre culturas populares) e marcamos uma entrevista, que ocorreu pela manhã, na casa da mãe dele.

entrevistamos vários outros maracatuzeiros em nazaré da mata, o trabalho acabou não saindo –sairá, até ano que vem, esperamos. mas essa longa conversa com siba dá uma dimensão de toda a problemática que é fundo e ao mesmo tempo uma problemática estrutural muito maior ao caso de 2014. na época, siba estava prestes a lançar o álbum baile solto, quase inteiramente permeado por ideias e questões presentes nesta entrevista.

qual o seu envolvimento com a nação estrela brilhante e com outras nações de maracatu da zona da mata?

o estrela brilhante é o maracatu do qual eu faço parte, quase desde a fundação. em 2001 eu fui morar em nazaré da mata e no ano seguinte eu entrei, junto com o mestre barachinha naquela fase. eu continuo fazendo parte, embora não tenha mais nenhuma função específica. é a minha turma.

essa repressão já acontecia antes ou esse caso de 2014, do “toque de recolher” às 2h da manhã, foi algo pontual?

isso foi um dano colateral. dano colateral do pacto pela vida [programa de segurança pública criado pela secretaria de defesa social em 2011]. no meu entendimento não houve intenção do governo do estado nem da polícia de acabar ou de reprimir o maracatu. tinha toda uma política maior, de segurança pública mesmo, que é direcionada à população mais pobre, e a criminaliza ainda mais. uma das ações do pacto pela vida é fechar bar mais cedo, botar pobre mais cedo pra casa, responsabilizá-lo pela violência. e o maracatu acabou entrando nessa, como dano colateral.

foi acontecendo aos poucos: começou em glória do goitá, que é uma região onde realmente os maracatus tinham uma relação mais conflituosa entre si — e a gente sempre entendia que é uma relação específica, de um contexto específico do lugar. mas aí foi se espalhando, até que chegou a nazaré da mata, onde ninguém imaginava que alguém teria a coragem, a arrogância de proibir o maracatu. e o auge foi exatamente o ensaio da [nação de maracatu] cambinda, em que foi feita toda uma prática de coerção, de fazer o maracatuzeiro assinar um documento ilegal de que teria de parar às duas da manhã. no caso da cambinda, a polícia militar manobrou uma situação e o [mestre da maracatu da cambinda] zé do carro teve de assinar um termo de ajustamento de conduta (tac), que é um documento muito mais sério, em termos de responsabilidade. aí já foi realmente o auge da coisa, e por sorte conseguimos uma mobilização, uma visibilidade boa.

como você entende o “racismo institucionalizado”, abordado na representação ao ministério público? como isso funciona na questão dos maracatus?

não é só o preconceito como a gente entende toscamente, da cor e tal. é, aliás, muito mais sério, mais profundo, porque ele é meio invisível. é o desprezo, o ódio, o preconceito a tudo que de alguma forma tenha algum traço dos menos favorecidos, e aí com certeza tem a marca da cultura do negro no brasil. então é algo muito mais sério, é mais complicado de você perceber, discutir. mas não deixa de ser racismo, no fim das contas. nossa denúncia foi baseada muito nisso. o fato de o ministério público expedir uma recomendação favorável à nossa denúncia talvez seja um caso nível inédito em que o estado o reconhece [o racismo institucionalizado].

como começou a organização e a resistência contra a implantação do toque de recolher?

infelizmente, não houve resistência — falando de maneira geral, em relação às lideranças do maracatu de baque solto. a situação veio se intensificando, não houve voz de questionamento, por conta da situação de dependência muito grande que há do maracatu de baque solto em geral com o governo do estado. então dá pra dizer que o maracatu foi cúmplice de sua própria situação. a própria instituição que representa o maracatu de baque solto [associação dos maracatus de baque solto de pernambuco] praticamente representa o governo do estado de pernambuco. então, não tava tendo resistência nenhuma e só aconteceu naquele momento pelo fato da situação ter tido uma visibilidade muito grande, em mídia local primeiramente. quem articulou essa resistência foi um grupo muito pequeno: eu, mestre maciel salú, mestre barachinha com a ajuda de liana cirne [advogada, professora da universidade federal de pernambuco e militante do grupo direitos urbanos] e depois um grupo pequeno de pessoas que também ficou ao redor. a verdade é que não houve uma grande resistência, não houve uma grande articulação. eu lamento pra caramba isso. ao mesmo tempo acho que sou obrigado a falar, porque acho que é um momento do maracatu de baque solto pensar como isso foi possível, por que foi possível e que posição ele quer tomar em relação à posição de opressão que ele ocupa e que continua ocupando, na verdade. essa foi uma pequena vitória, mas a situação é mais complexa e precisa de mais reação.

os maracatuzeiros já estão olhando e analisando esse caso como um exemplo a pensar a comunidade cultural do maracatu?

não sei. eu não tenho como avaliar, não tenho elementos pra dizer que sim. eu não fico em pernambuco novamente com mais intensidade desde o começo do ano, então ao longo do ano ficou difícil de saber. eu vim aqui e conversei com as pessoas, mas é apenas aqui, circulando dentro do maracatu, que você percebe. não tem grandes sinais de que essa situação levou a alguma mudança, mas é difícil ser categórico porque o maracatu é uma comunidade muito grande, são cento e tantos grupos e eu não circulo, não vivo dentro de maracatu o tempo inteiro. vou aqui e acolá numa festa e noutra. acabo circulando no meio das mesmas pessoas, dos meus amigos. é difícil para eu avaliar, não sou um pesquisador que tá ali vendo tudo.

e tem uma geração nova, que começa a ser mais ativa de uns anos pra cá. é a geração que botou o maracatu no facebook há um ano, muito recente o processo e que ainda não necessariamente se constitui liderança. é gente que tá começando a assumir lugares. mas tem uma mudança grande acontecendo, e que vai se efetivar em alguns anos. não sei pra que lado vai, mas eu tenho muita esperança. porque a geração que está agora, mais de frente, é a geração que viveu a mudança do momento em que o maracatu vivia em estado de completa indigência, em que era completamente marginal e que acontecia como uma forma cultural isolada. a geração que articulou a adequação do maracatu a existir na sociedade e a formação da associação, que foi [mestre manuel] salustiano, mestre batista [severino lourenço da silva; ambos já falecidos]. uma dessas adeaquações foi uma opção consciente de abrir mão do lado mais violento do maracatu. e essa geração chegou nesse momento agora, essa série de concessões chegou numa encruzilhada cheia de limites, e que tem que lidar com um nível muito alto de preconceito, de rejeição. o maracatu não será aceito como uma cultura viva, original, que é. ele vai ser vistoo somente como uma coisa do folclore, uma coisa do passado, que tem que permanecer rígida e entendida como ingênua, como rude. ninguém vai abrir mão do preconceito em torno do maracatu muito facilmente. e esse processo de patrimonialização que aconteceu recentemente só contribui pra isso, na verdade. eu percebo pouco entendimento disso no meio dos maracatuzeiros, dessa geração que eu falei. mas tem uma turma nova, que tá na internet, que tem a opção de se informar melhor e discutir de outra forma e que eu tenho esperança que faça.

mestre anderson miguel, da cambinda brasileira, um dos nomes da renovação do maracatu de baque solto

essa forma de repressão pode ter sido uma forma de coagir os maracatus a se gentrificarem, higienizarem, tornarem-se parte da cultura comercial rentável do governo do estado?

existe um movimento paralelo de apropriação do maracatu enquanto produto, por parte do próprio governo do estado, claro, que investe dinheiro no maracatu e usa a sua imagem para promover turismo, pernambuco como um lugar rico culturalmente e tal. é uma forma de apropriação que eu não necessariamente condeno, mas que tem sempre um jogo de forças nisso aí, faz parte. a outra é dos municípios da zona da mata norte de usar o maracatu pra se promover e usar as festas de maracatu como um fator político favorável para si apenas. isso acontece em todas as cidades da mata norte, mas nazaré da mata é talvez onde isso se coloca em um nível mais forte, porque o governo já botou uma mão mais pesada lá, chegando a construir uma grande praça e um sambódromo pro maracatu. então os eventos de maior porte realizados pela prefeitura e produtores que fizeram eventos lá com incentivo não tiveram problemas de limitação de horário. então em algum nível os empreendedores, os realizadores da área de cultura que agem na mata norte, ou seja os municípios e os grandes produtores de eventos, foram coniventes com a situação de repressão e inclusive muitas vezes se beneficiaram dela. mas eu não acho que a repressão tenha a ver com tentativa de adequação maior ou menor. eu acredito que o governo do estado fez pressão pra  que todos se adequassem a uma política, pra eles mais importante, de segurança pública. e o dinheiro não deixa de ser um “cala a boca”. não é à toa que quando a gente denunciou uma situação e que no primeiro encontro com a promotora, o presidente da fundarpe levou uma conta mostrando que o governo investiu x milhões no maracatu ao longo de tantos anos. é uma mensagem clara dizendo “ó, vocês tem que ficar quietos, calados”.


“o maracatu não será aceito como uma cultura viva, original, que é. ele vai ser visto somente como uma coisa do folclore, uma coisa do passado, que tem que permanecer rígida e entendida como ingênua, como rude”

e qual foi, na sua visão, a recepção do público e da imprensa sobre essa denúncia ou resistência?

a imprensa escrita só deu a primeira notícia, de forma até correta, mas depois abafou completamente. e quando ela colocou o assunto sempre foi de forma pra confundir, trocando e omitindo principalmente os protagonistas da ação, mudando de lugar as coisas, confundindo bastante. e a televisão simplesmente ignorou, não houve pronunciamento, nenhum tipo de presença nas tvs.

e do público?

em relação ao público, a gente acaba girando e voltando pra aquele ponto do que é, no meu entendimento, o gerador de uma situação como essa, que é o racismo, no fim das contas. ele é também o institucional, aquele que o governo usa o aparato de força pra reprimir e controlar, mas ele é um que todos nós compartilhamos em algum nível, que é aquele onde você é incapaz de aceitar a possibilidade de que uma população mais pobre seja capaz de elaborar uma cultura rica, inteligente, dinâmica, atual e até futurista se você for olhar mais de perto. de uma maneira geral, mesmo as pessoas que se orgulham de sua “pernambucanidade” e que dizem que amam o maracatu, elas não são capazes de aceitar que o maracatu é algo avançado, no sentido de ser inteligente, rico e dinâmico, algo a que você deve olhar com respeito, mas sim como algo folclórico, tradicional.

claro que eu conhecia preconceito com a cultura popular de longa data, mas a percepção dessa relação íntima com o racismo surgiu para mim muito com esse caso da polícia, de lidar com essa situação. é a naturalização da situação de opressão que é a mesma naturalização que, num extremo, faz com que achemos normal ver pessoas amontoadas num presídio com o triplo da capacidade e que a polícia chegue matando no subúrbio. a gente normaliza essas coisas. a gente convive com isso no dia a dia, de vez em quando aparece na televisão, no jornal e a gente acha que isso é normal. essa normalização está muito ligada a uma situação de ter acontecido a escravidão no país e não ter sido bem resolvida e de lidar com essa diferença em que o negro é sempre o mais pobre. toda essa normalização tem muito a ver com isso. e o fato de escondermos isso, como o mito da democracia racial e que tá tudo bem, no brasil não tem racismo. então é “normal”, o negro é quem a polícia mata, é quem tá levando bacolejo” [abordagem policial], é quem tá lotando o presídio etc. claro que não se trata da questão só do preto, da questão da pele, porque extrapola. tem a ver com cor da pele e tem a ver com a segregação mesmo de maneira geral. você não precisa ser preto pra brincar maracatu, mas se você brinca consequentemente já é preto.

você acredita que publico seguiu essa tendência exposta pela mídia?

acho que de uma maneira geral… é o senso comum… se entende que as pessoas só “queriam fazer uma festa”. e só se aceita a possibilidade dessa festa se manter por conta da importância minimamente aceita que o maracatu tem pro estado. pessoas aceitam que o maracatu de baque solto é importante, e aí são capazes de questionar uma proibição como essa. mas a dimensão do quanto que isso foi criminoso ou do quanto que isso foi uma ação de extrema arrogância e violência, isso a maioria das pessoas não percebe. precisaria ter uma voz muito mais incisiva de resposta, de negação por parte dos maracatuzeiros e isso não aconteceu de jeito nenhum. até porque é impossível pra quem não faz parte, pra quem de alguma forma não compartilha com uma cultura minimamente similar com o maracatu. por exemplo, alguém que faz parte de terreiro de candomblé, esse entendeu, porque ele faz parte de uma manifestação que também sofre preconceito e repressão em nível altíssimo. e ele também sabe a importância da festa não só como momento de diversão, mas também de encontro e de sublimação através da música, da dança. quem vive isso entendeu essa violência. quem não vive, entende a coisa em termos de festa, tradição, cultura, folclore, divertimento, etc. e aí não tem a dimensão total.

as pessoas de dentro, envolvidas com o maracatu entenderam a dimensão da repressão. mas também entenderam a dimensão do fato político e da necessidade de reação?

eu não sei te falar com segurança, pois essa naturalização da violência, da repressão, da exclusão, ela também atinge a própria pessoa na condição de reprimido. as pessoas estão acostumadas com o “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. então essa proibição da polícia foi chegando muito naturalmente, porque se dizia “é uma nova ordem”, vem de cima e quem aplica é a polícia. as pessoas entendem essa linguagem muito fácil, não precisa discutir, tanto é que foi acontecendo, sem resistir muito. é claro que, principalmente maracatuzeiros mais velhos, sentiram essa situação de uma maneira mais profunda, eu acho. os meus amigos mais próximos tinham uma revolta… bateu num lugar muito…  porque o maracatu… é difícil até de explicar, é um troço que sai no carnaval, tem a ver com carnaval… mas o ensaio no barraco é uma coisa que tem muita importância pro maracatuzeiro, tem uma importância local e pessoal. é o cara no bairro dele, com o grupo dele em relação à cidade e as pessoas ao redor. tem uma importância social muito grande. comparando toscamente, é como o cara que precisa sair com o carro, trocar de carro todo ano, como ele se veste… esses signos sociais –e estou fazendo uma péssima comparação [risos]. mas são os signos que você usa pra se comunicar e se colocar socialmente. nesse meio o cara tem o maracatu e ele ocupa uma função, um lugar no maracatu em que ela se apresenta visivelmente no ensaio do barraco, em que as pessoas vem visitar e bebem ali e conversam, dançam, pulam, brincam. e de repente ele se vê numa situação de ser réu e a polícia vem parar a festa dele que acontece há mais de cem anos e de repente tem que parar às duas da manhã. então, claro, o maracatuzeiro sentiu. mas essa “ordem”, ela vem de um lugar já tão fortemente estabelecido de que é o “certo”… e são pessoas analfabetas ou semi-analfabetas, elas possuem poucas ferramentas pra questionar a “nova ordem”, “a lei”. qual é a ordem? qual é a lei? o que tem na lei?.

o governo se baseando numa lei de grandes eventos, que se aplicaria pra um caso de festa com mais de mil pessoas, mas a grande maioria das sambadas de maracatu não chega nem à metade disso. só uma sambada muito grande, de mestres conhecidos pra juntar tanta gente, mil dois mil. mas um ensaio de barraca não chega nem à ¼ disso. juridicamente, não tinha embasamento nenhum… mas voltando à pergunta: o entendimento é muito difuso e complicado mesmo por parte do maracatuzeiro.

depois de toda briga o toque de recolher foi revogado. para você, a que se deve essa vitória?

eu acho que a aparente vitória, na verdade, foi uma derrota. porque a articulação do maracatu de baque solto foi muito rudimentar, fraca, solta, débil, não tendo uma representatividade massiva, coletiva. foram uns gatos pingados que se articularam, ganharam visibilidade e formularam uma denúncia pesada contra o governo do estado. se tivesse sido acompanhado por uma mobilização massiva, coletiva, seria algo mais sério. e aconteceu no mesmo momento em que o governo do estado efetivou a patrimonialização do maracatu [pelo iphan]. eu acho que quando ganhamos essa causa, passa uma imagem positiva de que tivemos uma vitória e está tudo resolvido e que o maracatu agora é patrimônio e ele está protegido etc. eu acho que isso tudo é bastante enganoso.

quais são as ameaças hoje?

acho que as ameaças são as mesmas. claro que, pelo menos temporariamente, a polícia não vai vir parar, foi um ganho. o simples fato de termos nos mobilizado e ganhado um causa contra o governo do estado passa a ser um precedente importantíssimo. a partir de hoje, qualquer pessoa sabe que é possível, mesmo que nunca se faça. pelo menos não diga que não é possível. mas o contexto, as forças que geraram a situação, isso continua inalterado. eu frequento maracatu há dez anos e nunca existiu um interesse que partisse propriamente da polícia, foi realmente uma política de cima pra baixo, uma ordem maior. o que gerou isso, já falei, foi essa situação de preconceito e a dificuldade de reconhecer no maracatu algo de “real valor”, não esse reconhecimento condescendente de hoje. esses elementos estão presentes do mesmo jeito.

e acho que o que vem brevemente vem numa forma mais complicada de lidar, que é a complexificação das exigências estruturais para que aconteça um ensaio de barraca – porque o ponto, pra mim, é o ensaio de barraca, que é essa festinha pequena do maracatu sozinha em sua casa, que pra mim é o cerne da tradição. aquela festa íntima, mas ao mesmo tempo aberta, na rua. e a partir do momento em que começarem a complexificar, dificultar a realização disso, aumenta a dependência do maracatu com a municipalidade — o que é uma coisa ruim. hoje já é meio dependente. o maracatu vai fazer uma festa, ele pede o carro de som à prefetura, porque é caro, muitas vezes ele pede a gambiarra e a iluminação também. e em nazaré já tem uma nova situação em que a prefeitura não mais vai ceder iluminação pública pra festa de maracatu. então esse tipo de coisa, como as aplicações da promotoria de nazaré já solicitou aos maracatus que se adaptem à lei dos grandes eventos quando for fazer festa e que teria de ter ambulância, plano de mobilidade, banheiro químico… é burocratização e complexificação. essa é uma forma de repressão que eu acho bem mais séria, porque ela é mais difícil de gerar indignação, pois exige que você conheça muito mais o contexto.

como foi que liana cirne lins chegou até vocês?

ela simplesmente chegou, eu não a conhecia. já tinha ouvido falar do direitos urbanos, mas acompanhava pouco a movimentação. foi muito rápido, na verdade, porque a situação de proibição já vinha acontecendo. em nazaré da mata aconteceu, pra valer, naquele ano de 2013 pra 2014. inclusive teve um ensaio da estrela brilhante onde eu passei a noite conversando com a polícia, tentando encontrar um argumento aceitável para a proibição. eu passei a noite argumentando com o policial e foi quando eu vi que o negócio realmente era sério. e ele mesmo falou: “é uma nova ordem que vai pegar inclusive o carnaval”. o policial já estava com o discurso todo pronto. “agora vai mudar isso aí”. mas sem agressividade, conversando.

ele deu a entender que não era um posicionamento pessoal dele, nem uma ação simplesmente da polícia local.

totalmente. deixou claro que é uma política, é uma ordem do ministério público, é uma política do governo do estado, e agora “é uma nova ordem que vai atingir inclusive o carnaval” (como de fato atingiu) e vem pra ficar e tal. o policial colocou claro pra mim. e eu perguntava: “tá, mas qual é a lei? mas por quê?”, e não tinha uma resposta plausível. esse foi o momento de 2013 pra 2014 em que a coisa chegou a nazaré com muita força e que eu estava assim sem saber muito como mexer com aquilo e como questionar de verdade. eu não tinha um plano estabelecido, até por que eu não sou liderança de maracatu, eu faço parte de um maracatu e ainda assim, como eu falei, não sou presidente, nem sou mestre, nem sou nada. eu faço parte da turma da estrela brilhante. mas foi uma situação que me ofendeu bastante. ao mesmo tempo em que a posição que eu ocupo é uma posição complicada, assim, pesada, por que eu sou uma das poucas pessoas que tinha o poder de articular essa questão, já que a maioria dos maracatuzeiros não tem o poder que eu tive de escrever um texto, de falar com autoridades, de articular alguma coisa. e a visibilidade que eu tenho e a minha relação com o maracatu que sempre foi intensa e faz parte do meu trabalho de um jeito que é indissociável. então pra mim é uma situação impossível de simplesmente aceitar como normal. eu sabia que em algum momento eu ia ter que tomar uma posição enquanto a isso, mas não sabia muito bem como. até o momento da festa da cambinda, no qual eu vi que a situação era realmente inaceitável e que saiu apenas uma notinha no jornal, e foi o momento em que eu juntei alguma energia (e raiva talvez) para escrever aquele texto mais longo e o texto catalisou a atenção.

o texto eu acho que foi o ponto de catalisação e tinha uma situação específica que era o encontro dos maracatuzeiros de nazaré com a promotora [audiência pública]. e aí estavam todos os jornais lá, e foi quando a liana chegou junto. eu estava desesperado porque sabia que não tinha condições de entender a situação daquele momento, não tinha representação legal e nem possuía conhecimento jurídico. eu não tinha noção dos elementos da política e jurídicos envolvidos. então pensei: “caralho, eu estou fodido nessa história aqui. eu catalisei uma coisa então isso me torna uma liderança automaticamente, só que eu não entendo de nada, eu não estou entendendo nada, cara. eu estou perdido”. liana nesse momento foi bem importante porque ela se colocou como uma parceira com a ferramenta necessária do embasamento jurídico. e a gente também teve um entendimento muito bom, imediato de que posição tomar. o maciel salú também, um grande parceiro nessa história, e outra figura muito importante também que é barachinha, pois é quem podemos considerar uma grande liderança no maracatu, uma pessoa que tem uma voz de alto peso. tudo que ele fala as pessoas vão escutar com atenção. e ele representa realmente o maracatu num nível muito profundo, e ele teve a coragem de botar a cara à tapa nessa história, por que era comprar uma briga com o governo do estado que é o grande patrocinador do maracatu.

e realmente o governo bota muita grana no maracatu, não é pouca. são cento e tantos maracatus e os eventos grandes do governo são importantes. essa relação do maracatu com o governo é indissociável, o maracatu realmente depende dessa relação como um todo, o maracatu tem que estabelecer um diálogo com o governo. só que eu acho que ele poderia ser um diálogo, um diálogo mesmo, e não uma relação de concessão simplesmente, de fazer o que se manda. nesse momento o maracatu é controlado pelo governo e pela força. o maracatu nesse momento está a serviço do governo do estado de pernambuco. isso eu acho muito sério. mestre  salustiano fazia também o jogo do governo, toda a política que era necessária fazer. mas ele também dizia não quando era necessário. tenho certeza que quando eles criaram a associação dos maracatus de baque solto não foi pra ela se tornar uma extensão do governo do estado, do psb aqui, como ela se tornou a partir de ariano suassuna, leda alves, eduardo campos e até agora. essa foi uma coisa que se intensificou nessa história mais recente, que é justamente o momento da “‘valorização’ da cultura pernambucana” e do aparelhamento total da cultura popular pelo estado de pernambuco. essa história recente é o débito que essas lideranças deixam pra cultura popular, em minha opinião.

 

 
como você acha que essa experiência reverbera pessoalmente em você? sua nova música, o inimigo dorme já fala muito sobre isso.

pra mim foi um rito de passagem. foi um rito de iniciação, de colocação política. e eu entendo o quanto que faltava desse lado pra mim, por que a relação com o maracatu e com a mata norte foi formadora para mim como artista e como pessoa, isso eu sempre disse a vida inteira e sempre utilizei todas as oportunidades para reafirmar. e sempre tentei usar o meu trabalho, a minha projeção, para de alguma forma agir positivamente em relação a isso, apesar de todas as limitações. mas sempre, por um lado, tinha uma parte dessa mobilização que eu tentei fazer a vida inteira que caía num vazio, a simples valorização estética. isso eu já sabia há muito tempo na verdade, que não adiantava só o discurso ou a prática de valorizar o maracatu esteticamente, embora eu continue vendo e só vejo mais valor na inteligência estética da mata norte, do povo da mata norte. ali tem uma coisa que pra mim sempre foi especial, e quanto mais tempo passa mais eu reafirmo essa força e menos eu questiono. mas a simples tentativa de conectar esse mundo com o mundo fora, que eu circulo e convivo, sempre cai na impossibilidade de você compartilhar uma coisa sem o código devido. ou seja, ninguém nunca vai entender o maracatu do ponto de vista que tem uma vivência dentro dele. a própria poesia, se você não tem uma vivência mínima e um aprofundamento não só intelectual, mas de sentir a coisa do jogo que tem na poesia, da forma, o jogo mesmo. é como ver um jogo de futebol sem conhecer as regras, você vê somente um monte de gente correr atrás de uma bola. então o maracatu é olhado assim: um jogo qualquer que você não entende a regra. e também explicar a regra não é um trabalho que cabe a mim. eu sou artista, não divulgador.

sempre vivi muito esse dilema. sempre que extrapolava o âmbito do maracatu e da mata norte no meu trabalho — que é uma questão mais profissional e também mais pessoal — esbarrava num lugar vazio. e essa situação toda [a crise vivida frente à ação da pm-pe] me ajudou a entender que é impossível, que faltava justamente um posicionamento político mais claro, mais objetivo e afirmativo por conta do meu entendimento, que vem de dentro, de um envolvimento bastante profundo e longo, de metade de uma vida, e de poder olhar de fora, por conta de ter estudado, de ler, de viajar e de conhecer outros mundos. essa posição privilegiada, e ao mesmo tempo o tipo de apropriação que eu fiz do maracatu no meu trabalho, me obriga a me colocar. seria desonesto da minha parte se eu simplesmente tirasse a mão e não me colocasse claramente contra isso que estava sendo feito aqui em pernambuco e continua sendo feito. e o fato de ter assumido essa postura me reposicionou no mundo enquanto pessoa social. hoje me reafirmo de outra maneira. então eu cresci muito, aprendi pra caralho com isso e pra mim foi importantíssimo.

originalmente publicado em 20 de setembro de 2016.

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