Dissonantes: as mulheres estão aqui

fotos e textos por gabriela ferreira

no maior estilo riot grrrls, renata roman e natacha maurer produzem o dissonantes, evento mensal que dá visibilidade às mulheres da cena experimental. elas tiveram a ideia do projeto como forma de responder à pergunta: “onde estão as mulheres?”, provocada pela presença quase mínima em eventos da cena.

fato é que as mulheres estão – e sempre estiveram – nos lugares. porém em ambientes considerados “masculinos”, as mulheres são invisíveis. mesmo em locais considerados mais “desconstruídos”, essa situação se perpetua. “o projeto nasceu porque percebemos que as mulheres sempre eram minoria, tanto nos palcos como no público”, conta natacha.

essa realidade é extremamente visível. tanto que natacha e renata nunca foram questionadas sobre a decisão de criar o projeto. “sempre foi muito óbvio, era só dizer ‘olha para o público e para quem tá tocando; qual a porcentagem de mulheres?’”

quanto mais fechado o segmento, maior o estranhamento com a participação feminina. quantas mulheres deixaram de ir em shows por não se sentirem acolhidas em ambientes com maior público masculino? quantas mulheres desistem de fazer música por não terem incentivo? é exatamente nesse ponto que o dissonantes entra, pois além de fomentar a produção musical feminina nessa cena tão masculina, a ideia é que o ambiente também seja mais acolhedor para as mulheres, e isso parece estar funcionando. na edição de abril do evento, que contou com apresentações de carla boregas (do rakta, fronte violeta e do selo dama da noite discos) e bella, o público era majoritariamente feminino, coisa que nós nunca vimos acontecer antes.

 aline vieira na performance o desejo faz escorrer, escoa e corta, no dissonantes

mesmo frequentando sempre os mesmo lugares, vendo sempre os mesmos rostos e participando de várias “cenas” diferentes, é fácil dizer que nenhum desses espaços acolhem mulheres. afinal, mulher é incapaz de entender de música tão bem quanto homens, ou se obriga a gostar de algo para impressionar alguém. quantas mulheres já ouviram algum discurso parecido? eu sei que não sou a única. para aline vieira, do selo curitibano meia-vida, essa questão machista é enraizada. “a gente cresce numa cultura que não incentiva a produção feminina tanto quanto a masculina”, e isso é fato. até mesmo na música a diferença que se dá na socialização de homens e mulheres é clara. meninos tocam instrumentos e mulheres compõem. “não existe essa dicotomia de que a técnica pertence ao homem e o sensível, às mulheres”, diz aline. 

“homens não têm a mesma pressão. se um cara lança alguma coisa que precisa ser melhorada, as pessoas não vão cair muito em cima disso, vão achar normal. agora, se é uma mulher, o erro aconteceu porque ‘ah, ela é mulher, ela não sabe’. isso é péssimo. por mais que as pessoas não falem diretamente, a gente convive com esse medo no começo. é coisa de uma dizer pra outra ‘acredita em você,’”, avalia aline.

 

essa cobrança é extremamente palpável. enquanto homens estão fazendo música sem compromisso e técnica, o que se espera das mulheres é a excelência, em todos os aspectos. é na hora da produção de matérias ou resenhas de trabalhos de artistas femininas que o machismo assume. é extremamente comum, além da promoção da rivalidade feminina entre as artistas, o uso de adjetivos ressaltando a aparência de mulheres. “em uma resenha do show da pharmakon, a primeira frase era falando que ela era uma loira bonita. beleza, mas por que isso é relevante? por que em resenhas de homens a primeira frase não é sobre a aparência deles? é falando sobre o conhecimento deles”, diz aline.

“eu faço produção e é bem foda”, conta natacha. “quando você tem um problema técnico e pede ajuda, se você é mulher as pessoas ficam com aquilo: será que é um problema no equipamento ou é por que ela é mulher? aí a gente tem que se explicar”, completa aline.

por mais que seja extremamente cansativo ter que gritar cinco vezes mais alto para sermos ouvidas, nenhuma de nós pretende abrir mão da luta pelo reconhecimento e para pertencermos aos lugares que também são nossos.


o dissonantes está aberto à propostas de apresentações e perfomances. basta enviar uma mensagem para a pagina no facebook. projetos  homens também são aceitos, desde que com 50% de participação de mulheres e com protagonismo seja feminino.

 

originalmente publicado em 21 de junho de 2016. 

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