Da cosmovisão às cosmofonografias: abrindo a caixa preta dos sons

GG Albuquerque

texto para o catálogo do Festival Antimatéria 2018realizado pela Audio Rebel e Quintavant/QTV entre 30/10 e 03/11 no Rio de Janeiro

As palavras e a linguagem são os pilares de sustentação do conhecimento tradicional do ocidente. Enquanto as palavras ocuparam o posto privilegiado de ferramenta própria do pensar, a imagem, o som e as outras corporalidades foram empurradas ao campo do espetáculo e da estética, marginalizadas como uma mera ilustração que apoia o texto. Na antiguidade, Platão já criticava a apreensão pela percepção e pelas imagens — que, para ele, turvavam o acesso ao mundo do real, tal qual o objeto que se “distorce” debaixo d’água. Mas foi Descartes, na aurora do século iluminista, quem amplificou esta concepção ao vincular a ontologia da existência humana exclusivamente ao pensamento: “Penso, logo existo”. Desde então reverberam dicotomias entre espírito e matéria, mente e corpo, superfície e profundidade, tendo o primeiro polo (o sentido espiritual, o logos) como hierarquicamente superior ao segundo (que lida com as materialidades). E através deste dissecar a mente foi divorciada dos sentidos, deixando-nos, como diz Nick Sousanis,  desencarnados, boiando em um mar de palavras.

Mas e quanto àquilo que escapa das palavras? E aquilo que não é transmitido pelo sentido? Afinal, há um corpo que se lança. Há o trabalho e a submissão. Mas também o dançar, o fervilhar dos pés, o suor escorrendo pela testa, o pele na pele, os sussurros na penumbra, cataclisma-Carnaval. A recusa do sentir consolidou-se como artigo primeiro do cânone filosófico, mas a música tornou-se um fértil vetor de experimentação sensorial, um meio de reavivar o potencial oculto do corpo. No início dos anos 1930, diante do crescimento das escolas de samba, os bambas do Estácio de Sá sentiam a necessidade de criar um batida mais acelerada para impor ritmo aos desfiles de rua cada vez mais numerosos. O compositor Alcebíades Barcelos, o Bide, utilizou suas habilidades técnicas de sapateiro para “encourar” uma lata de manteiga de 20 quilos com papel de saco de cimento umedecido, criando assim o tambor de som grave conhecido como surdo. Ali foi definida a sonoridade do samba urbano carioca, é o nascimento do “samba de sambar”. Muito mais que um engenhoso artesanato, vemos uma prática sonora renovadora que nasce menos de uma racionalidade metódica que de um senso de movimento e improvisação. Provém de uma exploração tátil, de uma sensibilidade sutil acerca do espaço e do corpo que o ocupa, do corpo que ginga, que samba, que abre a roda do pensar. Saberes corporificados. E a música como escrita intensiva e material desse corpo.

Após passarmos por Platão, Descartes e o samba do Estácio, eis-nos aqui no século XXI. Eis o Antimatéria e as novas tecnologias. Do surdo aos softwares de edição e mixagem digital (no footwork chapado do DJ Earl, na putaria seca e acelerada da Iasmin Turbininha, na nuvem de cacofonia digital da Moor Mother), passando pelas técnicas expandidas e a transubstanciação de instrumentos estabelecidos (as cerâmicas, motores, escovas de dentes e outros artefatos cotidianos utilizados por Bella & Rohrer, a guitarra e o violão antinormativos de Marcos Campello, a cuíca cósmica de Paulinho Bicolor) aos readymades acústicos e parafernalhas eletrônicas autoconstruídas (os motores de Gabriela Mureb, as fitas cassete do DEDO, as esculturas do Chelpa Ferro e Alex Durlak), o impulso criativo ainda é o mesmo: ver o que todo mundo viu e pensar o que ninguém pensou. Desbravar caminhos, explorar formas precisamente  pela retomada da dimensão do sensível, do corpo como componentes integrais ao pensamento a fim de reelaborar a matéria sônica. Reunificando o pensar e o corpo na astúcia cotidiana de uma “arte do fazer”, estes artistas aventuram-se em torno do conceito do que é pensar para expandi-lo. Transcendendo fronteiras, desfazendo hegemonias, estamos abrindo a caixa preta da música. A caixa de Pandora dos sons. São modos de criar que instalam bem no centro da sala de estar o monólito kubrickiano — o mistério palpável.

Certa vez, no show de Cadu Tenório, em um pequeno intervalo de silêncio entre torrentes de ruídos brancos e batidas industriais, uma criança concentrada perguntou: “Mamãe, o que ele tá fazendo?”. A pergunta inocente da criança é o fio camuflado que conecta os pontos entre, por exemplo, Iasmin Turbininha, uma funkeira de 20 anos criada na favela da Mangueira que despontou no cenário funk com um canal no YouTube, e o Full Blast, banda de Peter Brötzmann, alemão de 77 anos que é um dos principais nomes do free jazz. O que eles estão fazendo? Poderia escrever o quanto for, mas a resposta é e sempre será esquiva porque estamos diante de uma estirpe de músicos-inventores radicais, cuja arte está escavando trilhas. No meio da “música experimental”, confrontamos-nos com um ideal entronizado de que as coisas são inventivas quando visam inventar o “novo”, ou oferecer soluções para “problemas musicais”. Talvez não seja bem o caso aqui — afinal, a música é uma ficção e portanto não existem problemas musicais. Esses artistas são inventores porque experimentam concretamente procedimentos artísticos singulares, modos intensivos de escrita que transbordam a categoria do protesto e da denúncia e tomam solidez enquanto gambiarra. Ao operar experimentos no corpo, na matéria e na espacialidade fazem germinar múltiplas formas de ver-ouvir, brotam outras possibilidades criativas, proliferam diversas escritas de si e modos de conceber o mundo. Da cosmovisão às cosmofonografias, deslocando uma sociedade improvável.

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