Entrevista: Aline Vieira sobre o Flores Feias, Meia-Vida e ruído

flores feias é um projeto de aline vieira, co-fundadora do selo curitibano meia-vida (que organiza também os festivais pertube e vela preta). f.:. f:., o álbum lançado em outubro de 2015, parte de riffs mínimos e sombrios na guitarra, desviando-se em transe até a entropia de si —  despossuir o corpo. feitiço: externalizar-se, execrar-se, expelir-se, experienciar-se. 

ainda que um processo singular em relação aos já lançados por aline, flores feias dialoga com outros projetos seus, como excria reverbera, cama desfeita e corpo código aberto. é sempre permeado por uma tensão no limiar eu x outro // dentro x fora que pulsa nos descaminhos do ruído. fluxo descontínuo e não lineare.

por email, aline contou sobre o flores feias, o meia-vida e sua relação com o ruído.

como surgiu o flores feias e qual é sua ideia central? o que o diferencia do excria reverbera, corpo código aberto, cama desfeita e seus outros projetos?

flores feias é um som que eu sempre quis fazer com guitarra. os sons surgiram tocando e cantando em casa. o nome é algo que me remete a coisas rejeitadas, estranhas, que parecem frágeis, mas na verdade são muito fortes. como coisas consideradas agressivas e condenáveis nas mulheres, mas que no fundo contém um dispositivo libertador e diante dessa ameaça ao patriarcado são socialmente consideradas como feias.

não existe exatamente um núcleo ou ideia central. como muitos dos sons que eu faço, flores feias é um transe, um fluxo. o que existe no caso de cada manifestação, seja uma gravação ou uma apresentação, é operação de um ou mais conceitos, que variam de projeto pra projeto. em flores feias eu tenho pensando, dentro desse nome, uns lances mais relacionados ao místico marginal e combativo.

em excria reverbera eu busco a ressonância e a reverberação como subjetividade. o nome se trata de um neologismo de invocação ao caos e ao movimento. o som acaba sendo mais drone e texturizado. o corpo código aberto acabou se tornando uma pesquisa também que envolve estudos meus ligados à tecnologia, performance e o conceito de liminaridade. cama desfeita foi o primeiro som que eu o gustavo [paim] fizemos com o selo, já passou também por várias fases e expressa várias ideias que temos juntos. é claro que há conexão entre toda a minha produção, mas tento me aprofundar pontos diferentes em cada proposta. é um execício constante de significar, resignificar e manusear questões. a imaginação conceitual forma mundo.

 ouvindo o flores feias e o cama desfeita e vendo a performance do corpo código aberto, eu penso que seus projetos são sempre permeados por uma vontade de deixar o próprio corpo, despossuir-se. “externalizar-se, expelir-se, experienciar-se”, como nas letra de feitiço. no texto de apresentação de fora, do excria, é mencionado um “aborto de si”.  então o seu som seria, também, uma forma de perceber-se em outras camadas e extratos?

eu diria que não é necessariamente uma vontade de deixar o corpo, mas que a vontade é algo que se caracteriza pelo encontro com a exterioridade. o aborto de si, parto de uma cova, é a morte do “eu” enclausurado em si mesmo. não há início e fim pra além da palavra. o fora é o outro, é diferença latejante, é o paradoxo, é a heterogênese invadindo o nossos corpos por todos os poros e meu corpo também é outro fora. eu acho que encontrei no som uma maneira de me relacionar com outras perspectivas e permanecer em movimento.

vejo no campo sonoro artístico uma necessidade muito grande de autoafirmação das pessoas, uma busca identitária com traços competitivos, uma territorialização de circuitos onde minorias se tornam tokens. mesmo no noise, gênero tão fluido, há um modus operandi de produção artística capitalista. é um falso movimento. eu me recuso a fincar uma bandeira em mim mesma pra me levar a sério. sou cria do desvio.

como foi sua aproximação com o ruído e esse background mais punk? o que te chamou atenção naquilo?

sempre fui meio inquieta e busco conhecer coisas novas. quando comecei a ouvir noise também eram sons de selos mais d.i.y. relacionados a bandas barulhentas que eu já ouvia. eu nunca pensei muito sobre o que mais me atraiu e me motivou a começar a tocar porque foi algo que simplesmente aconteceu, talvez tenha sido a liberdade sonora e a quebra de determinados padrões. a pesquisa não é algo que precisa ser aprendido em instituições de ensino, é só a forma de conhecermos as coisas no mundo. tenho isso como exercício constante e na minha adolescência, quando descobri no punk, entre outras coisas, o que era o d.i.y. foi algo que me marcou como prática de aprendizagem. o conhecimento não possui uma origem, não é regular, é barulhento. eu não vou ser o tipo de pessoa que começa a falar do noise citando russolo.


“mesmo no noise, gênero tão fluido, há um modus operandi de produção artística capitalista. é um falso movimento. eu me recuso a fincar uma bandeira em mim mesma pra me levar a sério. sou cria do desvio”’


o paul hegarty diz que o ruído “oferece algo como a matéria escura”. no texto dofora, o ruído aparece como “via acidental, desviada, que resolvemos remar com, contra, através”.para você, o que o ruído representa e em que sentido ele te interessa?

o ruído não representa nada porque não está no campo da representação. o ruído é som, é a pluralidade de espectros, é a pluralidade de frequências. o fato de ser algo físico também não significa que está preso à leitura científica. o ruído também não possui essência e nem é algo incógnito extraterreste. ele apenas soa estranho pra muitas pessoas por uma questão cultural condicionante da escuta, mas isso é totalmente “desconstruível”. esses espectros e frequências se encontram não somente no som. estão por toda parte. o que me interessa é acessar esses espectros e frequências de maneira vertiginosa. o ruído é uma via acidental, desviada, que remo com, contra e através porque não acredito na linearidade.

muitos artistas têm uma concepção niilista (no sentido de pessimismo; no future) acerca do noise, expressando uma certa destruição, caos, desordem e também muito associado ao urbano. acha que o ruído tem mesmo essa conotação negativa? como você concebe isso no seu trabalho?

um texto do círculo avesso chamado dez comprimidos possui duas doses que dizem o seguinte: “ok. então o primeiro sintoma aparece. afirmativo é o ato de rendição. somos negativistas, dizemos não à afirmação global da falsa universalidade do capital” e “somos monstrxs de mil cabeças, filhxs do declínio, a nossa boca espuma, é por isso que nos temem”.

esses dois comprimidos sintetizam muito sobre a minha noção de negação e niilismo. “no future” é a sensação de esgotamento do tipo de sociedade que a gente vive. não acredito que isso precisa tomar um sentido derrotista. no noise isso aparece de várias formas. rola inclusive muitos clichês conformistas com o nada. vejo como muito antropocentrismo achar que tudo acaba se a humanidade acaba, porque às vezes dizer que o fim é irreversível e nada mais pode ser feito soa só como uma desculpa pra se manter dentro de uma zona de conforto e conservar privilégios. mas não necessariamente essa abordagem acontece assim.

o próprio nietzsche enxerga na décadence a possibilidade de contrariá-la. trata de tomar o domínio de si, percorrer sua própria história, criticar a si mesmo e desvelar o jogo da moral dominante. desde a modernidade a gente vive um imperativo de ordem genocida fundado numa noção de verdade inventada. acho interessante quando há uma crítica a essas noções de destruição, caos e desordem. um lugar destrutivo é um shopping, como ele é mesmo: limpo, branco e iluminado. o caos não, o caos é cosmologia viva, é ruidoso. isso explica muito porque é mais comum as pessoas gostarem de shopping do que de ruído. tratar disso é negativo se você entender que ser negativo é dizer não.

 

o meia-vida trabalha centralmente com cassetes. você comentou que o próprio nome do selo está relacionado ao cassete. me explica isso melhor e conta como foi que surgiu a ideia de montar o selo. quando surgiu?

no início de 2012, eu e o gustavo [paim] queríamos lançar nossos sons e sons que a gente gostava de amigos e decidimos criar um selo pra isso. a gente curtia muito a estética de lançamentos de noise e música industrial nos anos 80 em cassete, mas se questionava sobre o motivo de lançar nesse tipo de material na era pós-mp3. aí um dia ouvindo aquele som half-life, do swans, e debatendo sobre várias questões do selo chegamos ao ponto chave: meia-vida e a sua polissemia. há a meia-vida que a gente acaba levando pra sustentar o que gosta. quando não se nasce privilegiado pra conseguir equipamento, material, pra levar projetos a diante precisa trabalhar, ter outra meia-vida que alimenta essa produção. meia-vida também é aquele conceito da química que significa um tempo característico de decaimento exponencial, um período de semi-desintegração dos elementos. os elementos radioativos perdem meia-vida, contaminam tudo por onde passam, semi-desintegram a cada contato mas essa desintegração nunca chega a zero, nunca acaba definitivamente, não há aniquilação, sempre há meia-vida. parece até uma resistência. dessa forma a fita cassete nos pareceu uma material muito coerente com a proposta do selo. a fita, além de ser manipulável, possui uma degradação com o tempo e quanto mais degradada mais ruidosa ela se torna. com esse nome a gente buscou uma força na degradação.

desde o início vocês decidiram lançar em k7? acredita que surgem possibilidades estéticas diferentes ao trabalhar com uma reprodução mais limitada tecnologicamente? no bandcamp os discos vão com o áudio gravado do k7?

os primeiros lançamentos foram em k7 e depois de um tempo a loja que a gente comprava fita aqui em curitiba parou de vender porque segundo eles só a gente comprava e não valia a pena mais pra eles. depois ficamos um bom tempo sem lançar em fita porque só valia a pena comprar nos eua ou no canadá e a gente nunca tinha grana pra isso. no ano passado repensamos uma série de coisas no selo e uma delas foi retornar ao foco inicial estético de produção e focarmos nos físicos. sempre que há lançamento em k7 o áudio do bandcamp é o gravado da fita. muitos sons que foram lançados digitalmente também possuem gravação em cassete. agora temos esse contato da argentina e voltamos a lançar em cassete como muitos agora no brasil estão fazendo (obrigada natha).

além de fazer os lançamentos a gente explora as possibilidades estéticas da cassete em tape loops, controle de pitch, a compressão analógica, o uso de fitas muito velhas e desgastadas e toda a mixagem possível. agora, sobre essa ideia de limitação tecnológica creio que há uma problemática. a gente entende que todo fenômeno de obsolescência é um fenômeno de circulação de capital. um motor de carro que funciona com combustível fóssil, por exemplo é algo muito obsoleto, do ponto de vista de rendimento físico, econômico para o usuário, urbanístico, etc. é algo que opera atualmente apenas por interesse de grandes corporações. mas a degradação não é necessariamente um quesito de obsolescência, as pessoas pagam caro numa calça rasgada, por exemplo. o ponto forte na fita cassete pra nós é mais a localização histórica sobre se relacionar com um material do que o limite de circulação. esse negócio de ficar discutindo qual é melhor, analógico ou digital, por exemplo, é coisa de gente sem assunto. já vi muita bobagem sendo dita, gente debatendo isso falando que tal pedal era analógico, mas ignorando que tem um chip dentro e o chip é digital. é muito mais interessante se dedicar a explorar as possibilidades analógicas e digitais, o acoplamento de técnicas e não gerar a dicotomia/concorrência delas na produção. os sons lançados pelo meia-vida são híbridos, mesmo que tenham elementos analógicos, são todos disponibilizados online. eu não posso ignorar isso, sou filhote de internet e devo 99% da minha pesquisa sonora ao download.

há uma crítica aos k7s como forma de nostalgia ou idealização/romantização do passado. o que acha disso? o que te leva a lançar material em k7?

há sim uma romantização do passado. não vejo problema nisso a não ser que realmente se torne um anacronismo que tenha medo do futuro. passado e futuro não precisam se negar pra se afirmar. a graça do tempo é que ele não corre numa única linha e cada instante podemos resignificar acontecimentos. agora, talvez a fetichização da fita cassete tenha um dispositivo que acione a história do objeto, em contraposição ao estado comum do fetiche da mercadoria que oculta a própria história. quando rola um esfoço não monetário pra se relacionar com aquele objeto também acrescenta um valor histórico nele. é o jogo do oculto, a gente coloca o espírito na mercadoria quando não consegue ver espírito nas coisas sem dinheiro. eu pensei nisso gravando o flores feias direto na fita, na minha relação com aquele objeto, por isso também o processo ficou exposto na gravação e lançar isso em fita traz um tempo de escuta mais lento e contínuo, o que me pareceu interessante.

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