80 anos de Jocy de Oliveira, pioneira da vanguarda e música eletrônica

brasil, 1959 a bossa nova emerge com dois álbuns arrebatadores, que mudariam para sempre o curso da música brasileira: chega de saudade e bossa nova, os primeiros discos de joão gilberto e carlos lyra, respectivamente.

naquele mesmo ano a compositora e cantora jocy de oliveira também produziu o seu primeiro trabalho. lançado pela gravadora copacabana, o álbum levava o título a música século xx de jocy. apesar do nome pomposo, era de fato uma incógnita musical desafiadora para o momento. a musicista curitibana, na época com 23 anos, partia de um conceito de “anti-bossa” para propor uma canção atonal e de rítmica assimétrica que abordava vários temas controversos. o álbum abre com sofia suicidou-se, passava pelo assassinato de um crime e terminava com um estranho samba gregoriano – antecipando o encontro do avant-garde com o popular que seria celebrado na música de tom zé e arrigo barnabé. na época, nem mesmo os ótimos músicos de estúdio entendiam o que jocy pretendia. eles sabiam ler música, mas que mesmo assim não conseguiam interpretar o que sua autora queria com suas dissonâncias e fragmentados tempos musicais [1].

 

mas aquele foi apenas o primeiro passo. ao longo de sua vida jocy de oliveira pavimentou uma obra pioneira na música de alto repertório. ainda que pouco lembrada (completou 80 anos em abril do ano passado sem nenhum alarde da imprensa)[2], ela foi uma das principais agentes no processo de renovação da música de concerto no brasil, importando conceitos das vanguardas europeias do século xx. ainda em 1961, em parceria com o maestro eleazar de carvalho, seu marido, ela organizou a semana de música eletrônica, no teatro municipal do rio de janeiro e são paulo.

a semana apresentou a música eletrônica pela primeira vez no país. todas as peças de stockhausen, cage, pousseur, berio, ligeti foram executadas em primeira audição no brasil”, destaca jocy. o evento contou com a presença dos compositores henri pousseur e david tudor – este último apresentou kontakte, de stockhausen (que teve de cancelar a vinda de última hora), e mudou a vida do jovem jorge antunes, autor do primeiro lp brasileiro de música eletrônica[3]. o evento teve também a estreia controversa de apague meu spotlght, uma peça de “teatro-música” escrita por jocy para cerca de 13 atores e bailarinos e encenada teatro dos sete (companhia criada pelo diretor gianni ratto e os atores fernanda montenegro, ítalo rossi e sergio britto).

a peça teve participação do compositor italiano luciano berio, com quem jocy manteria um relacionamento amoroso no futuro. “eu imaginava um tipo de drama eletrônico, mas no brasil não tínhamos condições de trabalhar num estúdio para música eletrônica e também eram poucos os disponíveis na europa. propus-lhe então uma parceria, e ele aceitou com entusiasmo. eu terminaria de escrever o texto dramatúrgico, e ele faria a música eletrônica com a minha assistência”.

 

todos os registros da apresentação foram destruídos pela ditadura. em depoimento gravado para a vídeo ópera berio sem censura (2012), fernanda montenegro relembra: “estávamos em pleno ensaio no teatro ginástico quando ouvimos as dramáticas notícias de que o presidente jânio quadros havia renunciado e deixado o país à beira do caos. interrompemos o ensaio e fomos para nossas casas, perplexos. não se podia avaliar a avalanche de eventos políticos que isso foi capaz de desencadear. nem imaginávamos que a rádio mec logo seria ocupada pelos militares e o apague meu spotlight seria apagado com tantas outras gravações relevantes para nossa história”.

“o texto de dramaturgia de apague meu spot light foi publicado e distribuído na estreia. trazia detalhes específicos e elaborados em relação à minha concepção cenográfica e visual, e essa visão imagética do espetáculo talvez tenha sido seu grande forte: pouco compreendida por alguns críticos, mas bem definida pelo crítico miroel silveira e pela escritora e jornalista helena silveira, ao dizer que num teatro do futuro restaria a imagem”, detalha a compositora.


estados unidos e europa

em 1963, jocy deixou o país e foi viver nos estados unidos. também passou temporadas na europa e anualmente retornava ao brasil, onde realizou várias intervenções urbanas.

“tive algumas dificuldades quando apresentei outros trabalhos no brasil durante aquele período, tais quais comunicações (em 1969, com colaboração do maestro cláudio santoro) na sala cecilia meireles e treasure hunt (1973) no festival internacional de campos de jordão, assim como homage a duchamp(1974), tomando todo o centro da cidade de curitiba. alguns dos eventos foram interrompidos pelo dops pois eram inspirados e baseados em ecologia. fomos salvos pelo senador franco montoro, que interveio”, relata[4]. 

eleazar

jocy e o maestro eleazar de carvalho, seu marido e co-realizador da primeira semana de música eletrônica do brasil (1961)

apague meu spotlight

durante os ensaios da controversa ‘apague meu spotlight’. da esquerda: jocy, italo rossi, fernanda montenegro e gianni ratto

outro importante trabalho de jocy nesta fase é teatro probabilístico (1967), uma instalação baseada em análise combinátoria. o público era convidado a andar descalço sobre uma “partitura/mapa” de uma cidade imaginária, ativando por meio de sensores um banco de 87 sons concebidos para a ocasião. o trabalho nunca foi apresentado no país. “seria impossível vir ao brasil era provocativo, fazia pensar e questionava o poder militar”, pontua. 

durante os anos 1970, jocy voltou-se para a carreira de concertista, intensificando o trabalho igor stravinsky (de quem foi solista), john cage, iannis xenakis e outros dos mais proeminentes criadores da música do século xx. “ouvi-os e assimilei suas reflexões, comentários, críticas. foram anos de profundo aprendizado e riquíssima influência. passei sete anos estudando, gravando nos usa e tocando em várias partes do mundo a obra pianística de messiaen. fui solista sob a batuta de stravinsky, me apresentei com cage, foss, santoro, xenakis, stockhausen, colaborei com berio e executei primeiras audições destes compositores”. essa convivência foi detalhada no livro diálogo com cartas (2014), vencedor do prêmio jabuti.  como lukas foss disse a ela, em uma noite em nova york: “você foi a musa de todos nós”.

 

jocy era uma brasileira (logo, terceiro-mundista), mulher e jovem que estava em um círculo de hegemonia masculina formado por pessoas muito mais velhas. e isto foi nos aos 1960 e 1970, quando o machismo era ainda mais naturalizado. “a música erudita é uma das áreas em que a situação da desigualdade de gêneros é ainda extremamente sensível. existe, sim, uma discriminação na música contra a mulher compositora e mulher regente! talvez porque sejam áreas que ela tem que impor ao universo masculino sua estética, seu pensamento e seus conceitos”, sentencia. “por exemplo, ainda se discute a condição da mulher compositora. é uma ‘condição’! organizam-se festivais, simpósios, congressos sobre a mulher compositora. uma espécie de gueto. alguém imagina um festival que homenageasse o homem compositor? claro que não. nesse universo masculino, a mulher continua a ser minoria, quase nos mesmos moldes do passado. a história da música ainda está por ser reescrita pela mulher… vide os programas internacionais de música erudita – contemporânea ou de qualquer outro período. as mulheres compositoras são sempre uma ínfima minoria! a principal das razões é, claro, a repressão que a mulher sofreu através dos séculos e a

fez aceitar um segundo plano. sofremos sempre sob o machismo , sutilmente ou abertamente. não superei, sou guerreira e assim convivo com ele”, completa.

márcia x invadindo o concerto de cage e jocy com triciclage (1986) 

aqui, há uma vale mencionar um acontecimento curioso. em 1986, jocy e john cage interpretavam a peça winter music, de autoria de cage, em concerto na sala cecília meireles, no rio, quando uma mulher entra em cena pedalando um velocípede. esta foi a intervenção triciclage – música para duas bicicletas e pianos, dos multiartistas márcia x e alex hamburguer


anos 1980 e as óperas multimídias

a carreira como concertista foi fundamental no seu desenvolvimento artístico, mas a afastou de seu trabalho mais autoral. portanto, nos anos 1980, ela decide focar em suas próprias composições. “como pianista, dei minha contribuição para a história da música contemporânea do século xx. chegara o momento de me concentrar na minha própria criação, que estava sempre relegada a segundo plano por falta de tempo”, afirma.

 

foi então que ela lança o seu segundo álbum brasileiro (terceiro da carreira), um item cult entre colecionadores: estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos, lançado em 1981 pela fermata e com relançamento previsto para o primeiro semestre deste ano pela italiana soundohm. o disco traz uma série de composições com histórias não-lineares que investigam a semântica e fonética da voz humana e sua manipulação por processamentos eletrônicos, o que gera a narrativa não-linear das “estórias”. estas composições foram iniciadas iniciadas em 1966. posteriormente, em 1968, e a estória ii foi gravada como faixa única em seu segundo lp, lançado pelo selo americano new music circle. jocy cita o seu livro diálogo com cartas:

“iniciei em 1966-1967 uma série de composições – estórias – para voz, meios eletroacústicos e instrumentos acústicos que continuam a contar uma história não linear e que não conta. estória i (acusmática) foi minha primeira peça eletroacústica pura, seguida de estória ii, e compostas no estúdio de música eletrônica da washington university, st. louis, em 1966, tendo como material vocal a voz da mezzosoprano norte-americana rosalyn wykes. focalizavam uma investigação da sílaba falada e suas propriedades fonéticas e semânticas, que me conduziu a uma renúncia do discurso linear e ofereceu-me uma riqueza de materiais com ênfase na qualidade essencial da própria voz humana. seriam, talvez, traços da voz de cathy berberian que me acompanhariam por vários anos, como um tipo de urstimme (voz primordial) se esgueirando entre meus textos sônicos e memórias? 

assim, com o decorrer dos anos, não só me preocupou a pesquisa por técnicas vocais estendidas, como a manipulação da voz por processos eletrônicos, isto é, do tratamento analógico, ela passa a ser trabalhada através de processadores vocais em tempo real, sampleada e processada por técnicas numéricas, ou melhor, por meio de codificadores vocais ou vocoders como dispositivos de análise/síntese. essa pesquisa me levou a procurar também outros meios de expressão em diferentes culturas, criando uma linguagem multicultural inteligível.

num desenvolvimento espontâneo, a voz toma corpo na procura de uma nova linguagem e desconstrução cênico/musical, tentando encontrar novos modelos de estruturas que possam vir a transformar esse conceito tradicional de “ópera” ou relação música-teatro.”

esta relação com a voz passou a permear toda obra de jocy, que procurou criar uma “linguagem multicultural inteligível”. o texto da ópera multimídia inori à prostituta sagrada (1993), por exemplo, mistura línguas indígenas do brasil, japonês, inglês, francês, italiano e português – “embora a linguagem dessa ópera seja, sobretudo, sonora, plástica e gestual”, ressalta.

sobre as diferenças de uma ópera tradicional e uma ópera multimídia, ela explica, com uma alfinetada: “minhas óperas multimídias são muito autorais e crio concomitantemente o roteiro,parte cênica visual assim como a música, além de participar como intérprete. não é a mesma coisa que faz o compositor tradicional que escreve uma obra sinfônica ou camerística e entrega ao regente ou músicos para executarem indo apenas assistir a estreia…”

 

especialmente desenvolvida para o planetário do rio de janeiro, a série music in space, solaris (2001) mostrou a renovação de jocy, que consolidou seu antigo interesse e influência pelas teorias do astrofísico stephen hawking. “henri bergson afirmou que intuição não é percepção, e sim memória, e hawking questiona: “por que temos a memória do passado e não do futuro?”, argumenta. “o planetário nos oferece uma sensação de movimento, vibrações do universo, como se as frequências viajassem pelo espaço, sugerindo uma maior integração do homem e o cosmo. um planetário é como um templo. o templo do infinito, onde um evento sensorial e multidimensional reporta a um espaço onírico de reflexão e tranquilidade expandindo nossa percepção”.

aos 80 anos, jocy não obteve o devido reconhecimento da dimensão de sua obra. em 2008, a tratore lançou um box reunindo quatro dvds com bastidores e apresentações das óperas kseni – a estrangeira (2006), as malibrans (2000), inori à prostituta sagrada (1993) e fata morgana (1986/1987). neste mesmo ano foi realizado o último grande evento em seu nome, a mostra retrospectiva imersão, no oi futuro ipanema, concentrando concertos, intervenções e exposição — incluindo a vídeo instalação noturno de um piano, que “denuncia a situação agonizante da música erudita no mundo contemporâneo” [5]. ela faz uma comparação com os seus anos iniciais na vanguarda: “foram anos de ruptura assim como foi o dadaísmo. eu me considero feliz de ter vivido aqueles dias… o brasil tinha sede de descobertas, de informação, o púbico reagia e não era passivo como hoje”.

 

mas se o mundo agoniza, jocy continua firme. diz que vai trabalhar “enquanto puder respirar”. em 2012 ela apresentou uma nova versão de apague meu spotlight no theatro municipal do rio com fernanda montenegro e gabriela geluda, soprano do ensemble jocy de oliveira. atualmente ela desenvolve mais uma ópera multimídia, entitulada liquid voices, a história de mathilda segalescu. “talvez minha última peça de grande porte e desta vez uma ficção vivida num tempo histórico. esta fascinante história está me seduzindo totalmente e o desafio será não apresentá-la linearmente, deixando margem a participação de um ouvinte ativo”.


exploração das simbologias femininas

uma característica que permeia toda a obra de jocy é o imaginário das mitologias femininas, especialmente na trilogia de óperas multimídias inori à prostituta sagrada (1993), ilud tempus (1994) e as malibrans (2000) (veja abaixo o comentário da própria autora sobre cada uma), que marca o retorno da parceria com fernanda montenegro. posteriormente as peças também são lançadas em cd e estão disponíveis no spotify.

“absorver o tempo em sua essência não estruturada torna-se uma das questões primordiais na minha música. isso me leva a trabalhar com a visão atemporal dos mitos nas sociedades matriarcais da antiguidade, como a ‘prostituta sagrada’ nos contos de fadas, a ‘diva’ como personagem fadada à morte ou a vítima nas óperas convencionais, o mito da medea transportado para a contemporaneidade como mulher transgressora, discriminada, heróica, e todos aqueles mitos ligados à figura da mulher e seus valores que se seguem nos fragmentos de meus textos para seis entre minhas óperas”, detalha.

ela observa que o objetivo das óperas não é “contar uma história”. “o intuito é provocar uma audiência ativa e não aceitar uma audiência passiva. é despertar a percepção do ouvinte, espectador. é motivar sua imaginação, é deixar que o ouvinte componha e junte as peças de uma história que tem múltiplas interpretações”, explica. nesse sentido, percebe sua música como meio de enfrentamento político: “toda forma de expressão, de manifestação artística é um ato político. nada a ver com panfletário, mas fazemos parte de um mundo, hoje caótico. nossa obra é nossa voz e nosso único grito ou mesmo gemido”.


obras comentadas 

jocy de oliveira comenta a sua trilogia de óperas sobre mitologias femininas e mais uma em desdobramento:

 inori à prostituta sagrada (1993):

primeira ópera da trilogia, levou-me à índia e ao nepal para pesquisar esse mito. inori significa “oração”, em japonês, e é baseada numa diversidade de culturas, raças, crenças e religiões, compondo uma linguagem sonora do inconsciente. recria mitos, como o da prostituta sagrada, através de um rito de passagem.

 nas antigas sociedades matriarcais, a prostituta sagrada iniciava o homem escolhido por meio do coito sagrado. o resgate dessa figura significa o reencontrar do verdadeiro feminino e seus valores perdidos na sociedade patriarcal moderna. recentes estudos de fonologia indicam similaridades fônicas entre línguas indígenas no brasil e a língua japonesa. assim, embora a linguagem dessa ópera seja, sobretudo, sonora, plástica e gestual, o fragmentado texto faz uso de diversos idiomas – línguas indígenas do brasil, japonês, inglês, francês, italiano e português –, tendo em mente resultados sônicos e semânticos.

illud tempus (1994):

 em illud tempus (segunda parte desta trilogia) meu ponto de partida foram contos de fadas analisados por psicólogas mulheres seguidoras de jung – como, por exemplo, marina warner, esther harding, elinor gadon, glarissa pinkola, nancy qualls-corbett, adrienne rich. illud tempus significa “tempo de agora e de sempre”, em latim. é o tempo atemporal do contar, do sonhar, do inconsciente, de quando deus era mulher… um conto de fada contemporâneo.

 as malibrans (2000):

terceira parte de uma trilogia, enfatiza o lado escuro da “diva”, sua voz e seu papel como personagem operístico. Na grande maioria dos libretos tradicionais, podemos notar que a personagem feminina é sempre destinada à submissão ou condenada à morte. ao longo da história da ópera e também na vida real, essas divas com suas divinas vozes tornaram-se deusas no imaginário do público e foram muitas vezes levadas à insanidade. embora essa peça não apresente uma narrativa linear, grande parte das imagens reconstruídas baseia-se na figura cult de maria malibran, mesclada a difusas impressões de la Stilla (a “diva”), ficção de júlio verne em seu romance the carpathian castle.


kseni – a estrangeira (2005 – 2007)

após esta trilogia, kseni – a estrangeira segue o mesmo critério de trabalhar com a atemporalidade dos mitos. em minha ópera kseni, a estrangeira (2005-2007), resgato o mito da medea sob um ângulo político da mulher desterrada. kseni (a estrangeira, em grego) recria alguém que vem de outro lugar, de outros tempos, de outra cultura, alguém que pensa de outra maneira e luta pelo direito de ser diferente. a ópera aborda conflitos eternos, questões do nosso tempo, preocupações primordiais do ser humano em sua relação entre os homens, e do homem consigo mesmo, numa reflexão sobre o mito da Medea que se transporta para a realidade cultural e política do mundo em que vivemos hoje. esse mito é enfocado do ponto de vista da mulher transgressora, imigrante, denegrida, discriminada.

musicalmente, a peça tem como ponto de partida uma melodia medieval anônima em langue d’oc sobre o mito da medea. uma releitura dessa melodia resgata sua qualidade medieval, ampliada por conceitos contemporâneos e pelo uso extensivo da voz humana acompanhada de instrumentos tradicionais e étnicos, assim como meios eletroacústicos.


Notas

[1] mandei para jocy o seguinte de um post do blog o estranho mundo de pb pedindo para que ela confirmasse a veracidade da informação, ao passo em que ela respondeu diretamente: “é verdade”.

“Em 59 a bossa nova já era velha pra a moça recém casada Jocy de Oliveira Carvalho. Seu então marido, Maestro Eleazar de Carvalho (hoje falecido) não suportava mais a situação de sua bela esposa sair à noite e só voltar às 7 da manhã em casa porque estava gravando seu primeiro disco.Um dia ele resolveu ir até o estúdio pra entender o que estava se passando e lá ele encontrou ótimos músicos que sabiam ler música, mas que mesmo assim não conseguiam interpretar o que sua autora pretendia com suas dissonâncias e fragmentados tempos musicais. Rapidamente ele assumiu a batuta e naquela mesma noite regeu e gravou todas as faixas desse LP. Informação essa que não consta na capa desse disco, porque aquele trabalho ia pegar muitomal pra reputação do maestro.”

[2] não quer dizer que a marca dos 80 anos de jocy tenha passado absolutamente em branco. arthur daviepe registrou a data com uma breve retrospectiva em sua coluna n’o globo, mas isso é incomparavelmente menor do que, por exemplo, os 80 anos de tom zé, que foi marcado por extensas reportagens e análises críticas em jornais, portais e blogs de todo país.

[3] quando falamos de música eletrônica (1975), de jorge antunes, como o primeiro disco brasileiro de música eletrônica, não queremos dizer que foi a primeira obra eletrônica de um brasileiro registrada em disco – reginaldo carvalho já havia composto a sua sibemol em 1966 e a própria jocy trouxe sons eletrônicos na peça estória ii, seu segundo disco, lançado pelo selo americano new music circle em 1968. o disco de jorge antunes é assim indicado por ser o primeiro lançado no brasil, por uma gravadora do brasil, o que demonstra uma abertura do mercado fonográfico da época.

[4] os trabalhos de intervenção, óperas multimídia, instalações etc estão bem documentados na lista de obras fornecidas no site da compositora.

[5] jocy comenta sobre noturno de um piano e a putrefação da música de concerto: “trata-se de uma peça conceitual. o piano representa um dos ícones da nossa cultura ocidental que está submergindo assim como a música erudita, principalmente no brasil. por outro lado, o piano tem se tornado emblemático na minha obra desde que deixei de atuar como concertista. talvez uma libertação…”

originalmente publicado em 20 de fevereiro de 2017.

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