“Artistas do mundo todo, desistam” — entrevista com o [conjunto vazio]

os mineiros do [conjunto vazio] descrevem-se como “um coletivo anticapitalista e não hierárquico/horizontal de anti-arte, intervenção urbana, performance, negação prática, masturbação teórica e experimentos de estratégias para charlatanismo crítico”. 

atuam em diversas frentes: textos, web art, música, performance, intervenção urbana, plágios. em banco imobiliário, por exemplo, eles pegaram envelopes de depósito do banco do brasil e colocaram a famosa frase de bertolt brecht: “qual o maior crime: fundar um banco ou assaltar um banco?”. e depois devolveram ao banco como se nunca tivessem sido retirados de lá. depois fizeram depósitos nas contas que o banco do brasil mantém e divulga para “ajudar” (aspas deles) projetos sociais ou cidades atingidas por desastres naturais. os envelopes continham “notas de dinheiro do jogo banco imobiliário e uma carta-ameaça”. 

já em pode a dialética quebrar tijolos?, performance com “10 tijolos, 1 madeira velha, microfone e pedais de efeito, 1 corpo e algumas teorias”, o performer:


o perfomer ajoelha-se sob a madeira

ele está em silêncio
seu corpo está voltado em direção a parede
ele deve tentar quebrar os tijolos um por vez usando a cabeça
o microfone acima de sua cabeça capta e reverbera o som dos tijolos em contato com seu corpo
a performance termina quando todas as tentativas e a paciência se esgotarem 

esta entrevista por email foi feita para uma matéria sobre web art/net art publicada no jornal do commercio, visando em princípio as duas ações virtuais realizadas pelo grupo. a primeira é não é minha revolução se eu não puder colocar no lattes, em que criaram um perfil falso na plataforma lattes da anarquista e feminista emma goldman (notória pela frase “se não posso dançar não é minha revolução”, dita em meio à revolução russa ao ser repreendida em uma festa por dançar alegremente). a outra é esperando godot, um site que, inspirado na peça homônima de samuel beckett, nunca carrega.

apesar de ter estes trabalhos específicos em mente, a entrevista fluiu também para pontos centrais da perspectiva materialista e anti-essencialista da arte com a qual o [conjunto vazio] trabalha e as relações entre arte, poder e capital — e por isso torna-se interessante. os hiperlinks nas respostas são notas do próprio coletivo.

diversos textos e trabalhos do [conjunto vazio] tocam na distinção entre Arte e “objetos/eventos estéticos”. de onde vem esta distinção e qual o interesse (estético/político) do grupo em constantemente evidenciá-la ou denunciá-la?

Essa foi uma distinção elaborada dentro do coletivo decorrente das nossas ações e debates internos. Obviamente não surgiu ex nihilo, mas veio a partir das práticas e leituras dos movimentos de vanguarda, da anti-arte, da filosofia, do punk, dentre outros. Não é uma teoria aprofundada, buscamos antes um valor estratégico.

Dentro do [conjunto vazio] encaramos o campo estético como mais abrangente que a Arte (e aqui é necessário pensar na historicidade do que HOJE chamamos de “Arte” bem como sua relação com a institucionalidade e o “mundo da Arte”). Para nós, a Arte não é uma prática transhistórica e “essencial” ao Homem, mas uma prática de poder. Por isso, tentamos sempre tomá-la em uma perspectiva materialista e anti-essencialista … se somos bem sucedidos ou não, é uma questão a se pensar.

Não negamos o potencial disruptivo que pode existir em certas obras de Arte (inclusive, nos colocamos como herdeiros e em diálogo com várias das movimentações que surgiram nesse meio), mas o próprio desenvolvimento histórico mostra que para aqueles interessados em efetivamente transformar o mundo e mudar a vida, já não é mais possível reformar a Arte, restando apenas aboli-la. A Arte é esse espaço alienado onde especialistas, os artistas, criam obras para um circuito também de especialistas. Essa é uma das expressões mais avançadas de como no capitalismo tudo é potencialmente transformado em mercadoria. A Arte e a cultura continuam a ser umas das maiores vedetes do Capital: mercadorias ideais que nos obrigam a consumir todas as outras. Por isso, não nos parece estranho que os objetos de Arte sejam tão parecidos com a descrição marxista das mercadorias, cheias de “argúcias teológicas e cismas metafísicos”.

 Encaramos como um projeto necessário a desvinculação da Arte como espaço privilegiado do estético, cindindo esses dois campos. Experienciamos em nosso cotidiano, em maior ou menor grau, vivências estéticas. Somos capazes no nosso dia-a-dia de criar situações e objetos que não tem a pretensão de tornarem-se uma obra de Arte (o maior ou menor grau de reificação dessas práticas é perfeitamente possível de problematização). Esta “despretenção” já estava presente no gesto destrutivo das vanguardas, em que a mais banal prática era perpassada por um livre jogo, uma potência negativa e disruptiva da alienação cotidiana. Um exemplo recente disso é a pixação, que é permeada por questões e práticas estéticas, sem que seja apreendida como Arte (por mais que vejamos in loco o “mundo da Arte” tentar absorve-la).

Não se trata de fundir Arte e vida, mas de fazer uma distinção conceitual e prática para retirar o ranço artístico das nossas ações. Sem que para isso seja necessário abdicar das potencialidades estéticas. O problema para nós continua a ser como ser efetivo em nossa crítica ao atual estado das coisas, sem recair no simples engajamento estéril das formas ultrapassadas de política; e, também, em como não ficar encantado na pura estetização da Arte.


“Para nós abolir o trabalho, o capitalismo, o tédio e a Arte são um e o mesmo projeto. Não podemos ansiar reformar a Arte, apenas suprimi-la e realizá-la.”


o [conjunto vazio] está fazendo a crítica da instituição Arte, mas por vezes é abraçada por ela — como ações no sesc ou residência da funarte. isto é uma forma de “agir por dentro” ou é mais um sintoma do conceito da Arte sendo alargado à serviço do capitalismo, cooptação?

Adoraríamos crer que quando fazemos alguma ação dentro do espaço institucional agimos como um cavalo de tróia dentro do sistema. Porém, grande parte de nossas ações não passam de apenas brincadeiras fracassadas… além disso, por mais que sejamos críticos e anti-capitalistas, nos venderíamos por muito menos do que costumam nos pagar (isso quando pagam). Então, talvez só estejamos esperando a proposta ideal ou que as contradições explodam em nossa cara.

Está muito claro que o sistema da Arte é capaz de abarcar qualquer merda (Piero Manzoni sabia disso, o Accionismo Vienense também e talvez até GG Allin… isso apenas para falar sobre artistas que lidavam literalmente com a merda), inclusive a nossa. É um clichê constatar que a Arte e os artistas, mesmo os considerados mais “radicais” ou “avançados”, estão literalmente em prateleiras expostos à venda. O fato engraçado é que a anti-arte também exerça interesse na medida em que é consciente e joga negativamente com uma das principais questões da Arte contemporânea: a relação com a institucionalidade. Como sabemos a indústria cultural já oferece a tag de identificação antes mesmo do produto, então o [conjunto vazio] aparece assim: “coletivo de anti-arte” para ser melhor consumido. Não significa que gostamos disso e, inclusive, já fomos mais puristas em relação a essas questões, negando qualquer dialogo com institucionalidade (chegando mesmo a uma não-produtividade quase estéril). Hoje, porém, não nos furtamos das contradições óbvias. Isso significa que sabemos que não há uma externalidade ideal e confortável possível para a crítica, mas que tampouco podemos ser ingênuos já que não há dúvida nenhuma que o capitalismo e o mundo da Arte absorvem e recuperam todo potencial destrutivo de práticas estéticas (inclusive transformando em “transgressora” práticas parasitárias da institucionalidade). Cabe a nós, então, tentar ao menos não sermos pegos tão facilmente.

A história da Arte é repleta da recuperação de estilos e procedimentos desestabilizadores como simples técnicas vazias; basta pensarmos nos ready-mades, collages, détournements, cut-ups, escrita automática, escândalos, intervenções, performances, dentre incontáveis outros exemplos. A perda da potencialidade nesses procedimentos se dá porque eles “aparecem no mundo” desvinculados do compromisso negativo de destruição da linguagem que toda prática estética revolucionária possui.

É necessário notar como na Arte contemporânea é possível que qualquer artista do stabelishment utilize qualquer prática, técnica e até mesmo uma gramática que envolva termos como “política”, “vida”, “aproximar o espectador”, “questionar o status quo”, “afrontar o espetáculo” além de todos os clichês das vanguardas e neovanguardas, sem que isso signifique absolutamente NADA e nem possua qualquer potencial revolucionário!

Quanto a nós, se o que fazemos tem potencial revolucionário ou se estamos apenas lubrificando as engrenagens do capitalismo, também não saberíamos dizer. Estamos aguardamos ansiosamente (o cheque ou a revolução).

 

como os trabalhos de web art não é minha revolução se eu não puder colocar no lattes! eesperando godot, enquanto formato, fazem parte da perspectiva materialista e anti-essencialista da Arte do grupo?

Primeiramente, é necessário que se diga que sequer encaramos essas piadas como obras, muito menos obras de Arte. Isto não é um argumento retórico, mas serve para evidenciar que tais Artefatos estéticos vieram literalmente de chistes. 

“Não é minha revolução se eu não puder colocar no lattes!” partiu da nossa formação acadêmica, somos todos proletarizados, mais ou menos inseridos em circuitos acadêmicos, intelectuais e artísticos. Sabemos como a atual produção “intelectual” nas universidades é vinculada a um sistema produtivo totalmente inserido dentro do modo operante capitalista, mesmo que mantenha um verniz de “saber” ou até mesmo de “resistência”.

Além disso, a crítica também busca tocar no declínio da experiência, a partir do imperativo contemporâneo que parece a todo momento interpelar para que o sujeito performe e registre toda e qualquer ação. Parece ser mais importante mostrar do que efetivamente viver. Chegamos a tantas mediações que naturalizamos e atestamos um modo perfeitamente aceitável de se estar no mundo.

A Plataforma Lattes é apenas uma dessas falsas mediações, por isso, invocamos Emma Goldman. A proposta de fazer um currículo Lattes falso para ela está repleta desta negatividade irônica, de um diálogo com a tradição insurgente, de uma vontade de criar novas linguagens e de, literalmente, usar novas plataformas (“quem seria tão idiota a ponto de usar um site do governo para fazer ISSO?!“). Talvez uma das coisas mais importante dessa ação se refira ao fato de se tratar de um crime! Ainda não sabemos como não tiraram do ar, aliás, isto talvez prove como não somos a ameaça que gostaríamos de ser. Poderíamos teorizar infinitamente, mas, no fim, nós só fizemos porque achamos engraçado.

Já “Esperando Godot” partiu obviamente da peça homônima de Samuel Beckett e também de uma performance do coletivo chamada “Esperando Debord” (inspirada em “Uivos para Sade”, primeiro filme de Guy Debord feito totalmente sem imagens). A questão central está na espera, na expectativa criada pelo espectador, e em elementos nada complexos como uma tela branca, além dos códigos de carregamento de uma página da internet que todos nós conhecemos bem.

Acreditamos que é um trabalho bem simples e talvez até facilmente presumível, mas adoramos pensar na passividade frente à tela e imaginar o espectador perdendo seus pretensiosos minutos; até entender que é ele que é o centro da experiência. É um trabalho literal e talvez um dos nosso experimentos mais bem sucedidos… certa vez recebemos um e-mail de um jovem que se dizia aluno de um curso de teatro e que sua professora havia indicado o “Esperando Godot” para ele. No final desse e-mail ele reportava que nosso link não carregava. Quanto tempo ele ficou lá, esperando Godot?

Se de fato é possível pensar em uma perspectiva materialista e anti-essencialista para essas propostas porque existe uma ação ancorada no tempo, na materialidade banal dos objetos, na relação direta com o espectador e em uma pretensão deflacionada… justamente por isto estão fadadas a falhar, a desaparecer ao mesmo tempo que parecem ser  só mais uma piada ou meme de internet.

 banco imobiliário no banco do brasil

o grupo mexe com o imaginário e vocabulário revolucionário e vanguardas artísticas do século xx, mas insistindo no fracasso e na desistência (“trabalhadores do mundo todo, descansem; artistas, desistam”, como dizem). o que o fracasso representa para o conjunto vazio? a não-ação é uma colocação política?

Certa vez, questionaram se nossa retórica do fracasso seria uma proteção as críticas, uma espécie de blindagem cínica e pós-moderna muito característica de nosso tempo. Isso nos pareceu um erro de diagnóstico porque levamos bastante a sério o que fazemos. O que nos surpreende é justamente que alguém nos leve a sério!

Nossa linguagem parte de elementos insurgentes e em diálogo com as vanguardas (isso quando literalmente não plagiamos). Nossa forma de comunicação também é um crime, dentro de uma longa linhagem. Nós nos inserimos nessa tradição em que revolucionar o mundo e mudar a vida são o mesmo projeto e como este ímpeto fracassou, é necessário assumir também este legado. Isso não quer dizer derrotismo ou imobilismo, pois a tarefa ainda se mostra aberta e necessária, mas esta consciência evita que sejamos “vencedores morais”, ressentidos, porém dotados da certeza que a história nos absolverá… como está claro, o inimigo não tem cessado de vencer. O otimismo é a pior das doenças, não é possível mais sermos ingênuos e tampouco cínicos.

Não há um encantamento com o fracasso. Procuramos fugir da fantasia que nossa tarefa está fadada ao sucesso, que é relevante; como se um simples coletivo de Belo Horizonte pudesse formular algum projeto para a “classe insurgente” ou um “projeto universal de destruição da Arte” (ainda que talvez possa ser justamente isso que ansiamos secretamente). Estar desabonado do sucesso pode talvez abrir brechas para que algo novo surja, neste sentido, não-fazer (como Bartleby) é sempre uma das possibilidades mais radicalmente negativas.

Acreditamos que há algo fundamental nisso, nesse demorar-se no processo negativo sem a busca de uma resposta imediata e fácil. Porém, este não-fazer não tem relação com a greve da Arte do esperto Stewart Home e seu Neoísmo (não por acaso virou uma “obra de Arte”). “Não fazer” não significa propriamente o imperativo da não-ação, mas uma outra possibilidade, já que criar não é um ímpeto natural. Assim como fazer Arte , fazer política, nada disso está inscrito na essência da natureza humana e tudo foi autonomizado e separado da vida .  É justamente porque não temos a necessidade da ação, de lutar e de criar (no nosso caso inclusive não é nosso emprego, não ganhamos nada com isso, não nos fará felizes e nem famosos) que podemos, no meio do tédio cotidiano, nos encontrar e agir, tomando consciência que só se age no vazio, sem pressupostos, nem pretensões e sem um terreno seguro. Dessa maneira é importante que se diga: não há hesitação em momentos decisivos e, se houver, isso já é uma posição política!

Quando dizemos “trabalhadores do mundo todo, descansem e artistas, desistam” estamos nos opondo tanto ao trabalho alienado e especializado, quanto à Arte; como se esses campos fossem um valor por si só, como se fossem projetos inacabados e como se ainda contivessem um potencial emancipatório e associativo. Há talvez nisso uma melancolia em nossas pretensões, na medida em que sabemos que é necessário organizarmos o pessimismo e o tédio… porém, não estamos tristes ou deprimidos, estamos desertando!

muitos vêem a expansão do conceito de Arte como um avanço positivo, mas o [cv], ao contrário, parece defender a derrubada deste conceito de Arte. Está correto? Se sim, por que vocês insistem nessa derrubada?

Para nós abolir o trabalho, o capitalismo, o tédio e a Arte são um e o mesmo projeto. Repetimos: não podemos ansiar reformar a Arte, apenas suprimi-la e realizá-la.

Ampliar o campo do que é chamado “Arte” parece apenas incorporar práticas e discursos ao sistema de saber-poder que legitima e atesta valor a objetos e ações. Isso parece passar longe de liberar as potências estéticas para além do atual estado das coisas, reinserindo as práticas desviantes e negativas ao esquematismo já previamente dado. Tanto esses quanto aqueles que apenas aspiram decretar o fim da Arte (enquanto estipulam seu preço) não estão interessados no novo, apenas inventam uma novilingua.

As aspirações da nossa revolta exigem não apenas uma nova gramática, mas também novas e radicais formas de vida e de relação. Isso não será feito por artistas, muito menos por nenhuma atividade ou sujeito especializado (como “o intelectual”, “o militante”, “a vanguarda”, etc.). Tampouco será feita através do fazer artístico, ainda que sejamos solidários à todas pretensões passadas da Arte: principalmente as que existiam no momento de sua queda, quando ela ainda anunciava promessas porvir…hoje nem isso; há sempre um esteta para festejar seu novo sepultamento. Não é mais possível manter a ingenuidade de acreditar que se pode criar sem levar em consideração o que foi feito, ainda que artistas contemporâneos pareçam sempre obrigados a fingir que toda a destruição das linguagens operadas pelas vanguardas não existiram. Como ainda conseguem pintar depois de Malevich? Escrever depois de Joyce? Se chamarem de artistas e acreditar na Arte de Duchamp?

A Arte precisa finalmente ser enterrada para que os homens sejam livres, para que pesquem pela manhã, pintem a tarde e façam o que quiserem a noite. Ansiamos a destruição para ver o que vem depois, para criar um espaço possível, uma comunicação em comum, a comunidade que virá… e isso não é um projeto ou um programa!

Se a revolução dos proletarizados é de fato herdeira das experiências radicais da Arte, do estético e da destruição da antiga linguagem, se de fato levamos tudo isso a sério, nosso compromisso é continuar lidando, mesmo com nossas limitações estéticas e políticas, com toda a historicidade que nos trouxe até aqui. Isto é, dialogar com o que achamos mais crítico e avançado no passado/presente em busca de uma comunicação prática e negativa capaz de uma ruptura radical com o existente.

Nossa posição é bem desconfortável porque sabemos que é, por um lado, das mais pretensiosas (quantos de nós ainda consegue sonhar com revoluções?) e, por outro, a que exige menos esperança já que há sempre a real possibilidade de não alcançarmos nada, nem mesmo o fracasso.

foto de capa: performance o trabalho liberta, no salão diamantina – centro de artes e convenções da universidade federal de ouro preto, dentro do festival de inverno de outro preto e mariana – fórum das artes. 

originalmente publicado em 19 de junho de 2017.

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