Abdala: universos sonoros de vidas severinas

 

a música do goiano bruno abdala trabalha na categoria de lugar. seus discos operam sempre com a criação de um universo sonoro imersivo recheado com detalhes mínimos. zuuum, o seu álbum mais recente, é mais um passo nesse caminho. o projeto multimídia é uma parceria os músicos iago mati, de são paulo, e o conterrâneo kboco foi apresentado na mostra música e audiovisual na olido, em são páulo, organizado pelos selo brava e submarine, e lançado como disco pela propósito records (o selo do abdala).

o texto de apresentação do álbum resume a reunião entre os três artistas como uma forma de “criação de um ambiente onde as similaridades do sertão brasileiro e da áfrica subsaariana — cores, texturas, crenças e sons — moldem o surgimento de um novo universo em som e imagem”.

o álbum tem como pano de fundo formas musicais eletrônicas minimalistas e repetitivas — abdala ressalta aqui a influência de gente como steve reich, can, neu! e silver apples.  a partir disso, ele lança sutilmente samples de sons ambientes (pássaros, água, ventania), cantos do congado, aboios, garimpeiros de serra pelada e trechos do disco sons da transamazônicazuuum constrói-se como um desenho sonoro, paisagem imaginativa e mística desse entrelugar de sertão, áfrica, amazonas. ou na definição do próprio: “um poder natural existente em cada um dos seres vivos, uma força bruta e cristalina que emana de nossos corações”.

“por estar mergulhado nessa busca por gravações de música tradicional, eu segui adiante tentando criar um panorama místico dos interiores do brasil”, diz abdala, que nasceu no município de catalão, interior de goiás. “não sei muito bem se consegui, mas tem a ver com solidão, fé, a natureza conversando com o homem mais do que o homem conversando com a natureza e os processos de manufatura que ainda persistem (cada vez menos) na vida interiorana (por isso o uso dos garimpeiros)”, completa.

na faixa zuuum #9, há uma entrevista com o vaqueiro seu gregório. analfabeto, sem escola, sem hospital, “já acostumado” com o açoite, com a exploração e com a miséria. conformado: viúvo, não levou a mulher ao médico “porque quem tem de morrer num…” como o fabiano, de vidas secas, mal consegue se expressar, massacrado pela vida seca. mais uma entre tantas vidas severinas.

a beleza e a aridez da vida sertaneja é ponto transversal da música de abdala. for those who came from nothing, lançado no final de 2014, tem como tema o êxodo rural, a despedida do sertão. “esse trabalho é sobre a experiência de deixar para trás os amontoados da vista, as lembranças, a fé e as histórias vividas. para quem veio do nada e para quem ainda segue por ele”, escreve na apresentação do disco. assim como o zuuum, é um álbum que reúne a música tradicional com o drone meditativo.

“eu venho da periferia de uma cidade que tem uma tradição musical forte, que são as congadas. então isso tá dentro de mim, querendo ou não. tanto no sétima como e no catalão [discos anteriores] eu consigo enxergar a presença rítmica dessa vivência no resultado final das composições, a grande diferença é que nos trabalhos que vieram depois essas influências começaram a saltar mais em relação a começar as composições a partir delas e não o contrário”, aponta o músico. “eu nunca fiz nada na intenção de ser um resgate das tradições pelo fato de nunca ter considerado que eu deixei de viver isso. entende? mesmo me vendo com um cara que comete blasfêmias ao fazer isso porque eu vou muito pela emoção que a expressão me causa”, avalia.

compondo diálogos entre as tradições, abdala procura encontrar um caminho próprio. trata das permanências, memórias, resquícios. as ruínas de uma casa grande que ainda está presente. “eu tô há anos luz de ser um jazzista, um improvisador, um homem da música livre, enfim. mas tem uma coisa que todo esse pessoal que vive isso fala e que eu acredito muito que é a questão de achar a própria voz. eu não lembro quem era, mas eu lembro de uma vez algum jornalista perguntar pra um jazzista o que era o jazz e o cara responder ‘o jazz é a pessoa por trás do instrumento’.

for those… é também um disco mais narrativo, quase como uma história. “foi o foi o primeiro trampo que eu já sentei sabendo o que queria contar”, explica. “eu tinha começado a viajar bastante nessa época e tava voltando a ter uma relação maior com o pio gomes (bairro que cresci) no interior de goiás. em paralelo a isso eu conheci pessoas aqui em goiânia mesmo e em outros lugares que eu passei que saíram dos seus locais de origem e foram viver o mundo. o comum de todas essas pessoas era o sentimento de derrota em relação à vida e isso é muito foda. muita gente saiu de um lugar em que as coisas não estavam boas e foram acabar em outro lugar onde, por mais que tenham ganhado mais dinheiro, a sensação de tristeza era muito maior”.

publicado originalmente em 30 de março de 2016.

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