A vanguarda negra do Brasil contemporâneo

Pernambucanos do Bongar classificam sua música como “tradicional contemporâneo”

originalmente publicado em 29 de outubro de 2017.

No início dos anos 1930, diante do crescimento das escolas de samba, os sambistas do Rio de Janeiro sentiam a necessidade de criar um batida mais acelerada para dar conta dos desfiles de rua. Valendo-se de suas habilidades técnicas de sapateiro, Alcebíades Barcelos, o Bide, resolveu “encourar” uma lata de manteiga de 20 quilos com papel de saco de cimento umedecido, criando assim o tambor de som grave conhecido como surdo. O resultado foi um verdadeiro lance de mestre: a partir da intuição, improviso e de uma percepção corporal, Bide transformou o samba e, com outros músicos do bairro do Estácio de Sá, desenvolveu uma linguagem nova e singular, distante do toque amaxixado de Donga.

Entretanto, categorias como “vanguarda cultural”, “música de invenção” e “inovação estética” não são atribuídas ao samba, mas sim – ou somente – ao Modernismo e à Semana de 22. Ao samba, gênero forjado na mão de negros descendentes de escravos, é destinado uma espécie de morte térmica: o paternalismo de uma “tradição”, tutela estratificante que enclausura todas as invenções do contemporâneo e engessa o agora sob a égide da museificação.

O caso do samba ilustra um dentre inúmeros apagamentos históricos das culturas afro-diaspóricas em um País que, historicamente, tentou varrer seu passado escravista para baixo do tapete – o Hino da Proclamação da República, em 1890, afirmava: “Nós nem cremos que escravos outrora/ Tenha havido em tão nobre País”. É um dos sintomas da escravidão e racismo que ainda reinam e definem a sociedade brasileira – as nossas relações sociais, subjetividades, construções de valores etc. Em resposta a esse quadro, uma série de obras contemporâneas, do cinema à música, além de uma denúncia desta realidade, propõem um panorama de transe, delírio e sonho afrofuturista e pós-colonial – uma vanguarda negra contemporânea.

Misturando documentário e ficção científica lo-fi, o cineasta Adirley Queirós, da Ceilândia, Distrito Federal, traz uma história de negros vítimas de violência policial em busca de vigança contra o Estado brasileiro em Branco Sai, Preto Fica (2015). Um filme ruidoso, sujo e de corpos amputados – uma metáfora da própria cidade, da memória e da condição do negro.Buscando a radicalidade, Adirley critica o modo fetichizado como a periferia costuma ser retratada. “Uma das primeiras questões era como a gente lidaria com esse corpo periférico. Interessava uma radicalidade em relação à gramática. A ideia de falar da periferia é muito mais do que mostrar o local. É assumir radicalmente a forma que se fala, o corpo que é falado e toda a relação que existe ali – a musicalidade, o corpo, a fala, as coisas boas e coisas ruins. É muito mais uma ideia de falar com a periferia, um diálogo”, apontou, em entrevista ao Vozes do Brasil.

A obra ‘Colonização’ faz subversão simbólica com pedras portuguesas banhadas em azeite no pilão de madeira
                  Jaime Lauriano refaz mapas do Brasil com as violências sofridas pelos negros escravizados em ‘Brasil’

 

Um dos premiados no 20º festival SESC_Videobrasil, o artista visual Jaime Lauriano aborda a descolonização ao refazer as primeiras cartas náuticas e mapas do Brasil colônia, agora assinalados com as violências sofridas pelo negro (escravidão, a suposta democracia racial, etnocídio etc). Também utiliza materiais como a pemba branca, um giz utilizado em rituais de umbanda. A obra Colonização (2016) captura uma virada simbólica: as pedras portuguesas são banhadas em azeite de dendê e colocadas em um pilão de madeira prontas para serem trituradas.

Ele conta que foi buscar compreender a condição do negro a partir da história, mas “não queria me colocar como historiador imparcial, não queria utilizar totalmente desses conceitos que, para mim, são ocidentais e colonizadores. Então fui tentar entender a história a partir do meu corpo. Por isso comecei a trazer esse corpo racializado, o corpo negro como um elemento condutor para minhas reivindicações históricas”.

Jaime destaca ainda o processo de epistemicídio, isto é, a exclusão de saberes e culturas não assimiladas pela hegemonia branca ocidental. “Tanto à direita quanto à esquerda, a história é construída em cima de um epistemicídio. Mesmo a esquerda, mesmo buscando a igualdade o faz na mão de obra – e não busca igualdade na forma de construir saberes”.

Reinventando as tradições

Outro símbolo deste movimento em torno de um experimentalismo negro, o álbum Anganga, parceria da cantora Juçara Marçal (do Metá Metá) com o produtor noise Cadu Tenório propõe a desconstrução de narrativas históricas ao reinventar os cantos da tradição do congado mineiro e as cantigas de trabalho dos escravos mineradores (os vissungos). “Os cantos são tão fortes que atravessam o tempo”, diz a vocalista, como que apontando para uma comunhão do passado, presente e futuro em um só. Uma temporalidade que borra as demarcações entre tradição e vanguarda, história e experimentação.


Nesta mesma linha atua o grupo Bongar, cria da Nação Xambá, do quilombo urbano Portão de Gelo, em Olinda. Samba de Gira (2016) e Ogum Iê (2017)  intercalam gravações de rituais religiosos de sua comunidade com as suas próprias canções, revelando, nas palavras do vocalista Guitinho, “a criatividade em parceria com o legado cultural que herdamos de nossos ancestrais” – ele ainda classifica sua música como “tradicional contemporânea”. Com o álbum Sonorosa engatilhado para 2018, o mestre de ciranda e maracatu rural de Nazaré da Mata, Anderson Miguel, 21 anos, é outra prova da tradição como um conhecimento vivo e força que se reinventa.

O funk é outra potência criativa neste assunto. Funkeiros estão discutindo BPM (batidas por minuto, a grosso modo, a velocidade das músicas), hibridizações musicais várias e ampliando suas paletas sonoras. No Rio de Janeiro, tal qual Bide fizera na década 1930, o DJ Polyvox, da favela Nova Holanda, desenvolveu sua própria gramática musical: gravou o som de uma garrafa pet batendo na porta do quarto para fazer a base do Tambor Coca-Cola, a batida musical do funk 150 bpm, a “putaria acelerada” que domina os bailes da juventude carioca.

Com o recém-lançado Action Lekking, Negro Leo ressalta estas conexões com a cultura “lelek” – em suas palavras, “a cultura de uma juventude empobrecida que dribla e resiste cada situação com suingue e alegria” e que manifesta-se em em fenômenos sociais contemporâneos como o rolezinho, o funk ostentação, as cotas raciais e o passinho. Quanto à vanguarda negra, ele assume que não busca “pesquisar o que formalmente poderia ir além do que está sendo produzido no entorno”. Mas saliente: “Tem algo mais vanguardista do que ser preto, mermão? Presta atenção no mundo, na realidade toda e na experiência da invisibilidade e me responde se tem algo mais vanguarda e sinistro do que ser preto”.


Este movimento – plural, heterogêneo e descentralizado por excelência – está sintonizado com trabalhos de outros artistas mundo afora, como os discos da saxofonista e artista multimídia Matana Roberts, as intalações de Emo de Medeiros, os tratados téoricos do coletivo Black Quantum Futurism, a poesia de Moor Mother. Contudo, consolidam-se sob a condição tipicamente brasileira em que a tradição e vanguarda se misturam em uma relação – uma vanguarda da retaguarda. Como afirma o escritor nigeriano Chinua Achebe, a tradição não é “uma necessidade absoluta e inalterável”, mas a “metade de uma dialética em evolução – sendo a outra parte o imperativo da mudança”.

O filósofo Gilles Deuleuze indica que a filosofia consiste em inventar conceitos. Neste sentido, traçar o plano de uma vanguarda negra no Brasil contemporâneo é pensar um afroperspectivismo: sair do modelo fetichista de vanguarda enquanto os destacamentos avançados da novidade artística, passando a tratá-la como a invenção de formas sensíveis da vida – o nó arte e vida. Uma política acionalista que rompe com o cogito cartesiano (toda existência humana subordinada ao pensamento; penso, logo existo) e que evoca outros saberes, outros corpos, outras histórias. Uma epistemologia outra. Como o baiano Diogo Moncorvo ao evocar um panteísmo afro em sua persona artística Baco Exu do Blues e clamar que “a Lei Áurea é todo verso que eu escrevo”, na música Esú. A vanguarda como jogo de cintura.

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