A nova música africana em 15 discos

maior nome da música africana, o multinstrumentista nigeriano fela kuti (1938–1997) tornou-se um ícone do ativismo pan-africano e conquistou o mundo com o afrobeat. apesar da (merecida) fama e reconhecimento do afrobeat, a música da africana não se restringe a ele. de fato, a diversidade e complexidade cultural do continente é tão enorme que não faz sentido falar em música africana como uma espécie de gênero ou classificação. esta seleção de 15 lançamentos é um ponto de partida para conhecer, ouvir e pensar a música do continente dentro dessa perspectiva do múltiplo e das particularidades, buscando fugir da concepção mais generalista.

neste sentido, vale destacar o excelente catálogo do nyege nyege tapes, selo de uganda criado este ano e que marca um ponto de virada interessante na música do continente africano: enquanto selos britânicos ou americanos dedicados à chamada “world music” chegam a afirmar em seus slogans que “erradicam fronteiras” (estas, no caso da áfrica, construídas pelos próprios europeus), o nyege é símbolo da áfrica falando por si própria e de si própria, sem o exotismo embutido do colonizador.

otim alpha – gulu city anthems (uganda)

o estreante (e maravilhoso) selo nyege nyege tapes apresenta o primeiro lançamento internacional de otim alpha, pioneiro da música eletrônica de uganda. otim alpha começou a reinterpretar as canções da larakaraka (uma dança popular entre os jovens do país) através de software de computador. o resultado: uma polirritima eletrônica louca e acelerada.

awa poulo – poulo warali (mauritânia/mali)

awa poulo é uma cantora da etnia fula (também chamada de peulh) e vive no vilarejo dilly, na fronteira da mauritânea com o mali, onde habitam vários povos distintos. sua música combina a musicalidade fula – flauta desenhando um clima morno, xiquerê – e do mali (guitarras levemente distorcidas, polirritmia intricada). um dos grandes discos do ano.

va – gao rap: hip hop from northen mali (mali)

coletânea que cobre a última década da cena rap do mali, que circulava em comércio informal de mp3 e downloads. é uma reelaboração do rap tradicional em estúdios caseiros, só no computador e sentetizador, incrementado com umas levadas meio ragga e reggaeton.

denis mpunga e paul k. – criola (congo/bélgica)

denis (voz e percussão), aos 13 anos, e sua família deixaram o congo e partiram para bélgica, onde fez amizade com paul (eletrônicos). o ep resgata algumas das músicas gravadas dupla entre 1980 e 1984 em lps e fitas cassete raros. em meio à febre da world music dos anos 80, a dupla buscava desmistificar a imagem preconcebida da música africana.

king ayisoba – 1000 can die (gana)

os tradicionais tambores de gana com beats eletrônicos, flows e corporalidade de hip hop. e ainda tem a presença marcante do kologo, um alaúde de duas cordas que ayisoba toca com maestria – destaque para africa needs africa e wekana. um rap ancestral cosmopolista.

kasai allstars e orchestre symphonique kimbanguist – around felicité (congo)

trilha sonora do filme felicité, do franco-senegalês alain gomis. o supergrupo kasai allstras leva adiante o chamado “congotronic”, um mantra rítmico executado pelos likembés (um piano de dedo com som elétrico e metálico). a sympnique traz belos arranjos para peças do compositor estoniano ärvo part.

v.a. – sounds of sisso (tanzânia)

uma mostra da cena eletrônica que há 15 anos circula pela megalópole dar es salaam. originada nos bairros periféricos, a sonoridade consiste em batidas hiperaceleradas e loops frenéticos, misturando influências da house e do taarab (espécie sincretismo musical da cultura muçulmana e da costa leste africana muito popular nas ilhas zambibar, litoral do país). outro lançamento fundamental do nyege nyege tapes.

oumou sangaré – mogoya (mali)

oumou sangaré é uma diva em seu país, tida como referência por muitas cantoras da nova geração. este é o seu primeiro álbum em oito anos e tem a voz de sangaré brilhando em todos os momentos, seja no groove de yere faga (com o lendário baterista nigeriano tony allen), no rock de fadjamou ou na delicadeza da faixa título.

orchestra baobab – tribute to ndiouga dieng (senegal)

o primeiro disco da grande banda de baile de dakar em dez anos é uma homenagem a ndiouga dieng, antigo vocalista do grupo. uma mistura deliciosa dos ritmos do oeste africano com o balanço da música cubana.

tinariwen – elwan (mali)

talvez a banda africana mais popular do mundo, os músicos do tinariwen são da etnia tuareg, povo nômade que habita o saara e norte da áfrica. este disco foi gravado na frança e na califórnia, onde contaram com apoio de mark lannegan (ex-screaming trees) e kurt ville. instrumentos de cordas tradicionais, camadas de percussão e uma guitarra hipnótica guiando tudo – o que rendeu o título infame de “led zeppelin do deserto”.

tshegue – survivor (congo/frança)

duo formado pela vocalista faty sy savanet (natural de kinshasa, congo, residente em paris) com o percussionista e produtor musical nicolas ‘dakou’ dacunha vem com survivor, seu primeiro ep. apenas quatro músicas, mas um resultado vibrante da combinação de polirritimia com a bass music.

v.a. – sweet as broken dates: lost somali tapes from the horn of africa (somália)

a somália vivia uma guerra civil de quase vinte anos e em 1988 a rádio hargeisa, com quase meio século da cultura musical do país em seus arquivos, estava ameaçada de bombardeio pelo governo autorista de siad barre. radialistas e operadores fizeram o que tinham em mãos para preservar o acervo: enviaram outras para países vizinhos como dijibouti e etiópia e até enterraram fitas para sobreviveram a um iminente bombardeio. estas fitas foram resgatadas e agora, sob a pesquisa conduzida por vik sohonie e nicolas sheikholeslami, o selo ostinato records digitalizou estas gravações raras. ouvimos uma série de paralelos: a cultura dub jamaicano, reminiscências de sonoridades da etiópia, um toque bollywood…

les amazones d’afrique ‎– république amazone (áfrica ocidental)

 um coletivo de musicistas da áfrica ocidental (majoritariamente do mali, onde as mulheres precisam pedir permissão ao marido para simplesmente sair de casa) dedicado à igualdade de gênero e a levantar fundos para a panzi foundation, um hospital no congo que trata mulheres vítimas de abuso. cantando em inglês, francês e mandinka, as amazonas compilam sonoridades de diversas regiões, do conhecido congotronics a embalagens de acento mais pop.

vieux farka touré – samba (mali)

filho do legendário ali farka touré, vieux mostra personalidade e desenvoltura ao transitar pelo reggae, rock, funk e blues neste álbum ‘ao-vivo-em-estúdio’. com levadas hipnóticas, é um disco que (ao lado do novo trabalho de bill orcutt) oxigeniza a aura e demanda virtuosística da guitar music, com destaque para ba kaitere.

 girma bèyènè & akalé wubé – éthiopiques vol 30: mistakes on purpose (etiópia)

bèyènè é uma lenda do jazz etíope. nos anos 1980, quando o país vivia uma ditadura, ele exilou-se nos eua, onde sofreu com a falta de emprego. em 2008, ele e outros músicos refugiados foram homenageados no festival de jazz de addis abeba e decidiu ficar por lá de vez. o álbum marca o glorioso retorno do cantor e pianista. jazz, funk e soul para os aficionados por groove.

originalmente publicado em 30 de agosto de 2017.

Facebook Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *