Beth Carvalho, madrinha do Brasil

Recentemente uma amiga me perguntou quais mortes de artistas mais me abalariam. Pensei um tanto e respondi: Zeca Pagodinho e Beth Carvalho. A síntese perfeita do Brasil, tradutores de tantas paixões e alegrias. Mas agora que Beth morreu, não sinto nenhum tipo de tristeza. É inacreditável. Nem a conheci pessoalmente, mas simplesmente não consigo imaginar um mundo sem sua existência. Só que ao mesmo tempo em que é difícil de conceber, a morte de Beth Carvalho tem um simbolismo trágico e amargo e não está dissociada do panorama político-cultural atual.

Beth luta contra uma inflamação na base da coluna desde 2012. Naquele ano fez uma cirurgia para colocar pinos ortopédicos na região lombar e chegou a afastar-se dos palcos. Nos seus últimos shows — no fim do ano passado, comemorando os 40 anos do álbum De Pé no Chão — a dor era tamanha que a sambista teve de cantar deitada — e o fez magistralmente, em um chaise longue. Por amor e pela necessidade do samba, resistiu aos extremos e cantou até o fim da vida. Agora, Beth, mulher do fim do mundo, sai de cena em um momento nefasto, quando o sentimento brasileiro que ajudou a construir é violentamente negado e apagado pela elite política.

Beth é uma mãe da alegria. Músicas como “Vou Festejar” são capsulas do puro êxtase espontâneo da felicidade. Outra boa síntese dessa sentimento pulsante é “A Chuva Cai”, samba de lirismo apurado feito por Argemiro e Cascquinha, da Velha Guarda da Portela, que ela transformou em um pagode bombástico, explosivo, eletrizante.

Por outro lado, a cantora também deu vida a algumas das letras mais sutis, delicadas e sentidas da música brasileira, como “Morrendo de Saudade” (de Wilson Moreira e Nei Lopes), “Chave do Perdão” (Almir Guineto), “Linda Borboleta” (Monarco) e o implacável dueto com Zeca Pagodinho “Ainda é Tempo Pra Viver Feliz” (Arlindo Cruz, Sombra e Sombrinha). No twitter, o historiador e amigo Luiz Antônio Simas ressaltou que Beth Carvalho foi elo de ligação entre o legado do samba dos anos 30 do Estácio de Sá com o emergente pagode do Cacique de Ramos (revelando e impulsionando a carreira do Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e outros) e as escolas de samba. Mas ela ainda foi além. Dona de uma visão musical refinada, Beth estabeleceu pontes com “malditos” como Nelson Cavaquinho e sua beleza fúnebre e até mesmo com a música caipira. Sua versão da toada “Alpendre da Saudade”, de João Pacífico, é uma pérola de melancolia bucólica sem igual no samba.

Acompanhada pelos músicos que viriam a formar o Fundo de Quintal, Beth reinventou o samba em De Pé no Chão (1978) com uma levada rítmica mais acelerada, dinâmica e batucada que mudou para sempre a música popular brasileira. Mais do que madrinha do samba, Beth é madrinha do Brasil. Inventora de um país que renova suas energias nos batuques e nas cervejas geladas das roda de samba, que extrai seus saberes da ginga, da felicidade coletiva, do riso popular, do Carnaval. O Brasil que deu certo.

Efetivado na política com Bolsonaro, os novos movimentos de fascismo e conservadorismo do país atuam no campo da cultura negando esse Brasil do samba, dos fundos de quintais, das misturas deliciosamente impuras e, enfim, brasileiras. No livro Bovarismo Brasileiro, a psicanalista Maria Rita Kehl lembra que há tempos a elite brasileira sonha em ser uma outra, fantasiando com o glamour da vida francesa (no século XIX) ou americana (no século XX). No entanto, buscava este padrão de vida somente por métodos superficiais, nunca através de uma revolução social efetiva. Importavam vestidos longos de Paris, mas foram os últimos a abolir a escravidão.

Encarte de De Pé no Chão (1979)
Contracapa de Na Fonte (1981)

A elite dos dias de hoje, que voltou a mostrar sua face escravista e aristocrata sem nenhum pudor pós-2013, segue o mesmo caminho. Assim como fizeram com o samba, criticam a “imoralidade” do funk e do funkeiro porque têm nojo e ódio de tudo aquilo que o tornam brasileiros. Ao olhar no espelho, se enxergam como americanos, sonhando em abrir startups para viajar de classe executiva e comprar eletrônicos em Miami.

O samba é dispositivo de transformação. Não vislumbra Paris ou Nova York porque está, como disse Beth, de pés no chão. É música que estrategicamente retira sua força das experiências mais gloriosas e sofridas do Brasil, dos prazeres e das dores, das suas desigualdades e contradições mais íntimas. Sem continências subservientes, o samba recria o Brasil sem tentar negá-lo, mas, ao contrário potencializando-o.

Inevitável ver a partida de Beth Carvalho como um símbolo triste deste desmonte do Brasil. Que tenhamos a força de Beth para cantar até os últimos dias. Em suas palavras: “Meu samba é um barco difícil de afundar”.

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