Juçara Marçal e Cadu Tenório — Anganga: cantos que atravessam o tempo

por GG ALBUQUERQUE

anganga é símbolo de um rico e plural momento de reconfiguração de linguagens, estruturas e sensibilidades da música brasileira. é tempo de dinamizar os moldes petrificados daquilo que chamam tradição ou folclore. vivificar, reverter e entortar estruturas. testar limites.

antes de tudo, o disco é um ponto de interseção e encontro das carreiras de juçara marçal e cadu tenório. ela começou com o grupo vocal feminino vésper; depois passou pelo a barca, que trabalha a partir da cultura popular e das pesquisas musicais de mário de andrade. desde metal metal (2012) a encarnado (2014) e o mais recente abismu (gravado numa sessão de improvisação com kiko dinucci e thomas harres), juçara reprocessa essas matrizes. desconstrói a música-popular-tradicional em emaranhados de tensão ruidosa.

“esse processo de tornar-se envolto na sonoridade do barulho vem com metá metá. você descobre outras maneiras de usar a voz, ou mesmo o berro. acho que é até um caminho natural usar o grito a partir dessa ideia de tela vazia para criar sons com sua voz e não interpretar uma canção”, analisa a cantora.

do outro lado, cadu tenório: produtor-experimentador-improvisador proveniente da sonoridade extrema – por vezes inóspitas – do noise, voltou-se para o formato canção a partir de banquete (2014), com letras do poeta márcio bulk e com vozes de alice caymmi, lívia nestrovski, arthur lacerda, bruno consentino e, em alguns shows, da própria juçara. “a minha intenção é chegar no limite do que é possível ser canção e expandir os seus pilares de harmonia, ritmo e etc. me interesso por esse tipo de música que nasce de uma simplicidade extrema porque de certa forma o noise é, em geral, ‘selvagem’. essa sonoridade crua tem um sentimento muito forte e que me atrai”, afirma.

o disco tem oito faixas. uma metade é de releituras de músicas do congado mineiro, manifestação popular recria a coroação de um rei do congo. a outra parte são versões de vissungos, cantigas de trabalho de escravos da região mineradora da cidade de diamantina (mg) presentes no disco  canto dos escravos, de 1982. “o canto dos escravos é uma compilação de partituras recolhidas no início do século passado por aires da mata machado [filósofo e linguista]. o material foi lançado em disco pelo estúdio eldorado na década de 1980, com as interpretações de clementina de jesus, geraldo filme e tia doca da portela. tem um força ancestral muito grande e achei que seria interessante de se pensar para entrar nesse mergulho totalmente diferente”, conta juçara.

as batidas assimétricas de grande anganga muxique, a hipnótica canto ii e os climas minuciosos de taio e eká mostram uma música que amplifica suas intensidades. deixando de lado qualquer visão patriarcal ou condescendente, os cânticos dos escravos são recriados em nessa força transcendentais-ancestral. “a figura do anganga vem do registro linguístico da nação angolense banto. é o ancestral, o mestre maior, o grande chefe”, explica juçara.

mas a posição diante dessa imanente referência ancestral não é uma reverência cega, estrita ou dogmática. é um ponto de partida para entrar em outros territórios, criar e recriar fluxos e subjetividades. anganga é um marco simbólico de um momento pulsante da música brasileira contemporânea. não se trata de “preservar”, mas de sublimar as fronteiras – questão transversal a alguns dos músicos mais vitais do país no momento: o passo torto no limiar do samba e da canção; o afro-punk-noise do metá metá; o um maracatu sem amarras, de baile solto, de Siba. um genciamento coletivo visceral que embaralha história, memória, ancestralidade.

 

anganga se entrelaça espontaneameante com o projeto coin coin, da saxofonista e artista plástica norte-americana matana roberts. o trabalho é uma série de discos (12 volumes no total; o mais recente, coin coin chapter three: river run thee saiu em 2015) que explora a história afro-americana com uma combinação de narrativas históricas, storytelling, performance, som e imagens.

musicalmente falando, os três capítulos são completamente diferentes: uma peça eletroacústica de free jazz; um quarteto jazzísitco acústico; colagens ambient noise de eletrônicos, sax e voz. contudo, os discos e o projeto como um todo são atravessados pela ancenstralidade e espiritualidade que envolvem aquelas histórias. os gritos (os quais juçara também aborda) desolados de mississippi moonchile, o segundo capítulo, sintetizam perfeitamente:

o que o coin coin e o anganga carregam é, enfim, essa força ancestral que transcende e nos constitui hoje, ontem, sempre. em entrevista ao the quietus, matana diz: “realmente tenho um grande interesse no mundo espiritual: os fantasmas e coisas que não podemos necessariamente ver mas sentir. Uma exploração de fantasmas e coisas dessa natureza”. juçara, em sintonia, completa: “os cantos são tão fortes que atravessam o tempo”.

publicado originalmente na Folha de Pernambuco

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