Máquina pop libertina: em memória de Bowie

numa entrevista em fevereiro de 1976, david bowie declarava: “para provocar um movimento artístico é preciso construir algo e, em seguida, destruí-lo. (…) a única coisa que se pode fazer é o que os dadaístas, os surrealistas fizeram: amadores totais, pretensiosos como o diabo, e que fodem a coisa toda. basta causar o máximo de constrangimento possível, para se ter a chance de criar um movimento. mas só se cria um movimento quando se tem uma causa rebelde”.

bowie foi elo de transição na corrente pop. as utopias e fantasias hippies dos anos 1960 foram enterradas junto com hendrix, joplin, morisson e brian jones. a guerra no vietnã continuava com bombardeios de napalm nas florestas e mais jovens americanos voltavam pra casa em caixões. hendrix tocando o hino dos estados unidos com o barulho demoníaco da sua guitarra na ressaca lamacenta de woodstock. o assassinato no festival de altamont. 

o rock, dancinha dos djovens, cresceu. ganhou o peso das responsabilidades. liderar revoluções sérias, lidar com política com p maiúsculo. enfrentar tumultos raciais, guerras, fascismo, heroína, envelhecer. falhou. as ilusões chegaram ao fim. os stones embalaram o final da década com o laço negro de paint it, black — mais tarde escolhida por kubrick pra encerrar nascido para matar. 

bowie é filho dessa crise da razão do rock. não podia mais carregar o rock, a contracultura hippie ou qualquer bandeira como discurso. o diagnostico: “realismo, honestidade, e todas aquelas coisas surgidas no final dos anos 60 tinham se tornado chatas demais para um monte de gente entediada que chegava ao fim dos anos 70”. e seguiu: “eu acho que o rock precisa ser devasso, transformado em prostituta, uma paródia de si mesmo”.

era a geração (bowie, gary glitter, marc bolan, etc) que trazia de volta a ebulição sexual, a volúpia e a androginia de tipos como little richards. falava abertamente sobre sua bissexualidade num tempo em que ser gay era crime. a revolução do hedonismo, da liberdade, da libertinagem e da indefinição — not sure if you’re a boy or a girl.

acima de tudo, bowie se fez a partir da estrutura maquínica do pop — uma interseção da fruição de mercado e de arquiteturas simbólicas mais densas (eletrônica de vanguarda; expressionismo; burroughs; viagens espaciais; warhol). ele compreendia todo o jogo arquetípico envolvido e tornou suas ferramentas. a síntese: “talvez o que eu tenha feito foi mostrar que o rock n roll é uma pose”. 

até o último momento de vida esteve atento aos ciclos da máquina. de acordo com o amigo e produtor de longa data tony viscoti, estava atento aos passos de kendrick lamar, jamie xx e lcd soundsystem, gente nova que o inspirou em seu disco-testamento blackstar. no álbum, volta a paródia de si. é novamente o starman, aquele que apontava para os jovens do top of the pops em 1972 e convocava:  “I had to phone someone so I picked on you”. agora é o crepúsculo. despede-se, mas também está por vir em breve — talvez no dia seguinte. here I am, not quite dying.

 
“artista de artifícios”, nas palavras do próprio. plagicombinador em mutação permanente: “sou um amontoado de ideias de outras pessoas”.  erigiu a carreira sob máscaras e metamorfose constante. ele foi o extraterrestre andrógino ziggy stardust. foi o junkie frio e perturbador thin white duke e o astronauta major tom, à deriva no cosmos da corrida espacial. abraçou discos do kraftwerk e os sintetizadores de brian eno para mergulhar na depressão da berlim pós-guerra. de lá saiu com os desertos em espirais eletrônicas low, heroes e station to station. depois vestiu-se como o soulman de young americans e foi o parceiro funky disco de nile rodgers em let’s dance.

foi rockstar messiânico extraterrestre, junkie maníaco com agulha de heroína no braço, pierrot technicolor, astronauta perdido no cosmos da corrida espacial. “minha persona é tão confusa que confunde até a mim mesmo”.

múltiplo, persona, bricolagem, liberdade, libertinagem. indefinição. nem isso, nem aquilo: o meio. dúvida e auto-afirmação. teve a coragem de vestir máscaras, de ser superfície, efêmero, hedonismo, gozo luxuriante. bowie é personagens na busca por um ator. 

rip bowie (1947 – 2016)

 publicado originalmente em 12 de janeiro de 2016.

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