“Minha música é minha minha existência”: as tranças de Ava Rocha

Foto: Ana Alexandrino

É comum a crítica cultural mencionar termos como “evolução” ou “amadurecimento” quando fala de um segundo ou terceiro álbum de um artista. Lançado no ano passado, Trança é o terceiro e realmente o melhor álbum de Ava Rocha. No entanto, ele não opera sob uma lógica evolutiva. Não é linha, mas espiral. Um força centrífuga com destino desconhecido e ímpeto exploratório. Acompanha de uma big band de músicos de diversos cantos do país, Ava compõe um novelo que entrelaça toda poética construída nos álbuns anteriores e realiza um adensamento do seu pensamento sonoro, dilatando e transformando as possibilidades da forma canção. Tudo isso temperado por um dos mais impressionantes trabalhos de arquitetura e engenheria de som feito no Brasil na última década, ao lado de Música do Brasil (de Hermano Vianna e Beto Villares), Samba de Gira (Bongar) e Levaguiã Terê (Vitor Araújo).

Há tempos eu queria decompor o álbum. Desfazer a trança e ver os seus pontos nevrálgicos em uma longa conversa com Ava. No dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, ela me recebeu gentilmente em sua casa e conversamos por algumas horas sobre o percusso que levou até o Trança, os seus objetivos, voz, corpo, espiritualidade, cinema (e as influências de seus pais cineastas, Glauber Rocha e Paula Gaitán) e a potência política da estética e da arte.


VOLUME MORTO — Ava, você é filha de um casal cineastas, estudou e fez cinema e atuou no Teatro Oficina. Quando a música surge pra você e quando é que você se encontra com a voz?

AVA ROCHA — Eu sempre tive uma relação muito forte com a minha voz. Desde cedo eu cantava, gostava e tinha uma relação com a música. Comecei a estudar violão com 10 anos, então foi muito legal porque eu começava a tocar e a cantar. eu sempre tive essa relação com a voz, mas eu era muito ligada, muito envolvida com o cinema. E pra mim minha paixão era o cinema. Desde cedo, garota, eu pensava: quero cantar, ser cantora ou qualquer coisa. Mas era algo que eu não tinha como foco na minha vida. Era só uma inspiração, algo no ar.

Mas como foram os primeiros contatos? Tinha um interesse pela música na tua família?

AVA — Formalmente, minha família não é de músicos, mas existe uma paixão pela música na minha família. A minha tia tocava acordeon e violão. Meu pai gostava de cantar, também compôs pros filmes dele e pensou o som de uma forma muito especial no cinema — em nenhum momento foi aleatório, existe um pensamento sonoro no cinema dele. Minha mãe também, sempre teve uma relação muito forte com a música, com questão sonora no cinema. Ela sempre teve um pensamento de som no cinema muito forte. E posso falar da minha tia avô que era cantora lírica e pianista. Ela era brasileira mas morou a vida inteira na Colômbia e fez carreira lá. Foi uma pessoa pioneira na música na Colômbia e uma das maiores professoras de canto na Colômbia. Então, sim, tenho pessoas de música na minha família.

E quando surgiu o interesse de querer cantar de fato?

AVA — Não é querer, eu já cantava, entendeu? Era uma coisa que fazia parte da minha vida. Todo mundo que era próximo a mim sabia que eu cantava. E isso ia irradiando, cada vez mais as pessoas sabiam que eu cantava e me pediam para cantar em rodinha de violão, com revistinha, adolescente. Quando eu fui morar na Colômbia, pegava o violão e brincava, começava a compor. Eu não pensava: “Sou uma compositora”, mas eu já escrevia. Iniciar no meu som e no meu cinema tudo foi um pouco junto. Mas o meu foco profissional, o meu pensamento é todo cinematográfico. Se eu fosse fazer música, era no cinema. Tudo era cinema. E foi assim que eu comecei a fazer música — fazendo cinema. Toda a articulação da montagem, de editar som, de começar a compor, de fazer edição, sonoplastia, enfim, de pensar o som no cinema. Tem uma relação com a minha formação — o meu pai, minha mãe, o cinema que eu ouvia. Formação musical mesmo eu tenho muito pouca. Depois isso foi mudando, mas minha formação musical é através do cinema. Todo esse processo… “Filha da Ira” [faixa de Diurno, seu primeiro álbum] fiz quando eu tava com 22 anos e foi a primeira música que eu fiz e falei: “Compus uma música” — embora eu já tivesse feito na minha adolescência. As músicas ficaram no ar.

Enquanto eu fazia cinema, fazia algumas coisas esporádicas [com música] — por exemplo fui estudar cinema na França, fiz um filme lá e um diretor de Madagascar que estudava comigo sabia que eu cantava e pediu pra eu cantar no filme dele. Pessoas do cinema que sabiam, que me conheciam pelo cinema, me chamavam pela amizade e proximidade. E paralelamente a isso eu fui desenvolvendo as canções. E tem os meus irmãos. O Erik [Rocha] faz parte de toda minha fase musical da Colômbia da gente compor juntos, da gente experimentar coisas. E o Pedro Paulo, o outro irmão, já na fase posterior, eu com 20 e poucos anos, retomando pro Brasil e reencontrando com ele, e ele me ouvindo cantar, e todas as nossas ideias sobre arte, sobre cinema, sobre o que faríamos, sobre ser radical, sobre sonhar, sobre tudo. A gente compôs várias coisas  juntos, com ele me explicando o que era a canção, todos esses conceitos que estavam muito fortes há 15, 18 anos atrás do que era a canção. A gente pensava sobre isso, sobre estética, sobre política — e eu fazendo meu cinema e cada vez cantando mais. Sendo chamada pra cantar e tal.

E em 2006 aí eu entro no Teatro Oficina pra filmar Os Sertões — eu não entro como cantora, entro como cineasta para fazer uma assistência geral de filmagem. Então eu mergulho n’Os Sertões e assim que eu entrei, o Zé [Celso], que já sabia que eu cantava, me pediu para cantar pra ele e falou: “Você VAI cantar! Você TEM que cantar!” e me botou no centro do palco meio que pela primeira vez. E a experiência no Teatro Oficina eu sempre digo que reorganizou a minha cabeça. Porque naquele terreiro eletrônico eu percebi que podia fazer tudo, que tava tudo ligado.

Então era isso: tinha o cinema, o teatro, a música, a espiritualidade, o corpo, a dança, uma série de camadas. Era uma coisa que eu já fazia no meu cinema. Na minha alquimia cinematográfica, na minha montagem, no meu som. Eu já fazia mas era como se esses planos tivesses se tornado maiores e como se eu pudesse vivê-los na carne. Fiquei um ano no Oficina cantando, fazendo cinema também. Fiz um filme lá e sai no começo de 2008. Foi uma experiência muito forte mergulhar no livro, na história, no Brasil, no Zé e no Teatro brasileiro, em mim e tudo. Foi realmente algo muito importante pra mim.

Eu falei disso de “se encontrar com tua voz” porque vi uma entrevista em que você dizia que ouvir o Jards Macalé te conectou com sua voz. Você tinha algum tipo um estranhamento a voz antes?

AVA — Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu cantava e no momento que eu cantasse, não havia momento que as pessoas não ficassem encantadas. Mas, pra mim, cantar não poderia ser reproduzir canções. Então eu demorei pra entender o poder da minha voz, como eu poderia usá-la e o que ela poderia significar. Eu amava cantar, mas era uma questão de entender minha linguagem. Foi um lugar que cheguei a partir da trajetória do meu pensamento, da minha arte. É aí que eu vou aplicando não só a minha voz, mas o meu corpo, minha poesia, tudo junto. Então eu sentia… Mas eu não tinha desespero, como ainda não tenho um foco ligado exatamente ao que seria uma carreira. É mais uma coisa ligada à minha trajetória pessoal mesmo e respeitar isso. Para mim isso é o mais importante. Eu nunca quis botar um objetivo profissional. Eu estava na minha criação. 

E quando você grava o primeiro disco, o Diurno?

AVA — Em 2008 eu volto para o Rio e aí começo o que seria uma caminhada profissional. Eu pensei que aquele era o momento porque eu tinha escrito várias músicas, e tava querendo cantar “Movimento dos Barcos”. Eu conheço o Macalé desde criança e tudo mais, e sempre escutei Macalé em casa. Mas teve um momento nesse processo em que eu tava mais arreigada à emoção de estar cantando. Cantar virou uma necessidade. E foi quando eu escutei o disco do Jards [Jards Macalé, 1972]. Eu tinha 22 anos, por aí, então foi uma percepção diferente do que eu tive quando havia escutado mais cedo. Foi uma revelação para mim escutá-lo. Eu sempre tive muita liberdade pra cantar, então eu tinha um problema, aliás, uma dificuldade: uma timidez porque eu sempre errava as músicas, as letras, ficava insegura, não sabia muito bem. Eu tinha o meu tempo, tinha o meu jeito — era isso que me deixava insegura. E com o Macalé eu descobri que eu podia cantar do meu jeito. Escutando Macalé eu tive a certeza de que eu poderia cantar do meu jeito. E eu me achava parecida com ele em algum lugar da minha alma de cantora.

Eu sempre fui muito apaixonada também pelo Tim Maia e por muitos cantores e cantoras que vão revelando espaços da alma pra você. Você vai se conectando, sabe? Então eu senti isso com o Macalé. Não só pelo canto como também pela música que ele tinha feito. E aí eu comecei a cantar “Movimento dos Barcos” e virou um mantra pra mim, por isso comecei a cantar no meu primeiro disco.

Vamo falar sobre o Diurno. Eu tava ouvindo esses dias e é curioso como é um disco bem diferente do Ava Patrya — e ainda mais diferente do Trança. Queria saber como é que você olha para esse disco hoje. Até porque acho que foi um álbum meio negligenciado — as pessoas falam do Ava Patrya como se fosse o primeiro disco e tal. E qual a importância dele hoje, para você? Em que medida você se reconhece e você se estranha nele?

AVA — Sou a mesma pessoa. É um disco que eu amo de paixão — talvez seja o disco que eu mais gosto até.

Sério?

AVA — Sim, por que não? É um disco totalmente livre porque eu nem sabia o que era canção. Não conhecia ninguém da música e não tava interessada. Eu tava fazendo a minha arte — da mesma maneira que continuo fazendo, só que agora presto mais atenção. Foi um disco que teve muito sucesso, rendeu um contrato com a Warner. Fiz um contrato longuíssimo, de seis discos com eles. Só que naquele momento foi um erro fazer isso, justamente porque a Warner trabalhava de um jeito trancando a internet. E a internet era o lugar onde eu fluía, onde minha música poderia fluir. Então houve uma contradição. E eles não sabiam também como trabalhar comercialmente. Eles não quiseram ou não podiam entender, pelas questões deles, que aquele disco deveria estar na internet e em sintonia com a galera que tava começando a fazer coisas naquele momento — por exemplo a Tulipa [Ruiz], a Karina [Buhr], a Tiê, o Thiago Pettit, Letuce, Do Amor… Tinha várias pessoas naquele momento iniciando um trabalho e eu fechei com a Warner e acho que deu um problema nisso do disco conseguir chegar mais [no público].

Mas voltando: o Diurno é um disco que eu amo e adoro. Eu brinquei quando disse que era meu disco favorito, porque eu gosto dos três. É que nem quando perguntam qual filho você gosta mais (risos).  E eu acho que tem muito do Diurno no Trança. Acho que o Trança, sendo o terceiro disco, tem essa coisa de ser longo, essa coisa de ser trança, mínimo três partes e enfim… Acho que ele contém muito do Diurno — como ele também contém do Ava Patrya e contém o que é só dele. E não à toa eu tô com a cabeça [obra do artista visual Tunga, amigo de Ava, que ilustra a capa] ainda hoje. De alguma maneira, eu tô trançando esses três discos. E como, eu disse, é um disco muito importante pra mim. Antes de gravar, eu fiz 60 shows. As pessoas me chamavam pra fazer show e eu comecei a desenvolver ali toda minha relação com o palco — cantei grávida, durante toda minha gestação. É um disco que me deu muita coisa, então tem uma importância extraordinária. E foi o show que o Caetano foi ver e falou de mim. Foi o disco que me conectou com várias pessoas lá trás.

Capa de Diurno com as máscaras-cabeças criadas por Tunga

Mas sente algum tipo de estranhamento? Porque normalmente quando você produz alguma coisa e olha depois de um tempo…

AVA — Eu gosto mais.

Mas eu não falo de não gostar, falo de se sentir uma distância, algo esquisito.

AVA — Eu gosto mais justamente porque crio essa distância. Parece que é uma coisa nova pra mim. Quando você tá no processo de fazer o disco, você tá sempre escutando ele e tem uma hora que você não aguenta mais. Depois, com o tempo, parece que tá escutando uma coisa nova e aí você reabre a sua percepção sobre você, sobre o seu trabalho.

Quando você começou a formular o disco — o Diurno — você já pensou ele em termos sonoros ou pensou a letra, a voz?

AVA — Eu pensei sonoramente, sim.

E quais eram as diretrizes?

AVA — O disco, por exemplo, tem baixo e tem teclado. Mas isso foi uma coisa depois, foi no momento do disco. Porque quando eu pensei eu não queria bateria. Pode ser uma percussão e tal (mas não uma bateria), violão e violoncelo. Foi o que eu pensei. Não queria bateria de jeito nenhum aí a Nana [Carneiro, violocenlista] e o Emiliano [Sete, violonista] me convenceram a ter uma percuteria, digamos assim. E eu não queria ter baixo, não queria ter mais nada.

E aí eu ia fazer os shows. Estreei no Cinemateque, lindo, lotado. Depois fui fazer uma temporada no Cinema Odeon e terminava o show as pessoas falavam assim: “Cara, muito foda! Não tem baixo, muito bom!”. Aí chegava outra pessoa e falava: “Ava, tem que botar um baixo!”. E eu ficava: “Hum… Não ter baixo é bom ou ruim?” (risos). Eu só juntei as pessoas que estavam próximas a mim e eu não tava pensando em nada além disso. Eu só queria cantar as minhas músicas e experimentar o som com pessoas que estavam loucas para inventar, sem ficar preso a “é canção brasileira ou não é canção”. Tava pensando só em inventar minha música.

Porque a grande questão da tua geração era essa preocupação com o tal “fim da canção”, né? Mas eu queria voltar num ponto: você falou sobre os shows que você fez grávida. E eu vi uma entrevista sua na Red Bull em que você fala que a maternidade foi uma grande experiência pra sua música. Achei isso muito bonito e curioso. Fala mais um pouco, por favor.

AVA — O que aconteceu é que o trabalho com o Diurno começou em 2008 mas, por mil questões, a gente só foi lançar no final de 2011 — 15 de novembro de 2011. E todos os shows que eu fiz grávida foram os shows do lançamento do disco em 2012. O que acontecia? Eu já tava há muito tempo nesse projeto. Fiquei anos fazendo show, gravando disco até que no final de 2011 eu lancei, engravidei e eu já tava pensando em outras coisas. Então, a gravidez me deu isso: falei para mim: “é um momento de mudança”. Tudo bem que demorou, mas não vou ficar anos fazendo esse show. Nesse momento eu decidi romper com a banda, romper com a Warner. Fiz minha gestação, tive a Uma [filha de Ava com Negro Leo] e durante todo esse tempo da gestação e do primeiro ano da Uma eu fui pensando o disco, compondo, reunindo tudo que tinha ficado fora do Diurno, pegando as músicas que eu queria gravar do Leo — porque quando eu conheci o Leo e me apaixonei por algumas músicas como “Você Não Vai Passar” e “Hermética” eu já tava com o Diurno gravado e eu queria gravar essas músicas. E os encontros com outros músicos, com o Leo, com outras ideias, aprendendo, crescendo com a música, deixando de ser tão intuitiva pra ir apredendo, me formando com a música.

Eu comecei a cantar do meu jeito. Quando comecei com o Diurno, todo processo era intuitivo, mas tinha também a ideia de que era importante eu cantar direito, fazer certo e não vacilar. Já depois, nesse segundo passo, quando a Uma nasceu e tudo mais, pra mim era um outro processo, de desprender totalmente a minha voz. Não quero cantar certo, não preciso cantar certo. Vou cantar do meu jeito — mas sempre com humildade, aprendendo. Quando a Uma nasceu eu cantava tanto, tanto, tanto pra ela que eu libertei a minha voz. Aí fiz o disco e quando ela tava com 1 ano e três meses eu lancei. Eu tava cheia de energia, inspiração, liberdade e ela trouxe isso pra mim. E teve todo o processo da Audio Rebel, também.

Como foi a aproximação com o pessoal da Rebel e a cena experimental?

AVA — Porque o Renato Godoy, do Chinese Cookie Poets, gravou minha voz no Diurno lá na Toca do Bandido. E ele falou que tinha uma banda. Eu já tava namorando com o Leo e botei o Chinese [para tocar no som de casa]. E eu adorei! Aí mostrei pro Leo, ele adorou também. Aí fui fazer um show no Odisseia e eu convidei o Negro Leo, o Chinese, e uma banda do Espírito Santo, o Garganta do Sol do Futuro. Chamei essas três bandas, ninguém conhecia mas eu chamei. E foi uma noite incrível.

Antes disso, ele [Renato Godoy] falou pra gente ir na Rebel ver um show deles. Quando a gente chegou lá a gente encontrou o Bernardo Oliveira [crítico musical e curador do selo QTV], que é meu amigo de outros carnavais, do cinema e de Carnaval mesmo (risos). E o Leo também conhecia ele. E tudo começou ali porque eu queria experimentar, improvisar, me conectar. E aquela cena era uma cena que tava totalmente aberta a isso. A Audio Rebel foi criando essa situação e Leo é muito importante nisso porque desde que a gente se conheceu ele tem essa coisa de juntar gente em torno dele. E ele fez o Deixa Queimar, em 2009, um show coletivo que ele me botava também. Eu cantava “Blue Chip”, uma música dele q gravei lá tras. Aí na Rebel ele fez um show chamado Ideal Primitivo, que juntou todo mundo, botou Domenico pra tocar com Thomas [Harres, baterista]… toda a cena, do mais experimental à galera pop. E aí muitos shows, a gente tocou pra caralho. Eu tava atrás do som. Embora não seja musicista, eu sou alquimista do som. Eu fazia muito som na ilha edição, inventava bases, criava músicas editando. Eu tava muito nessa onda também. Eu achava que eu ia seguir esse caminho. Tem todo um trabalho de experiências sonoras e ruídos, procedimentos que eu nunca lancei. Mas o meu disco mesmo foi feito fora desse contexto. Não fora totalmente, mas… O Marcos Campello fez uma segunda guitarra em Ava Patrya. Quem produziu o disco foi o Jonas Sá que até então não tinha tanta interação na Audio Rebel. Até então esse som vivia ali no gueto, sem interesse comercial, zero. E acho que o trabalho que a gente fez lá, tanto do ponto de vista experimental radical como de trabalhar a canção dentro de uma outra perspectiva sonora, esses dois trabalhos, fortaleceram muito o momento que a gente tem hoje. Tanto de um som dito mais experimental ter mais visibilidade e ter mais interesse como de ter nitidamente mais experiências sonoras vindo agora na música brasileira

Quem, por exemplo?

AVA — Há, varias pessoas. Acho que a Maria Beraldo, a Luiza Lian, o Sávio Queiroz com o Teto Preto…. Muita gente…. Boogarins… Não se trata só deles. Tem mais gente. E não sei se eles tinham ouvido falar da Audio Rebel, mas esse tipo de encontro, de sonoridade que tá no ar vai irradiando. E eu acho que realmente a Audio Rebel, à maneira dela, do tamanho dela, tem uma importância muito grande. 

Só que aí comecei a perceber que as músicas que eu queria gravar [para o Ava Patrya] não era bem aquilo. Eu tinha toda essa relação com a música experimental e tal, mas eu tenho uma relação muito forte com a canção.


“Fiz da minha arte o meu caminho espiritual, o meu terreiro. Quando vou cantar é o momento em que eu existo”.


E nas suas entrevistas no lançamento do Ava você já dizia: “O próximo disco vai ser diferente”.

AVA — Porque eu me conheço (risos). E eu sei que, tipo assim, eu sou a mesma pessoa, mas não esperem… É como se você fizesse o mesmo filme pra sempre. Você pega o meu pai, por exemplo: tem o Barra Vento, Deus e o Diabo na Terra do Sol e vai terminar em Idade da Terra. Cada filme é um filme e cada música é uma música. Não tô atrás de um gênero, eu tô atrás de, digamos, atingir a alma da coisa. E isso é bom porque eu consigo amplificar as minhas relações, os meus sentimentos, os meus estados. Não quero ter uma vidinha e fazer a mesma coisa.

Tem muitos artistas que de fato lançam discos muito diferentes um do outro, criando tipo fases na discografia. Mas eles falam desse trabalho como uma coisa de pesquisador, o cara qie quer dominar todos os mecanismos e fazer algo diferente. Isso não me parece que é a tua onda.

AVA — Essa não sou eu, mas eu tô na minha pesquisa. Não é aleatório. Eu não acho totalmente diferente uma coisa que eu faço da outra, eu acho que tem um caminho.

Sim, claro. Mas acho que a tua tônica é acima de tudo uma curiosidade de investigar. E tem uma coisa que tu sempre fala que é a espiritualidade da música. Eu queria entender o que é essa espiritualidade no som, pra você.

AVA — Cara, assim… Eu fiz da minha arte, da minha música e do meu cinema o meu caminho espiritual, o meu terreiro. Eu exercito a minha espiritualidade muitas vezes quando eu tô cantando. Dá para falar isso de várias maneiras.  Por exemplo: quando eu entro no palco, que eu vou cantar, é o momento que eu existo. É o momento que eu entro em contato com a minha existência, com meu poder, com a minha imaginação e muitas vezes eu sinto que eu saio de mim — no sentido de existe uma aproximação entre ritual e invenção. Então o canto para mim é como uma reza. Não importa sobre o que eu tô cantando, é uma reza. E são outras coisas também: é uma reza, um ebó, um pedido, um pensamento. Minha música é espiritual nesse sentido: é minha vida, minha existência.

Não é cantar sobre coisas necessariamente espirituais ou encher de referências espirituais, é que a própria prática já é quase uma liturgia.

AVA — É como eu falei de cantar pra minha filha. Libertar e abrir canais, eu acho. E isso não é uma coisa que eu sei, é uma coisa que eu tenho descoberto. Quando eu começo a falar isso a partir do Ava Patrya foi justamente porque comecei a sentir isso muito forte. Abre canais. Esses canais eu sinto muitas vezes que eu tanto sou ponte — uma intérprete, uma voz que transmite — como muitas vezes eu sinto que recebo. Não é receber um santo exatamente, mas é receber a inspiração, receber a ideia. Então às vezes eu tô no palco e faço uma música no palco porque ela vem, como várias músicas já vieram pra mim. Não é uma coisa divina, não. É só você estar conectado com a sua imaginação, com a sua inspiração. E de repente você tá cantando coisas que nem sabe de onde vêm e também nem sabe pra onde vai. São vários momentos que você conecta com a imaginação, com o corpo e aí vai.

E eu gosto de reunir vozes, de cantar com os outros. Tem duas experiências que eu fiz: o Rito de Explosão, com a Bella. A gente se encontrou nesse campo que é a questão da voz. A gente é muito amiga, eu adoro ela e ela faz parte de toda essa coisa também, dessa família da Audio Rebel. E o outro foi um encontro que eu fiz uma espécie de oficina mas era mais um encontro, uma imersão que eu convidei pessoas pra cantar. Cantar na hora, no improviso, só voz. Uma hora e meia, duas horas improvisando com 10 mulheres — alguns homens, mas prioritariamente mulheres. E foi muito forte, as pessoas piraram. Foi terapêutico. Chorávamos, ríamos… cantar é uma massagem na alma, eu acho.

Comentei aquilo de que você falava de que o próximo disco [depois do Ava Patrya] seria um disco diferente porque eu queria entender como e quando o Trança surge na tua cabeça. Você ganhou o edital do Natura Musical, tinha que fazer um disco e tal, mas acho que ele já tava tomando forma antes, né? Queria saber como você pensava esse disco, a primeira vez que você conseguiu visualizar o Trança.

AVA — É que não teve um dia, tem que contar toda essa história (risos). Todo mundo fala que o Trança tem 35 músicos, mas o Ava Patrya tem 28. Falam do Trança mas o Ava Patrya já tem tudo isso, várias conjugações diferentes com todo mundo misturado. Já tá dado no Ava Patrya e eu adorei, por isso quis repetir e amplificar.

A outra coisa é: quando fui passar pro palco, como é que eu ia fazer? Porque tinha cordas, uma estrutura grande e eu tinha uma realidade e queria ir pro palco porque o palco é meu lugar. O que eu fiz: vou chamar os meus amigos e as pessoas que eu gosto pra caralho — Pedro Dantas, Marcos [Campello], Thomas [Harres], [Eduardo] Manso… E comecei os shows. E durante os shows rolava muito de fulano não poder tocar, então chamava um outro e já nem ensaiva porque a onda do show já era uma coisa assim, digamos, é um terreiro. Você entra, se coroa e toca, porque tudo poderia acontecer. A gente queria saber se o cara podia improvisar. Tocar as músicas era uma coisa menor (risos). E só tinha fogo no palco.

Como assim?

AVA — Os signos. Leão, áries, sagitário… E tinha o Zenícola, que foi fundamental também. Então eu tava me divertindo muito, improvisando. Agora já tô pensando em outro disco. Não sei se disco mesmo, mas tô compondo, tô com sede. O palco tá vivo com show, o disco tá pronto, já foi e eu tô criando. Todo esse processo – viajando com Manso, Leo compondo, fala com um e fala com outro — foi trançando. Aí eu fui percebendo que eu estava com muitos desejos e que tinha conhecido muita gente. E que o Brasil é foda, tem vários compositores fodas, e que eu quero fazer várias parcerias. E porra, o Dinho (Boogarins) tem que tocar com o Sergito Machado (Metá Metá). Vamo trançar, vamo viver e ser feliz. E eu queria liberdade. Eu pensava assim: queria fazer um disco bem popular e um disco bem experimental ao mesmo tempo. Popular nem de pop. Mais denso, mais profundo, no lugar de canções mais complexas.

Complexos que você fala no sentido de trazer elementos diferentes ao universo da canção?

AVA — Canções mais maduras. Mais… Não pop, entende? Acho que tem uma diferença, com o popular indo mais fundo no cancioneiro brasileiro. Acho que o Ava Patrya é, mas acho que ele é um pouco mais sutil. Não sei explicar. Mas eu queria ir mais longe, queria sair um pouco de um certo layout pop.

Que o Ava Patrya tem.

AVA — Que o Ava Patrya tem. Eu não quis entrar, eu quis sair. Ou entrar e sair, não sei (risos). Eu queria era inventar.

Tem várias coisas que você falou que eu quero esmiuçar. Vamo, lá, por partes. Perguntei quando você começou a visualizar porque acho que o Trança tem um trabalho de som, de produção que é fantástico. Acho que é um dos discos mais bem produzidos do Brasil nessa década. Você ouve todas as camadas e de talhes do som mas ao mesmo tempo tem um fio principal que conduz a canção ali. E eu queria saber como foi pra você, que diz que não é musicista mas ao mesmo tempo se interessa pelo som enquanto alquimia, pensar nisso. O seu diálogo com o Manso [produtor do disco] ou se você delegou totalmente a ele.erguntei quando você começou a visualizar porque acho que o Trança tem um trabalho de som, de produção que é fantástico, acho que é um dos discos mais bem produzidos você ouve todas as camadas e ao mesmo tempo tem um fio principal da canção ali. E eu queria saber como foi pra você que diz q não é musicista mas ao mesmo tempo se interessa pelo som enquanto alquimia como foi pensar nisso, o seu diálogo com o Manso ou se você delegou totalmente a ele.

AVA — Eu não tenho muito domínio do som. Até tenho, mas ali você tá com uma equipe, não pode ficar viajando muito. O meu processo é diferente. Se eu for fazer uma produção, não vou ser pragmática. Eu vou ser viajandona, vou ficar delirando, experimentando, sonhando… Eu não tenho pragmatismo. Então nenhum músico, nada no disco é aleatório. Tudo foi muito pensado com o Manso, com o Leo (que é produtor do disco também). E o Manso levantou pragmanticamente o disco e, óbvio, artisticamente também. Mas o que eu quero dizer é que pra gente chegar nesse som, a gente conversou muito.

Mas como eram essas conversas? O que você passava?

AVA — Eu dizia a ele: “Eu quero um disco que seja experimental e popular ao mesmo tempo, que não fique preso a um gênero. Tô com a tendência de fazer um disco longo, quero que seja um disco muito rítmico. Quero que seja um disco espiritual, transcendental”. Porque eu tava já conectando várias coisas, não é aleatório. Eu vinha pensando esse disco a partir do Ava Patrya. Então, eu pensava o que é Ava Patrya India Iracema, esse território que eu falo nos shows e no disco, esse feminino e que é o meu nome, que eu tô falando nas entrevistas… Uma pangeia. Peraí, isso não é nada. Eu quero continuar, quero trançar assim. Eu tava super amiga do Dinho e do Boogarins, da Tulipa, a Iara que é uma super compositora… E aí nisso o Tunga morreu no meio do processo. Aí chego em casa, sento e faço uma música chamada “Pangeia”.

Eu tinha decidido que o disco se chamaria Pangeia, mas depois eu meio que não quis. E o Tunga dizia que ele vinha da Pangeia, né? As coisas foram se conectando. Não é: “ah, o disco tem como conceito racionalmente se inspirar na obra do Tunga”. Não existe isso. Existe uma conexão muito forte entre as coisas: ele ter partido, a gente era muito amigo, foi uma pessoa que abriu muito a minha cabeça na relação da arte, do espírito, da política, fez a capa do meu primeiro disco… Aí ele morre, fiz essa música e parece uma onda de inspiração que tudo se conecta. Então pensei que não ia chamar o disco de Pangeia. Qual seria uma tradução pra Pangeia? Trança. E aí Trança-Tunga. De algum modo saquei coisas na obra dele que eu ainda não tinha sacado. Então ele se torna presente e vai acontecendo isso com o disco também. As pessoas vão surgindo. Esse disco é tipo um terreiro, as pessoas vão baixando, vão chegando. Isso são as camadas, os músicos, e o Manso pensando pragmaticamente. Desde o começo eu ficava: “Tem que ter uma cuíca, uma rabeca. Aí ele dizia: “calma”. E lá no final: “Pô, lembra aquela cuíca? Vamo colocar agora?” Era muita coisa, ele dizia: “Vamo por pedaços”.

Então você já pensava esse wall of sound, essa parede de som com esse grande número de informações musicais.

AVA — Não, fui pensando ao longo e quando entrei no estúdio eu já sabia. Não foi nada maluco beleza, não. Foi um puta trabalho de arquitetura sonora, de conseguir colocar as ideias em prática, de traduzir os meus desejos pro Manso, de confiar e dar liberdade também… De equilíbrio na produção coletiva.

Você falou de ser um disco rítmico e de fato, não só a percussão mas tudo tem muito ritmo. Por que o ritmo foi um fator tão importante pra esse disco em particular?

AVA — Por um lado eu comecei a experimentar muito isso no show. Sempre tive uma relação forte com o tambor. Acho que é um vínculo muito forte da voz e do tambor. E também porque eu enxergava a questão rítmica não só como rapidez ou uma coisa assim dançante, mas eu entendia que o disco tivesse uma pulsão constante e que variasse — quer dizer, uma pulsão que não para mas que muda suas velocidades no transcurso.

Que bonito isso, Ava (risos).

AVA — É, essa é minha onda. E eu falo muito assim com os músicos, vou dando as imagens. Às vezes eles boiam, né? “Toca como se você tivesse descendo um rio” e eles ficam tipo: “Ok, mas toco assim ou assado?”.

O John Lennon dizia pros técnicos de som coisas tipo eu quero que soe como uma oração no topo do Tibet (risos).

AVA — É, a galera entendia. Mas eu vou melhorando cada vez mais musicalmente. Eu falo que não sei nada porque eu tenho que ter humildade, porque eu não sou uma musicista. Mas eu toco violão, componho, experimento se me der um instrumento eu tiro um som, faço minha bruxaria.

Bem, você pensa muito por imagens, as letras do disco são muito imagéticas e tal. E é um disco longo…

AVA — (interrompendo) Eu não acho longo. Acho um absurdo dizerem que é um disco longo. O disco tem 61 minutos, é mais curto que um longa-metragem.

Tá, certo. Ok. Mas deixa eu explicar.

AVA — Para o padrão do mercado é longo, mas todos os meus discos são assim.

Eu acho que ele não soa longo, mas tem muitas faixas.

AVA — Tem muitos discos com muitas faixas!

Certo, mas, enfim: o disco tem muitas faixas e acho que ele é muito bem montado, narrativamente falando. E não sei bem, mas fico com a impressão de que há blocos. Canções unidas tipo em grupos de 3, outras em 4. Isso eu percebo muito com Bárbara, Dorival e Assumpção no final do disco. Aí eu queria saber como você pensou essa sequência de músicas, se a ordem foi de fato uma questão pra você e se isso tem a ver até com o modo que tu entrou na música, trabalhando o cinema e a montagem.

AVA — Totalmente. Até hoje uso o pensamento cinematográfico. Tudo tem uma montagem. Mas depois eu tive um trabalho de montar esse roteiro — a sequencia das faixas. Mas eu pensava muito como cultura de streaming. Ah quer um single? Beleza, vou entregar 19 e você escolhe seu single ao seu gosto. Qual a diferença? Quer escutar, escuta. Não quer escutar, não escuta. Qual a diferença de ter muitas faixas ou não se a gente vive no streaming com milhões de músicas? Na verdade, não pensei tão no sentido “ah o disco pode enquanto disco parecer longo”. Até porque eu imaginava o disco enquanto disco seria o vinil e a escuta seria uma experiência que se tiver no mínimo uma hora eu acho legal. Então eu separei de certa forma os meus compartimentos. Quem quiser remontar a sua ordem em playlist, ouvir duas, gostar de três… Eu pensei nisso, mas fiz uma ordem buscando entrelaçar. Porque isso já foi pensado também ao longo da feitura do disco, que havia espécies de núcleos que eles iriam descruzar  e se cruzar e começar novamente.

Pode falar um pouco mais sobre esses núcleos?

AVA — Por exemplo: começa o disco aí lá na frente vem uma música que amarra o tambor, aí vai criando esse entrelaçamento entre algumas energias que o disco tá trabalhando.

Então esses núcleos são formados por causa do som, do clima, da vibe da música e não necessariamente por temáticas.

AVA — Não, não é por temáticas. Mas uma montagem leva em consideração muitas camadas. E todo o disco leva em consideração muitas coisas. Leva em consideração o Brasil, o cancioneiro… Cara, as músicas são políticas e são poéticas. É muita coisa…. Mas também não é muuuita coisa. Porque quando você fala da vida, se você usa uma palavra como “vida”, você tá falando de tudo. Então são várias camadas que vão atravessando o disco. As primeiras quatro músicas têm elementos que se repetem em outra, que repete em outra, que volta, que retoma… Então não é um disco eclético a meu ver, tão absurdo que vai de um lugar pro outro. Ele tá totalmente amarrado dentro da estética dele. Só que é navegante. Uma trança mesmo.

Você falou sobre o político e o poético. Acho que “Joana Dark” é a faixa mais explícita em termos da poesia ser mais objetiva, talvez. Mas realmente tem essa coisa político poética. Eu vejo isso muito em Continente ainda mais depois da eleição de Bolsonaro, uma música sobre “o nosso pequeno continente, sem gente, sem língua e sem culpa” …. mas eu queria saber de você essa relação poética e política. Como esses campos se imbricam e, sei lá, alguma faixa em particular.

AVA — Em primeiro lugar: o que é política? A política é mais hashtag, mais panfletária. Eu acho que a política é tudo, o próprio corpo. O Trança tem um corpo que é transgênero, que está procurando o próprio corpo, que é político em si porque ele é livre e poético ao mesmo tempo. Poético em que sentido? Do gesto da alma. De você realizar o gesto da sua alma e a partir disso existe uma série de conexões que você vai traçar — é um disco solo e um disco coletivo. São todas essas percepções políticas micro e macro. E isso se exprimindo na música.

Então, por exemplo, “Patrya”: “Pátrya, tu estás maluca querendo obrigar o meu samba canção/ Pátrya, tu não percebe que o meu amor é maior que a tradição”. São músicas que eu acho que tocam o amor e a política ao mesmo tempo. “Lilith” é grande mãe, a primeira mulher da terra, negra, africana, mãe de todas. “Maré erê”: eu abro o disco cantando “eu canto a bala canta, eu canto a bala canta”. Porque enquanto eu cantava na minha casa, a bala cantava no meu ouvido. O que é maré erê? São os erês, as crianças negras morrendo. Então é um disco que tem essa entrega pra essas questões. Uma maré, maré erê e aí a favela da Maré, a minha filha Uma também.

São várias músicas. Aí tem o Tunga: essas imagens da obra dele, o cabelo grudado no meu, a Pangeia, o mundo repartido e aí vem vindo. O disco vem sendo povoado por entidades, por pessoas, por travessias. Sai da “Pangeia” e atravessa o “Continente”, vão atravessando aí a “Joana Dark” ressurge, aí vem a primeira mulher, as crianças, a maré, a “Patrya”, o amor, o sangue, a Bahia, Dorival, Itamar Assumpção, minha amiga Anelis, meus irmãos e amigos tocando junto… Sei lá, não quero ficar explicando mas são as coisas que fico imaginando (risos). “Dorival” é uma música que o Leo teve em sonho. Ele sonhou, acordou e escreveu. E essa música foi a primeira música que escutei do Leo, no MySpace. Quando conheci o Leo, entrei e escutei. Quando eu escutei o Leo pela primeira vez, eu falei assim: “É meu!” Porque nesse momento eu estava procurando os compositores. Quando escutei a composição dele, eu fiquei maravilhada e já quis cantar de imediato.

Auto das Bacantes, minha música favorita do Ava Pátria, é uma composição do Negro Leo. Por outro lado, minha música favorita do Água Batizada [álbum do Negro Leo] é Esferas, uma música sua. Fico pensando nessa troca de informação entre você e o Leo. Parece que um se enxerga no outro. Como que é?

AVA — Acho assim: quando eu conheci o Leo, eu era muito mais intuitiva e muito mais experimental. E ele era um cancionista, era um compositor. Mas o nosso encontro acho que deu uma… Eu me tornei mais amiga da canção, mais dentro da canção, e ele [mais] dentro da experiência. Embora eu já tivesse a canção e ele o experimental, acho que a gente se nutriu muito nesse sentido. Tanto eu amadureci no campo da canção, de compreender melhor conceitos musicais e várias paradas, e ele também de se inspirar no interesse dele da experimentação. Acho que a gente teve essa troca. Embora pensem que eu sou mais cantora-canção e ele mais experimental, na verdade fizemos uma troca. Ele que trouxe a canção pra mim e, na minha percepção, eu levo muito desse olhar pra ele.

Ava, você falou muito da “Pangeia” e no disco também tem “Continente” “Patrya” e antes disso, nas entrevistas sobre o Ava Patrya, você falava sobre uma ideia de território. Essas imagens da teritorialidade é uma metáfora ou você acha que tem uma poética e tem uma relevância pro disco e pro teu trabalho em geral?

AVA — Acho que tem. Acho que está contido na poética do disco.

Do disco em específico ou do teu fazer como um todo?

AVA — No meu fazer como um todo porque eu sou isso. Sei lá, eu sou metade colombiana, morei muito tempo lá, minha família é toda misturada. Eu sou uma pessoa que tem uma religiosidade assim: eu pego tudo que tem de melhor nas religiões. Eu acredito numa terra única, na sabedoria indígena, na ancestralidade. São várias coisas, não é fake.

Não é gratuito.

AVA — Não é gratuito. Tá ligado às minhas experiências de vida, à minha formação, meu pai, minha mãe, à minha origem judaica, à minha filha, meu marido, ao que sou, onde eu vivo, como eu vivo às minhas raízes — venho da Bahia, da Colômbia e da Ucrânia. Meu pai de família protestante só que com vivência nos terreiros, com tia mãe de santo. Eu sou bem umbandista, nesse sentido. Tudo isso é real, mas tá na poesia, é uma coisa que vai atravessando desde o começo, em todos os discos.

Tem uma conexão de faixas no fim do disco que eu queria que você comentasse: “João Três filhos” (que evoca a “Maria Três Filhos” de Milton Nascimento), “Dorival” e “Assumpção”, que evocam Caymmi e Itamar. Em que sentido te interessa fazer essa conexão com a música popular brasileira? Ou nem te interessa?

AVA — Não me interessa. São coisas que fazem parte de mim. E são canções maravilhosas. E eu quero cantar canções loucas, canções lindas, canções impopulares. Quero cantar palavras e inventar minhas palavras. É que eu não penso sobre isso. Eu penso é que eu tô conectada com o meu momento, com a minha vida, com as minhas raízes, com a minha memória, com as coisas que eu vejo do mundo. Meu pensamento é assim e pra mim tudo isso é político. E pra mim existe esse trabalho cotidiano de gerar energia pra você e pros outros, de você reverberar. Minha vida é minha arte e é meu cotidiano.

Político em que sentido?

AVA — Todos os sentidos. Como eu escolho viver, como eu vivo, o que eu faço do meu corpo e como eu faço, como eu ajo diante do mercado, como eu ajudo minha cena musical a criar políticas, micropolíticas, construir cenas, batalhar, colaborar, defender às causas… O que for. Como eu sou contra a opressão, eu tento exercer a não-opressão na minha vida. Não devo oprimir ninguém e não vou permitir que ninguém me oprima. Embora muitas vezes esses lugares ficam tênues — às vezes você é oprimido sim e pode até oprimir alguém. O budismo diz que você não pode querer transformar o mundo se você não tem uma revolução pessoal. Eu acredito muito na revolução pessoal. E acredito que a gente tem sim que se esforçar pra se transformar e reverberar. Isso é política. Até o ponto em que você precisa ter uma relação pragmática e técnica com a política, mas eu exerço minha política através da minha arte. Até agora tem sido prioritariamente assim. As nossas escolhas estéticas são políticas sempre. Quando o Leo faz os discos dele, é um gesto político sobre a arte, sobre a cultura, sobre o mercado, sobre as escolhas dele enquanto artista, os valores de troca, de quanto vale a arte. Tudo isso é política.


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