Sufjan Stevens — Carrie & Lowell: memórias de um álbum de família

por GG ALBUQUERQUE

em álbum de família, nelson rodrigues desvela a perversidade, crueldade e os vícios que se escondem por trás da aparente felicidade, harmonia e união das fotos do álbum de família. oss retratos escondem toda a mágoa, desilusão e sofrimento que permeiam as relações humanas. criam uma sensação de estabilidade. são a referência para nos lembrar dos bons momentos, funcionando como um escudo que nos protege de nossa infelicidade — a qual preferimos ignorar, fingir que não existe. “há uma espécie de imperativo de ser feliz, em todos os lugares, o tempo todo. aconselham-nos isso da manhã à noite”, nas palavras do filósofo roger-pol droit.

carrie & lowell, o novo disco do cantor e compositor norte-americano sufjan stevens é uma homenagem à sua mãe, falecida no fim de 2012. como na peça de nelson, a imagem cristalizada do álbum de família (estampada na capa do álbum, que mostra a mãe e o padrasto do músico, os nomes do título) é problematizada. o clichê da exaltação romântica aos momentos grandiosos, do tipo fábio jr. e o pieguismo do seu pai herói, dá lugar a arranjos simples e letras extremamente pessoais, que expõem não apenas a alegria demagógica, mas também os traumas da relação entre mãe e filho, contraditória e conturbada.

no caso de sufjan, uma história bem peculiar e delicada: carrie sofria de alcoolismo, esquizofrenia e depressão e por isso afastou-se do filho quando ele tinha apenas um ano de idade. quando ela casou-se com lowell, sufjan teve a experiência de passar cinco férias escolares com a mãe durante o verão. também a via ocasionalmente em reuniões de família e estava junto a ela nos seus últimos momentos de vida no hospital, onde faleceu em decorrência de um câncer no estômago.

o cerne do álbum é, portanto, a intimidade do seu compositor, que se expressa com uma crueza impressionante. Não se encontra aqui o som épico dos metais, violinos e coro de chicago, carro-chefe de seu repertório. somente um violão, algumas vezes acompanhado por um discreto e afastado piano e pequenos backing vocals. a voz de sufjan é praticamente um sussurro, tão frágil que stevens parece estar a ponto de se despedaçar a qualquer momento. a primeira impressão é de que as músicas repetem a fórmula batida do fofolk: melodias simples, singelas e bonitas, mas insípidas, sem sangue, suor e lágrimas.

essa ideia cai por terra conforme vamos adentrando com mais atenção na torrente emocional que é carrie & lowell. a entrega confessional de Sufjan é o que faz o disco passar longe do easy listening estéril de música de elevador ou da ~música pra relaxar~. logo nos primeiros versos da faixa de abertura death with dignity, ele diz: “spirit of my silence I can hear you / but I’m afraid to be near you”. ou seja, stevens vai lidar não exatamente com a morte de sua mãe, mas sim os seus próprios fantasmas, com o seu interior. o espírito de seu silêncio nada mais é do que a solitude — que assusta a todos nós, pois obriga a olhar para nós mesmos. um exercício que, se feito com honestidade, pode trazer resultados decepcionantes ao percebermos que não somos aquilo que pensamos / gostaríamos de ser. 

durante todo o álbum, sufjan está buscando exorcizar os seus demônios em um calvário consigo mesmo. no subterrâneo da música lenta, contemplativa e suave, há uma luta violenta entre o compositor e ele mesmo. em entrevista ao pitchfork, stevens conta que começou a abusar de drogas e álcool. “eu comecei a acreditar que eu estava geneticamente, quimicamente, predisposto ao seu padrão de destruição [em relação ao comportamento de sua mãe]”.

confuso, ele tenta algumas vezes culpá-la pelo seu estado em desabafos raivosos, como drawn to the blood (“o que eu fiz para merecer isso?”, canta, quase aos prantos). mas ele percebe o quão infantil e cínico é simplesmente se vitimizar e se eximir de toda responsabilidade. na mesma entrevista, sufjan diz: “eu aprendi rapidamente que você não tem que ser preso pelo sofrimento e que, apesar da natureza disfuncional de sua família, você é um indivíduo em plena posse de sua vida. eu vim a perceber que eu não estava possuído por ela, ou encarcerado por sua doença mental. nós culpamos nossos pais por um monte de merda, pro melhor e pro pior, mas é uma simbiose. a paternidade é um sacrifício profundo”.

percebemos essa visão mais crítica também na música. em eugene, ele relembra pequenos momentos, até banais, como puxar a camisa da mãe pedindo para comprar iogurte ou o professor de natação que mal sabia pronunciar seu nome, até chegar ao estágio terminal, em que carol está no hospital cercada por aparelhos e próxima da morte. e, enfim, o lamento pela relação que ele poderia ter construído, mas agora, diante da morte, “o que resta é apenas amargura, para o resto da minha vida, admitindo que o melhor está para trás”.

na bela should have know better, sufjan complementa. reconhece sua atitude passiva (“i waited for the remedy”) e abre mão dos julgamentos. quando relembra o dia em que foi abandonado na locadora, ele não entra em conflito e apenas pede, resignado: “seja meu descanso, seja minha fantasia”. aqui, apesar de melancólico, ele enxerga o passado com sobriedade (“nada pode ser mudado. o passado ainda é o passado, a ponte para lugar nenhum. eu devia ter escrito uma carta explicando o que eu sinto, essa sensação de vazio”) e ainda parece ter uma pequena (pequena!) faísca de esperança, em meio a versos como “no reason to live”, ao falar de sua sobrinha e da alegria que ela proporciona.

mas o luto não é fácil, e lidar com os problemas adormecidos também não. as feridas demoram a cicatrizar. entre a histeria do apontar o dedo para os “culpados” até se dar conta de suas responsabilidades, há um caminho longo e tortuoso de lamentos e desilusões. podemos ouvi-lo em the only thing e no shade in the shadow of the cross. na primeira, o compositor se pergunta como irá viver com seu fantasma e, na segunda, questiona sua fé em deus — figura recorrente nas letras de sufjan.

entre os desabafos raivosos, confissões angustiadas e lamentos melancólicos, sufjan stevens compõe um quadro impressionista sobre nossa relação com a vida e a morte, amor e ódio, esperança e frustração, desespero e conforto. a partir de experiências pessoais, estabelece uma visão madura sobre as relações humanas, a intimidade e iminência da morte e capta diversas nuances da ampla gama de sentimentos e reações com que encaramos a velha da capa preta.

carrie & lowell é um grande disco e sua força reside na surpreendente brutalidade e crueza da batalha íntima que o compositor trava ao longo de suas músicas e também na desmistificação das relações familiares e do afeto entre elas — complexas, confusas, conturbadas. 

publicado originalmente na revista poleiro e no scream & yell.

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